Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Duzentos anos de pesquisa, milhares de anos de história e cultura. 2018 vinha sendo um ano de grandes comemorações pelo bicentenário do Museu Nacional. No acervo, vinte milhões de itens de arqueologia, etnologia, história, paleontologia, botânica entre outras áreas, de valor incalculável para a história do Brasil e da humanidade. Localizado no subúrbio do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, o Museu Nacional é uma instituição que dialoga com a comunidade, abriga pesquisadores de todo o país, possui programas de pós-graduação, recebia inúmeras escolas do Rio de Janeiro e região e guardava esse imenso acervo que o fogo consumiu.

Já sabemos que o incêndio no Museu Nacional do RJ foi uma perda irreparável, mas o que de fato causou essa tragédia? Em primeiro lugar, o descaso com as políticas culturais, que já vem há alguns anos sendo degradada e cujo estado se agravou drasticamente com o governo atual. Há meses a direção do Museu vinha alertando para a situação complicada que a instituição passava por falta de verba para manutenção básica, com salas fechadas por infestação de cupins, problemas na fiação elétrica e um orçamento praticamente inexistente de R$ 50 mil. Quando assumiu o governo, Temer ameaçou fechar o Ministério da Cultura e voltou atrás após a pressão da sociedade e o (agora mais simbólico do que nunca) Ocupa Iphan. Esse recuo foi apenas no papel, pois as políticas sólidas que vem sendo construídas desde a gestão de Gilberto Gil como ministro foram apagadas.

Não é só com Ancine, Lei Rouanet e editais irrisórios como o das Culturas Populares (em detrimento da Lei Cultura Viva) que se faz a cultura de um país. Tudo isso passa também pelo desrespeito à etnologia brasileira, aos povos indígenas e à comunidade afro-brasileira. Cabe aqui também o desprezo desse governo pela Educação e pela Pesquisa, visualizadas pela assombrosa reforma do Ensino Médio, por exemplo. A PEC 241, que congelou os investimentos por 20 anos, foi defendida em massa pela grande mídia que agora hipocritamente chora essa tragédia.

Infelizmente, é só nesses momentos dramáticos que a cultura entra em pauta no que chamamos de Hard News. Falta trazer mais jornalismo para a editoria de cultura, que atualmente é focada basicamente na divulgação de eventos, sem qualquer questionamento sobre temas como a gestão pública e privada na área. É preciso uma cobertura consistente e periódica focada nas políticas públicas na cultura que, como vimos, é sim um grande problema do Brasil atualmente.

Após o ocorrido, governantes e instituições locais publicam notas de pesar e lamento. Indagamos o que estão fazendo pelas instituições semelhantes no estado e no município?

No Rio Grande do Sul, os museus Hipólito José da Costa e Julio de Castilhos, Arquivo Público do RS, Arquivo Histórico do RS e o Memorial do Rio Grande do Sul sofrem sem investimentos do governo estadual, a Fundação Zoobotânica corre sério risco de extinção e no município de Porto Alegre, instituições como o Museu Joaquim José Felizardo e o Arquivo Histórico Moysés Vellinho contam com cada vez menos funcionários e ínfimo investimento público, sem falar no sucateamento de projetos como Monumenta, Memorial do Mercado e Territórios Negros. Se há a preocupação com a memória e o patrimônio, no caso da tristeza relativa ao incêndio no Museu Nacional, por que não vemos ações efetivas em nossas instituições?

 

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments