Resenha: Ananda Zambi
Fotos: Vinícius Angeli

Hoje em dia está cada vez mais difícil definir gêneros musicais. O que não é um problema – aliás, é um movimento bastante positivo, pois permite a quebra de paradigmas sonoros e uma reinvenção de processos de criação. A música experimental vem sendo cada vez mais difundida – fruto do modelo de comunicação onde estamos inseridos, em que temos acesso aos que quisermos através da internet – e até mesmo compreendida, mesmo que, a princípio, esse não seja o principal objetivo do artista.

Na última sexta-feira (5/10), às vésperas da eleição mais perigosa que o país já viveu em seu curto (e já ameaçado) período de democracia, o Agulha, que já está se tornando uma tradicional e importante casa de shows que traz o que há de mais novo na música brasileira, foi palco de mais um evento que reuniu, como um caldeirão, ritmos, cores, energias, musicalidades inovadoras e, principalmente, resistência com os shows das cariocas Ana Frango Elétrico e Ava Rocha.

Ana Frango Elétrico: uma revelação inesquecível

Foto: Vinícius Angeli

Com apenas 20 anos, a cantora, compositora, instrumentista e artista plástica Ana Frango Elétrico (o nome artístico é uma releitura divertida de seu sobrenome, Fainguelernt) subiu ao palco somente com uma guitarra, mas já era o suficiente para uma apresentação boa e carismática. Iniciou cantando “Farelos”, música que abre seu primeiro e até agora único disco, Mormaço Queima (2018), e que arranca risadas por misturar palavras em português e em inglês (I have only farelos/ and I guess the kitchen is closed / happy, but atormentado / Lapa is too much information). Depois, tocou um a malemolente “Trago”, e contou para o público, falando rápido, que seu som é uma “bossa pop rock decadente”.

Vestida com largos moletons e uma bandana na cabeça cheia de curtos cachinhos, a artista tem um fascínio especial pelo mundo infantil, o que talvez justifique a grande quantidade de agudos explorados no seu repertório, como na música “Loteria”, e no rock “Picles”, que conta a história de uma menina que sempre pedia para tirar o legume do sanduíche e que só queria o brinde do McLanche Feliz. Nessa última, via-se que, além dos vocais, dominava bem a guitarra.

Foto: Vinícius Angeli

Bem à vontade no palco, Ana conseguiu transmitir o seu carisma irreverente para a plateia do Agulha, que estava crescendo a cada minuto. Depois de vestir um chapéu com a frase “Ele não” e cantar “Você pensando”, música inédita que estará presente em seu próximo disco, com previsão de lançamento para o ano que vem, convidou todos a cantarem “No cinema”: “Ela é tão fácil que na primeira frase vocês já sabem cantar”, disse ela.

Após, cantou duas músicas de parceiros. A primeira, do ilustrador, cartunista e músico Chico França, que, segundo ela, “tinha conhecido há duas semanas e não sabia o nome, mas que chamava de Ciborgue”, e a segunda, “Revirá”, de Bruno Schiavo gravada por Negro Leo no disco Action Lekking (2017). Para terminar, tocou as engraçadíssimas “No bico do Mamilo” (No metrô, eu penso que passo / Num subterrâneo perto da tua casa / Como dói / No bico do mamilo / Um peteleco gelado) e “Roxo” ( Amanhã, por acaso, pode ver o passeador de cachorros / Que parece o Lenny Kravitz (que parece) / O Lenny Kravitz/Fala pra caralho, mas não picha igreja / Fala pra caralho, não faz xixi em igreja) e repetiu “Farelos”, para a sorte de quem não conseguiu chegar no início do show. Ana Frango Elétrico, mesmo sozinha, representou a essência do seu trabalho: rock, jazz, samba, psicodelia e muita, mas muita criatividade.

 

A travessia ritualística de Ava Rocha

Conheci o som de Ava Rocha há mais ou menos seis anos, através de um parente. Provavelmente era o AVA, projeto formado por ela e Daniel Castanheira, Emiliano Sette e Nana Carneiro. Lembro que era um som consideravelmente ruidoso, experimental, e sua voz era grave e singular. Filha do cineasta precursor do Cinema Novo Glauber Rocha e da artista plástica Paula Gaitán, a colombiana de nascença já carrega uma forte bagagem cultural familiar, mas não se imita ninguém e cria o seu próprio legado.

Foto: Vinícius Angeli

A intimista casa de shows estava com lotação cheia – cerca de 300 pessoas – quando a superbanda de Ava, formada por Thomas Harres (bateria), Victória dos Santos (percussão), Marcos Campello (guitarra), Gabriel Bubu (baixo), Eduardo Manso (guitarra) e Chicão (teclado), subiu ao palco e, como numa celebração a todos os santos, entoou a música que abre o disco Trança, “Maré Erê”. A cantora, compositora e cineasta subiu ao palco, sob fortes aplausos, com um longo vestido brilhoso e colorido, um grande chapéu de palha e uma escultura de uma cabeça inspirada na artista, feita pelo artista plástico Tunga e que fez parte da capa do álbum Diurno (2011), ainda do projeto AVA. Depois, veio a polifônica Periférica, parceria com Bruno di Lullo. Já no início, me chamou atenção uma das coisas mais legais e inédita para mim: tradução das músicas em libras.

Contando com nada menos que 35 parceiros – entre eles, revelações da atual música brasileira, como Curumin, Iara Rennó, Kiko Dinucci, Tulipa Ruiz, Dinho Almeida e Negro Leo (também marido de Ava Rocha) – , Trança, lançado este ano, recebeu patrocínio do jovem e já importante projeto Natura Musical. Apesar da longa duração (60 minutos divididos em 19 faixas), é muito propício ouvir o álbum na íntegra, pois todas as músicas têm uma razão para estarem ali e naquela ordem, tal como um caminho percorrido em que cada obra é uma terra descoberta e que, ao final, é como se completasse uma volta a esse mundo. Porto Alegre foi a oitava cidade a receber a turnê, ou, como Ava prefere chamar, a “gira”.

Depois de cumprimentar o público com um “Axé, Porto Alegre!”, Ava Rocha cantou o hit “Lilith”, uma das queridinhas do público. Referente à primeira mulher de Adão, segundo algumas ideologias (Ela é santa, não é santa / Maria não é virgem, mas há quem acredite / Mãe, filha, espírita santa / Molhada na lama de Nanã / Puta, mordendo a maçã), ela vai de uma psicodelia para um samba em questão de segundos, assim como várias músicas do álbum, que brincam com vários ritmos dentro de uma faixa só. Depois, veio a divertida “Singular”, de autoria do Negro Leo e que poderia muito bem compor o Action Lekking. Com letras irônicas (O meu espelho tem a dimensão / A dimensão exata pro culto do ego e pra sentir tesão / Não tenho coração / Pra dentro da razão / Que sempre me afasta de gozar o resto / O resto é transação) e melodias alegres, as músicas de Leo já têm uma marca, uma identidade própria.

“Continente”, de seu guitarrista Marcos Campello, é uma das mais pops do disco e remete, assim como “Pangéia”, ao conceito do álbum: uma busca pelas origens. Ava, que já fazia uma performance autêntica, passou a dançar equilibrando uma pequena escultura de uma trança na cabeça – , também interagia intensamente com o público através de olhares e poses para fotos.

Foto: Vinícius Angeli

Depois de “Febre”, um jogo de palavras de letra cíclica que mais parece uma oração (Longe da tua / A minha boca treme de febre / A testa sua Na minha nuca / A tua boca ferve, mas cura / Longe da tua / A minha boca treme de febre e a testa sua / Na minha nuca /A tua boca ferve, mas cura / Longe da tua), veio o envolvente single “Joana Dark”, um funk que fala de bruxas, maconha e feminismo, ou seja, uma grande crítica social e uma suposição do que representaria a heroína medieval Joana D’arc nos dias de hoje. Ao final da música, o público gritou, novamente, “ele não”, sendo apoiado por toda a banda. Porém, Ava sugeriu esquecermos, por um momento, a fatídica e sufocante conjuntura política e “vivermos a onda positiva do presente”, com o qual concordei.

“Patrya”, também carimbada por Negro Leo e a misteriosa “Canción para Usted” (uma das poucas só de autoria da artista)  foram as seguintes. Em “Manjar do Oriente”, houve outro momento em que todos tocavam algum tipo de percussão, inclusive Ava Rocha, como em mais um ritual aos deuses (Hoje eu vou comer manjar pelo povo do oriente / Há revoada no ar / O pássaro fala / O leite branco é manjar da deusa / Da deusa, da deusa / O leite cura, cura, cura).

Foto: Vinícius Angeli

Depois da melódica “Fog”, da romântica “Frío” e da experimentalíssima “Assumpção”, Ava cantou a psicodélica “João Três Filhos”, justificada pela autoria de Dinho Almeida, vocalista da banda goiana de rock alternativo Boogarins. Ainda com uma presença de palco expansiva e brincalhona, Ava cantou uma de minhas preferidas do álbum, a animada e divertida “Anjos do bem” (Mistifica / Fica atrás de mim com não posso, não sei, não dá / Desentendi com você / Ó, gênia da moléstia /Cria cozida apareça), e em seguida uma versão mais swingada de “Hermética” – hit do disco Ava Patrya Yndia Yracema (2015) – ou seja, uma versão “trançada”, adaptada para o novo show. Os únicos defeitos dessas músicas é que elas acabam.

Chegando ao final, houve muitos pedidos de música,e de fato muitos sucessos ficaram de fora, como “Você não vai passar” (que ganhou na categoria Melhor Hit no Prêmio Multishow de 2015) , “Boca do Céu” e “Auto das Bacantes” (que caberia muito nesse show!) , todas do segundo álbum. Mas houve o axé “Língua Loka” – que Ava fez para o carnaval de 2016 – “Transeunte Coração”, outro hit da cantora, que chamou Ana Frango Elétrico novamente ao palco para fechar a grande noite de música brasileira experimental e feminina.

Apesar de ter conseguido escrever todo esse texto, é difícil adjetivar Ava Rocha. Diz a lenda que o terceiro disco é o mais maduro da carreira de alguém e, no caso de Ava, acho que se confirma, pois Trança conseguiu captar sua total essência e conseguiu transmiti-la para os ouvintes da melhor forma possível. A prova disso é que ela está conseguindo tocar o disco novo na íntegra nos shows, o que é muito louvável, pois não é qualquer artista que consegue.  Assim, fico feliz por Ava estar se encontrando e sendo compreendida nessa sua sonoridade, que já tem coisas consolidadas mas que também busca o inexplorável. Esse momento de respiro da atual conjuntura política brasileira realmente valeu a pena.

Foto: Vinícius Angeli