Por Júlia Manzano
Foto de capa: Mulher LTDA (Rafael Duarte/divulgação)

Realizada dentro da programação do Festival de Cinema de Gramado, a Mostra Gaúcha cumpre, para muitos realizadores, uma função experimental já que, para alguns, é a primeira vez que estão expondo publicamente um filme. Seja como exercício de estilo ou de qualidade, a Mostra novamente cumpriu seu papel dando espaço e divulgação para curtas das mais diferentes temáticas. Neste ano, o Festival de Gramado tentou ser mais inclusivo, e isso pôde ser visto na Mostra Gaúcha. Oito diretoras mulheres estavam concorrendo aos prêmios da noite, o que é um ponto positivo em uma área tão marcada por atuações masculinas. Ainda assim, os rostos indicados foram todos brancos, mostrando que ainda existem muitos importantes avanços a serem feitos na produção audiovisual do Estado.

Já os discursos dados no palco antes da exibição dos filmes foram baseados na necessidade de editais para promoção do cinema gaúcho e da ausência de incentivo e fomento dados pelos atuais governos. A questão do financiamento foi bastante citada, já que muitos dos filmes ali presentes foram feitos e bancados pela produção ou com o auxílio de amigos e financiamento coletivo.

Sem Abrigo (Foto: Marco Antônio Nunes/Divulgação)

A 15ª edição do Prêmio Assembleia Legislativa para Curtas Gaúchos no Festival de Gramado teve sua premiação no dia 19 de Agosto, no Palácio dos Festivais. O evento entregou doze estatuetas e prêmios em dinheiro para alguns dos 20 filmes concorrentes da mostra que reflete um pouco da produção audiovisual do Estado. Os filmes exibidos eram de Porto Alegre, Santa Maria, Encantado, São Leopoldo, Pelotas, Caxias do Sul, Sapucaia do Sul e Canoas, confirmando a capital como um dos polos de produção, assim como as maiores cidades universitárias do Rio Grande do Sul. As sessões foram no Palácio dos Festivais, durante a tarde dos dias 18 e 19 de Agosto e tiveram entrada franca.

O júri que selecionou os vencedores foi composto pelo jornalista Hermes Leal, pelo produtor Julio Uchoa, pela atriz Lu Grimaldi, pela diretora de arte Maíra Carvalho e pelo crítico de cinema Rafael Carvalho. Confira abaixo breves comentários sobre todos os longas que levaram alguma estatueta para casa:

Um corpo feminino (Dir. Thais Fernandes)

Prêmios: Melhor Filme eMelhor Roteiro

O que é ter um corpo feminino? Essa questão norteia o curta de Thaís Fernandes. Com sensibilidade e postura feminista, a diretora aborda com diversas mulheres (ponto positivo para a diversidade do filme, apesar de ter poucas mulheres gordas, que trariam uma análise ainda mais profunda da relação mulher & corpo) a questão que muitas vezes nos questionamos tanto quanto à relação com nosso corpo. As resposta são extremamente complexas. Ao escolher entrevistar mulheres de diferentes realidades, o curta nos apresenta diversos pontos de vista fora do lugar comum. Uma menina que estuda na periferia, uma senhora rica, mulheres trans, uma mulher travesti e diversas outras entrevistadas se unem para falar de um tema que as une: o corpo.

Mulher LTDA (Dir.  Taísa Ennes)

Prêmios: Melhor Produção/Produção Executiva e Melhor Direção de Arte

Mulher LTDA é um curta que retrata a face mais cruel do capitalismo: a capacidade de explorar absolutamente qualquer coisa. Uma dupla de cientistas descobre uma fórmula capaz de trazer mulheres à vida e eles começam a vendê-las como escravas para os mais diversos fins: arrumação da casa, estrelar filmes de terror e outros. Além de ser uma crítica ao sistema, o curta é muito bem-sucedido ao acrescentar o fator de gênero, já que ao fazer uma alegoria da comercialização feminina, demonstra a exploração feminina que ainda é uma realidade em muitos lares brasileiros (como, por exemplo, quando a propaganda oferece uma Mulher ltda para limpeza da casa). O filme se propõe ser uma comédia e, apesar de despertar várias risadas na plateia, também é capaz de trazer um sentimento de desesperança ao associarmos aquelas mulheres comercializadas com a realidade de 2018.

Sem Abrigo (Dir. Leonardo Remor)

Prêmios: Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Atriz, Melhor Curta Gaúcho pelo Júri da Crítica

Sem Abrigo retrata a rotina de uma moradora de rua tentando sobreviver no caos de Porto Alegre. Atual e forte, o curta investe em mostrar a humanidade e a vulnerabilidade daquele ser humano – e que as classes médias e elite das grandes cidades fazem questão de esquecer e desumanizar. Graças ao talento do diretor Leonardo Remor e da atriz Rejane Arruda (prêmio merecidíssimo), a triste história de Valéria nunca cai em um drama sem sentido, mas também não ameniza seu cotidiano, já que a história possui a dureza que a população de rua enfrenta. O que a protagonista faz, durante os 20 minutos de projeção é apenas tentar sobreviver, estando suscetível aos mais diversos tipos de violência urbana nos grandes centros.

Abismo (Dir. Lucas Reis)

Prêmios: Melhor Edição de Som

Abismo é um filme que tem boa intenção mas erra – e feio – na execução de sua história. No longa, Jéssica está angustiada pois viu uma cena que a deixou desconcertada na noite passada. [A partir de aqui, spoilers] Ela viu sua amiga ser estuprada pelo namorado em uma festa, distante de todos. Ela vai embora e não faz nada, e fica angustiada no dia seguinte com a cena que viu. O filme, me parece, encontra mais uma forma de responsabilizar a mulher por algo que foi 100% culpa de um homem. Além disso, o filme é extremamente gráfico mostrando a cena, e de mau-gosto ao deixar a respiração da menina estuprada durante os créditos finais. Entendo que a intenção possa querer ser chocar, mas o filme é apenas gráfico e irresponsável. Outros filmes – alguns deles dirigidos por homens, inclusive – já demonstraram como é possível mostrar esse tipo de vivência de uma forma bem mais sensível aos medos femininos, como Confiar (David Schwimmer, 2010). Quanto ao prêmio, acredito que o filme tenha sido bem sucedido ao criar tensão na casa de Jéssica a partir do som.

Nós Montanha (Dir. Gabriel Motta)

Prêmios: Melhor Música

Nós Montanha é um filme que capricha em seu som, foto, arte e atuações. O contato com a natureza e a interação homem/mundo recebem um destaque belíssimo. E o prêmio para a música de Jonts Ferreira é mais que merecido.

Grito (Dir. Luiz Alberto Cassol)

Prêmios: Melhor Ator

Fazendo jus ao conceito de curta-metragem, o filme sabe que existem certas coisas que só são ditas pelo silêncio. Amor, dor, adeus e luta são algumas delas. É um belo exercício de linguagem.

Fè Mye Talè (Dir.  Henrique Lahude )

Prêmios: Melhor Direção

Fè Mye Talè é outra obra – junto com Sem Abrigo – que traz a realidade das populações vulneráveis dos grandes centros urbanos para as telas do Festival de Gramado. No curta, um grupo de imigrantes haitianos tenta sobreviver em uma cidade e não perder as conexões e os laços com sua terra e cultura original. O filme é atual e sensível por trazer um relato fictício totalmente a partir do ponto de vista de um grupo de imigrantes.

A Formidável Fabriqueta de Sonhos Menina Betina (Dir.  Tiago Ribeiro)

Prêmio: Menção Honrosa

A animação A Formidável Fabriqueta de Sonhos Menina Betina retrata a história de uma menina/mulher e a relação com a nossa própria imaginação e sonhos/projetos. O curta investe em uma animação agradável e animada, mas tem um problema. A linguagem demasiadamente poética torna a obra muito pesada para que seja palatável a um público mais infantil. Além disso, [spoiler], atribui a redescoberta da capacidade de sonhar e ser feliz na vida adulta à um relacionamento amoroso, o que reforça o estereótipo de contos de fadas tão prejudicial a jovens meninas.

Outros Curtas Gaúchos que, apesar de não terem sido premiados, mereciam:

À Sombra (Dir. Felipe Iesbick)

Coágulo (Dir. Jessica Gonzatto)

O Comedor de Sementes (Dir. Victoria Farina)

Pelos Velhos Tempos (Dir. Ulisses da Motta)

Antes do Lembrar (Dir. Luciana Mazeto e Vinícius Lopes)

Movimento à margem (Dir.  Lícia Arosteguy e Lucas Tergolina)

Confira mais informações dos curtas no site do festival clicando aqui.