Reportagem: Glauber Cruz e Iarema Soares
Fotos: Carol Ferraz

“Por que as pessoas não podem se deslocar de onde moram para vir até a periferia?”

A provocação da estudante universitária Andressa Moraes se espalha pela quadra da Escola de Samba Imperatriz Dona Leopoldina, onde são feitos alguns ajustes para a programação que começará a seguir. Minutos antes, Andressa havia questionado a ideia de que o centro é “perto pra todo mundo”. “Todo mundo tem um ônibus que vai pro centro, mas eu que moro aqui na Rubem Berta, eu tenho que ir até o Centro. Eu me desloco aqui do meu bairro pra ir até o centro”.

A inversão dessa percepção social e geográfica da movimentação pela cidade é o que guiou a primeira edição do Encontro Literário nas Periferias, o Elipa. Sob o lema “As periferias são o centro”, de 12 a 14 de outubro o evento ocupou a quadra da Escola de Samba Imperatriz Dona Leopoldina, no bairro Rubem Berta, com as vozes e palavras vindas das periferias de todo o país. Durante três dias, as discussões sobre poesia, literatura, raça, gênero e resistência foram deslocadas do centro social da cidade para o centro geográfico de onde saem muitos daqueles que usam a palavra como principal instrumento na luta contra a desigualdade social e racial.

O Elipa é uma iniciativa que nada contra a maré ao ocupar um espaço dentro da própria periferia para estabelecer o diálogo entre a produção feita no espaço, com ele mesmo. Andressa relembra a escritora mineira Conceição Evaristo ao qualificar o Elipa como uma contraproposta: uma forma de fazer com que a escrita sobre a periferia volte para a periferia e dialogue com ela. “A escrita dela é também uma escrita desse lugar, de mulher preta, pobre e que alcançou outros lugares, mas que não retorna porque as pessoas não têm acesso”, afirma Andressa, que organizou o evento ao lado de outros estudantes universitários negros.

Encontro Literário nas Periferias ocorreu na quadra da escola de samba Império da Zona Norte no bairro Rubem Berta. )Foto: Carol Ferraz/Nonada)

Para contribuir nesse processo de diálogo, o evento ocupou uma quadra da Escola de Samba, espaço marcado pelo trabalho cultural coletivo e que vem sofrendo com o descaso da Prefeitura de Porto Alegre com o carnaval e as expressões culturais vindas da periferia. Rodas de conversa, lançamentos e venda de livros, shows e a Final Regional de Slam foram algumas das atividades realizadas nos três dias de evento que, organizado de forma autônoma por estudantes universitários, com apoio de rifas, da venda de bottoms e ecobags e de um financiamento online, questionou os espaços em que são feitas as discussões sobre cultura e raça.

A ideia é que o Elipa seja um evento que vá muito além dos seus três dias de duração. “É um evento que se propõe à continuidade”, afirma Andressa. E foi justamente a ideia de continuidade e desdobramento que o evento deu o seu pontapé inicial, no dia 12, dia das crianças. Foi nelas, que representam a continuidade e serão as principais impactadas pelas discussões levantadas pelo Elipa, que o evento voltou as duas primeiras atividades.

“Nós somos a excelência da literatura brasileira”

Hamilton durante evento da organização “Reaja ou será morto, reaja ou será morta” (Foto: divulgação)

No sábado, 13, as discussões sobre literatura negra dominaram a programação. Pela manhã, o ativista baiano Hamilton Borges Walê, membro da Organização Reaja ou Será Morta Reaja ou Será Morto e autor dos livros Salvador Cidade Túmulo e Teoria Geral do Fracasso, discutiu sobre a inserção do negro no sistema literário nacional e os entraves causados pelo racismo enraizado nesse espaço.

Hamilton deu início a sua fala com uma homenagem ao Mestre Moa do Katendê, uma figura emblemática dos movimentos culturais de Salvador que foi assassinado no dia 8 de outubro por um apoiador de Jair Bolsonaro após declarar ter votado no candidato Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT). “Existe um holocausto do nosso povo. Ninguém está salvo das sequelas que o racismo provoca em qualquer negro dessa sociedade”, disse Hamilton, que finalizou a homenagem pedindo uma salva de palmas à memória e à trajetória de Mestre Moa.

Na sequência, Hamilton levantou provocações a respeito dos termos “literatura marginal” e “literatura periférica”, que se baseiam em um olhar espacial e topográfico para a literatura e que comumente são associados aos escritores negros vindos da periferia. “Nós fazemos literatura universal, nós fazemos literatura preta”, afirma Hamilton, que não acredita na ideia de uma literatura feita por indivíduos negros que não seja universal. Ele também dedicou críticas à literatura brasileira e ao sistema literário do país, que não comporta a presença de negros e negras. Ele cita, enumerando nos dedos, os nomes considerados por ele os maiores da literatura feita no país. “Olavo Bilac, Machado de Assis, Cruz e Souza e depois vem Lima Barreto. O único branco que eu citei aqui foi Olavo Bilac. Nós somos a excelência da literatura brasileira”, afirma Hamilton, que se refere à literatura brasileira como “boy lixo”.

Outros pontos levantados por ele foram a hegemonia do trabalho literário feito em São Paulo em detrimento ao realizado no restante do país (especialmente no Nordeste), que é pouco conhecido, e a importância da valorização de diferentes repertórios literários na formação de poetas e escritores vindos da periferia, usando como exemplo a sua experiência pessoal de aquisição de repertório através das letras das canções dos blocos de carnaval de Salvador.

Vozes negras que resistem, ecoam e impulsionam

Lélia Gonzalez (Foto: Acervo JG/Foto Januário Garcia)

No início da tarde, enquanto acontecia o almoço coletivo, houve o lançamento de dois livros: Primavera Para as Rosas Negras, da antropóloga e professora Lélia Gonzalez, e Procure Por Mim na Tempestade, de Marcus Garvey, um dos maiores nomes do pensamento negro mundial. Sabe-se do intenso e histórico apagamento epistêmico da produção intelectual feita por pessoas negras. Por isso, apresentamos aqui os autores acima citados.

Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte (MG), era filha de um ferroviário e de uma empregada doméstica. Quando tinha sete anos de idade, a família mudou-se para o Rio de Janeiro e se estabeleceu na favela do Pinto, no Leblon. Filha de escola pública, ela graduou-se mais tarde em História e Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atuou como professora, ainda dentro da rede estadual, fez mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia Política. Foi professora da PUC-Rio e chefe do departamento de Sociologia e Política. Além da extensa carreira e produções de artigos acadêmicos, ela ajudou a fundar grandes instituições, como o Movimento Negro Unificado (MNU) entre outras.

Já Marcus Garvey era um empresário, comunicador e ativista jamaicano. Ele é um dos maiores nomes do movimento nacionalista negro. Quando viajou pelas Américas percebeu que em todos esses países e situação de precariedade, desigualdade e desumanização da população negra era igual. A partir daí, começou a atuar ativamente por melhorias na vida dessa parcela populacional e exerceu forte influência nos movimentos que libertaram países africanos do domínio colonial europeu. Além disso, fundou a Associação Universal para o Progresso Negro (AUPN) que pretendia unir pessoas de ascendência africana em um país e governo absolutamente próprios. A AUPN chegou a contar com 15 milhões de associados espalhados em 23 países entre Américas e África.

Fizemos essa recapitulação da extensa trajetória dessas duas figuras emblemáticas, porque não conhecemos os heróis e heroínas negros, não conhecemos esses intelectuais e suas trajetórias. Precisamos conhecer a vida daqueles que contribuíram para o entendimento e para o estudo da situação de vidas negras. É preciso que busquemos nessas fontes as respostas para nossas perguntas para que, a partir daí, sejam catapultadas novas rotas de saída e traçadas novas alternativas de fortalecimento da população preta.  

Emancipação do povo negro

Tuana Patiara (Foto: Carol Ferraz/Nonada)

Os livros Primavera Para as Rosas Negras e Procure Por Mim na Tempestade não serão encontrados nos catálogos de grandes editoras, não serão vistos nas livrarias. O racismo é estrutural e estruturante na sociedade brasileira, logo, é resistente ao negro. E o mercado editorial, como um espelho desse contexto, é relutante aos escritos e narrativas negras. Para driblar a tentativa (muitas vezes exitosa) de apagamento epistêmico, coletivos e grupos de pessoas negras se reuniram de maneira autônoma para fazer com que essas produções circulassem pelo Brasil e países africanos falantes de língua portuguesa.

O livro de Lélia Gonzalez foi pensado, elaborado, curado e feito por muitas mãos. Mãos negras que se articularam para fazer ecoar seus escritos. O conceito de valorização do negro permeou todos os processos de realização da obra desde a curadoria dos textos até a gráfica escolhida para a impressão. Todos os profissionais e empreendimentos envolvidos nestas etapas eram de pessoas negras. A publicação produzida pela União dos Coletivos Panafricanistas (UCPA), que já havia lançado a autobiografia do ativista Malcolm X, vem de uma trajetória de produções autônomas e de uma batalha constante para maior circulação de narrativas feitas por pessoas pretas combativas e relevantes.

O coletivo busca o fortalecimento de publicações negras como em um processo de arqueologia pessoal de autoconhecimento. “O coletivo não é editora. Somos um grupo que faz o possível e o impossível para que as coisas aconteçam. Para que os livros cheguem até as pessoas, porque é muito dolorido ouvir branco falar sobre o pensamento de Lélia e a gente (negros) nem saber quem ela é”, afirma Tuana Patiara, uma das integrantes da UCPA.  

De um grupo de quatro pessoas surgiu a tradução e publicação do livro de Marcus Garvey.  Foram os próprios integrantes do Ciclo de Formação Marcus Garvey, representados por Douglas Araújo e Tago Soares, quem realizaram a tradução de Procure Por Mim na Tempestade e que, em meio ao caos cotidiano, conseguiram colocar nas ruas do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau e Moçambique o pensamento de Garvey para circular.

“Por menos que conte a história 

Não te esqueço, meu povo”

Ainda na parte da tarde, ocorreu a conversa  “Literatura Negro-Brasileira Usos e Sentidos”, com Akins Kintê os sócios da editora Figura de Linguagem, Fernanda Bastos e Luiz Maurício Azevedo. Kintê carrega em si a multiplicidade. Além de poeta, é cineasta e arte-educador. Criado na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, ele é uma figura ativa nos saraus periféricos paulistanos e em suas linhas e estilo torna-se palpável o quanto a cultura hip-hop e a literatura negro-brasileira estão imbricadas. Sua poética vem do rap, vem dos Cadernos Negros e foram com essas armas, com a lírica, papel e caneta que ele “fez telhado nos dias de chuva e tempos difíceis”, como afirmou.

Em seu trabalho desenvolvido junto à Fundação CASA de São Paulo, ele procurou levar esse mesmo abrigo que encontrou na poesia aos jovens. Nos encontros, eram mostradas a proximidade entre o funk, o rap e a literatura. Eram evidenciadas que as vivências cantadas pela Facção Central, por exemplo, eram as mesmas já escritas em livros tempos atrás. Neste processo de resgate histórico de escritores negros, Kintê cria novas possibilidades para esses jovens, cria novas referências, novos lugares para estar e sonhos para se alimentar.

Fernanda Bastos fala sobre a editora Figura de Linguagem (Foto: Carol Ferraz/Nonada)

Dentro da estrutura na qual estamos inseridos, sonhar e correr atrás desse sonho é nadar contra a maré. É ser contra-hegemônico e a editora Figura de Linguagem ocupa esse espaço no mercado editorial, por isso, a prioridade do empreendimento é publicar escritores negros. Bastos afirma que a literatura branca faz uso da cultura negra. “Usam nossos autores, mas a tradução das obras e a redação dos prefácios são feitas por pessoas brancas. Nossa proposta é subverter essa prática”.

Azevedo lembrou do apagamento que a acadêmica sistematicamente impõe à literatura feita por pessoas negras, visto que os professores não a contemplam em sala de aula e ressaltou que as periferias sempre produziram cultura. Para ele, escritores negros nunca deixaram de escrever, o que aconteceu foi a atuação do racismo que coloca na invisibilidade grandes nomes, por essa razão, a editora trabalha da seguinte maneira: a cada cinco autores negros publicados,  a Figura de Linguagem publicará uma obra de uma pessoa autodeclarada branca. “Nosso ponto de vista é de quem foi excluído e de quem quer que a exclusão acabe. Por isso, excluímos os outros um pouquinho também”, diz Azevedo.

“A poesia é um jeito onde a gente pode falar”

No domingo, 14, a potência do Slam delineou a programação. Foi realizada uma roda de conversa sobre o movimento através da perspectiva de outras periferias do país. Da Bahia, veio Kuma França que dividiu a mesa com Emerson Alcalde, de São Paulo. Nas falas de Kuma e Emerson e na conversa com o público, foram abordadas as experiências pessoais com o slam, o preconceito que gira em torno do movimento, a relação que pode ser estabelecida entre o Slam e a educação e também a valorização da arte produzida por negros e negras.

Para Kuma, o Elipa favorece essa valorização ao estabelecer uma relação entre as periferias do país. “Hoje a gente tá vendo aqui uma negrada valorizando outros negros. Ver que a galera tá se articulando, tá se mobilizando de uma maneira única, não se atacando, me deixa muito feliz”, diz o slammer.

Depois das falas de Kuma e Emerson, foi a vez dos versos potentes do Slam encherem o ar da quadra da Imperatriz Dona Leopoldina. No último dia de atividades do Elipa, a Final Regional do Slam reuniu representantes de 11 slams do Rio Grande do Sul. Entoando versos viscerais sobre violência policial, racismo, empoderamento e feminismo, os finalistas disputaram duas vagas para representar o estado no Slam BR, que vai ser realizado em São Paulo e reúne slammers de todo o país.

A noite de domingo já estava alta no céu quando Deivith Santos, o Bart, representante do Slam da Bonja e Jamille Santos, representante do Slam Poetiza de Caxias do Sul, foram consagradas como os representantes gaúchos na competição nacional de slam.

Àquela altura, o público presente na quadra não celebrava apenas a vitória de Bart e Jamille, mas também a potência de um momento feito e protagonizado por pessoas negras. “A gente vai resistir, não importa o que vai acontecer. Ainda mais aqui, sendo dentro de uma vila, sendo dentro de uma quadra de escola de samba. A gente vai resistir e nada vai parar a gente”, disse Bart, ainda de pés descalços, como permaneceu durante a performance das três poesias que o levaram até a vitória.

Deivith Santos, campeão da Final Gaúcha de Slam 2018 (Foto: Josemar Afrovulto/reprodução)

Para Jamille, espaços como o Elipa são capazes de dar perspectivas a quem vive numa realidade baseada no descaso e marcada pelo preconceito. E a poesia é uma ferramenta essencial no processo de reinvenção de si mesmo e do espaço do qual se faz parte. “A gente já ficou muito tempo quieto, né? A poesia é um jeito onde a gente pode falar e a gente recebe um respeito, porque isso é nosso e ninguém vai tirar.”

Os shows do grupo de rap Filhos da Norte e da rapper Negra Jaque encerraram os três dias de evento. Fica a certeza de que o Elipa vai ecoar não só na quadra da Dona Leopoldina mas também em cada corpo que realizou o caminho contrário, saindo do centro e indo em direção à periferia, num movimento que por si só já é um impacto. Em versos, palavras e vozes negras, o Elipa revelou a potência da construção coletiva, do fortalecimento da comunidade negra e da necessidade de inverter lógicas há tanto tempo definidas. As periferias se tornaram, finalmente, o centro.

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O título desta reportagem foi extraído do poema Quilombos, de José Carlos Limeira