Baco nem mesmo saiu de cena para voltar aos holofotes do palco principal. Após o estrondoso sucesso do álbum Esú (2017) que rendeu ao rapper baiano o prêmio de artista revelação e de melhor música com o hit Te Amo Disgraça, ele voltou em 2018 para selar sua consolidação como um dos grandes nomes do rap nacional.

Esse ano foi produtivo para o artista, para o rap e para fãs, os que foram bombardeados com as grandes narrativas produzidas por Baco. No início de 2018, foi liberada a track Sinfonia do Adeus, na qual ele canta a dor de um homem que sofre, sente saudade e que arrepende-se de não ter dito eu te amo. A música mostra que a masculinidade é frágil como cristal e tóxica como dióxido de carbono.

No segundo semestre deste ano, foram lançados três singles (Banho de Sol, Tardes Que Nunca Acabam e Última Noite) que compunham um trabalho que apresentava a mesma estética e proposta: cantar a dualidade do amor real, exaltar o vileiro lover,  mostrar o afeto calcado na simplicidade de uma letra de pagode e, ao mesmo tempo, na concretude da carne, no erotismo e no desejo de quebrar tantas taças até nem ter mais onde por vinho, como diz o artista.

O primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres

O gênero blues remonta o século XIX, período escravocrata nos campos de algodão estadunidense. Quando escravizados e escravizadas encontraram nessa brincadeira no qual uma pessoa cantava o verso e as demais respondiam com ritmo uma ferramenta para expurgar o sofrimento e tentar aliviar suas existências.

Baco mergulha no blues, bebe de suas referências, mistura esses elementos com o rap, com sua vivência de jovem negro brasileiro periférico e rima de maneira melancólica, triste e paradoxal. Rima sobre o sofrimento, sobre o desconhecido, sobre o medo, sobre a insegurança. Ao construir essa narrativa, Baco humaniza a população negra, desconstrói estereótipos tóxicos, degradantes e sufocantes que são acoplados à imagem de homens negros. De certa maneira, o rapper, por meio da próprio existir, atua em prol da sua libertação, mas também na redenção de seus pares.

Ao longo das nove faixas que compõem o Bluesman, é possível perceber que Baco continua preciso, cortante e que segue os mesmos passos dos de antes. Se na literatura, os Cadernos Negros buscam conversar, prioritariamente, com a população preta, Baco trilha o mesmo caminho ao dialogar, acima de tudo, com negros e negras. O artista versa sobre as dores, sobre as inconsistências e problemáticas que lhes ferem como o racismo, genocídio do povo negro, estereotipação danosa e as consequências causadas por todo esse conjunto de práticas sistêmicas.

Baco continua explosivo e corrosivo, mas não como no último álbum. Os beats pesados deram espaço à mistura, ao sincretismo musical que o colocou em contato com Tim Bernardes na track Queima Minha Pele e com Tuyo na faixa Flamingos. O rapper narra dilemas estruturais contemporâneos, faz parcerias com os de agora, e invoca os traços de Basquiat, o poder de Jay-Z, a expressividade sonora de BB King e a imprudência de Kanye West.

Baco inspira e é inspirado. Baco fala de amor, de dor, de perda, de conquista e da fragilidade do homem negro, que é constantemente bestializado social e culturalmente. Baco subverte a lógica de pensamento racista da branquitude e mostra que negros e negras são potência. São arte, riso, choro, que estão acima estereótipos e que são, em suma, bluesman.