por Leonardo Tissot

Considerada por muito tempo a “capital cultural do Rio Grande do Sul” – reputação construída durante o período de maior desenvolvimento da cidade, na segunda metade do século XIX, quando a pujança econômica foi acompanhada de perto pelo culto à literatura, ao teatro e à música – Pelotas tenta se manter como um dos municípios que mais se destaca no Estado quando o assunto é cultura.

Após o incêndio que devastou o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 2018, Nonada propôs o questionamento: como estão os museus gaúchos? No caso de Pelotas, ao mesmo tempo em que se pode elogiar os esforços da cidade na busca por manter sua memória e seu patrimônio vivos, é imperativo afirmar que muito mais precisa ser feito para garantir que museus, e também espaços como teatros e demais ambientes culturais – especialmente aqueles financiados com dinheiro público, tema desta reportagem – possam se manter e qualificar seu atendimento à população. Em maio deste ano, o Conjunto Histórico de Pelotas foi tombado como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) é a principal responsável, hoje, por manter a memória da cidade viva e acessível à comunidade. Uma iniciativa lançada em 2017, a Rede de Museus da UFPel vem trabalhando para que o patrimônio cultural pelotense seja preservado e valorizado.

Fazem parte da Rede de Museus da UFPel três espaços próprios – o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (MALG), sob a responsabilidade do Centro de Artes da UFPel, o Museu do Doce, vinculado ao Instituto de Ciências Humanas da universidade, e o Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter, ligado ao Instituto de Biologia da UFPel.

Coordenadora da Rede de Museus da UFPel, prof. Silvana Bojanoski. Foto: arquivo pessoal

Além desses, compõem a Rede projetos museológicos que não são diretamente ligados à universidade, mas que contam com a participação de pesquisadores da instituição, como o Museu Gruppelli, Museu da Colônia Maciel, Museu da Colônia Francesa e Museu das Coisas Banais (sendo este um espaço virtual), entre outros.

“A Rede tem como objetivo desenvolver planos museológicos dessas instituições, fazer uma divulgação maior, captar recursos – principalmente recursos humanos – e reunir condições para potencializar a visibilidade desses museus”, afirma a coordenadora da Rede de Museus da UFPel, prof. Silvana Bojanoski.

Museus “pegam carona” na verba da educação

Foto: Leonardo Tissot

As dificuldades orçamentárias, no entanto, não permitem grandes investimentos por parte dos responsáveis. Os custos são considerados altos, e toda a verba disponível é investida para manter os museus abertos e operando.

A universidade conta com um orçamento anual e uma previsão de gastos com pessoal, manutenção, entre outros. “A manutenção do patrimônio social e cultural, que é mais onerosa, fica bem dificultada”, destaca Otavio Peres, pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento (PROPLAN) da UFPel.

Os museus não têm um orçamento próprio – as unidades responsáveis por esses espaços dispõem de valores para todas as suas operações. Por exemplo, o Centro de Artes recebe uma verba anual, dentro da qual uma parte deve ser destinada ao MALG. O mesmo ocorre com as demais unidades da universidade e seus respectivos museus.

Museu do Doce; Foto: Gustavo Vara/Prefeitura de Pelotas

Da mesma forma, a Rede de Museus não conta com um orçamento específico. “A Rede é um projeto estratégico. Ela não tem como fim administrar recursos – eles já são administrados pelos próprios setores responsáveis”, detalha João Fernando Igansi Nunes, coordenador de Arte e Inclusão da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PREC) da UFPel.

Com uma fonte orçamentária dividida com as demais demandas da educação, pode-se dizer, em linguagem popular, que os museus “pegam carona” nas verbas do Ministério da Educação (MEC), que financia as universidades federais – o que também ajuda a explicar situações de dificuldade como a vivida pelo Museu Nacional (vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro) antes mesmo que o incêndio ocorresse.

Atualmente, há uma discussão no MEC para que o ministério disponibilize uma verba específica para as unidades que tiverem sob sua carga instituições relacionadas com pesquisa – categoria na qual os museus estariam incluídos. Essa proposta, no entanto, ainda está em discussão, sem definição se vai ser colocada em prática ou não.

Reformado em 2013, Museu do Doce traz acervo que conta a história doceira de Pelotas

Museu do Doce. Foto: Leonardo Tissot

Pelotas tem um museu dedicado a preservar a memória doceira da cidade. Instalado no Casarão 8, imóvel adquirido pela UFPel em 2006, o Museu do Doce abriu suas portas em 2013, após restauração completa da casa. O uso do imóvel como sede do museu foi definido a partir de uma parceria entre Secretaria Municipal de Cultura (Secult) e Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O restauro foi feito através de financiamento do MEC.

O espaço encontra-se em boas condições, disponibilizando aos visitantes um acervo relacionado com a história da tradição doceira de Pelotas e região, incluindo peças históricas, documentais, bibliográficas e impressas. O restauro concluído há cinco anos, que incluiu novas instalações da rede elétrica, junto à natureza das peças expostas, tornam o museu seguro e com risco mínimo de sofrer um incêndio similar ao ocorrido no Museu Nacional, de acordo com a prof. Silvana Bojanoski. Para manutenção do Museu do Doce, são investidos mensalmente R$ 6.894,47 em serviços de portaria, R$ 9.236,67 em serviços de vigilância e R$ 2.636,60 em serviços de limpeza.

MALG tem casa própria após 32 anos

Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. Foto: Leonardo Tissot

Fundado em 1986, o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo – batizado em homenagem ao pintor pelotense – surgiu com o objetivo de garantir a preservação e divulgação da produção do artista. Hoje, além de expor mais de 3.000 obras, que incluem objetos e pinturas de Gotuzzo, são realizadas no espaço exposições de artistas convidados e parcerias com outras instituições.

Após 32 anos sediado em espaços alugados, o MALG ganhou sua casa própria em 2018. Desde o dia 2 de julho, o museu está instalado no centro histórico de Pelotas, mais precisamente no prédio reconhecido como o antigo Lyceu Riograndense, onde originou-se a primeira escola de Agronomia da cidade – que completa 135 anos em 2018 e é um dos cursos que dá origem à UFPel.

“Com a localização atual, além da economia de recursos com valores de locação, a UFPel e o MALG podem estabelecer uma política de investimentos e acesso a recursos para permanentemente melhorar as condições de acervo e exposição deste que é um dos mais relevantes acervos artísticos da Região Sul do Estado”, explica Úrsula Silva, diretora do Centro de Artes da UFPel.

Ainda de acordo com a diretora, a UFPel arca com custos essenciais de manutenção do museu, como pessoal técnico qualificado do quadro da universidade – com titulação e formação específicas para suas respectivas funções – incluindo diretor, diretora adjunta, museóloga, técnico em conservação, técnico em assuntos educacionais e técnico administrativo.

Os investimentos mensais com servidores terceirizados são de R$ 6.894,47 para portaria, R$ 20.181,54 para vigilância e R$ 4.484,39 para limpeza. Recursos extras, como os de exposições temporárias, muitas vezes são garantidos pela Sociedade de Amigos do Museu Leopoldo Gotuzzo (SAMALG), que financia material de divulgação, sinalização e montagem. A verba média de cada exposição é de aproximadamente R$ 1.800,00, sendo realizadas entre seis e oito exposições anuais. As exposições de artistas convidados ainda contam com custos de transporte das obras e hospedagem para artistas e curadores, pagos pelo Centro de Artes.

Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter pode mudar de endereço ainda neste ano

Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter. Foto: divulgação

Aberto ao público em 1970, o Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter tem sua origem na doação de animais taxidermizados artisticamente e mosaicos entomológicos confeccionados por Carlos Ritter (empresário e cervejeiro pelotense) entre o final do século XIX e primeiros anos do século XX. Após sua morte, sua esposa doou todas as obras que estavam em seu poder à Escola de Agronomia Eliseu Maciel, em 1926.

Com 4.500 insetos conservados no acervo, o Museu Carlos Ritter possui uma das maiores coleções entomológicas no Brasil. Além dos insetos e das cerca de 540 aves e mamíferos taxidermizados, o espaço possui ainda coleções de ictiologia (peixes fixados em álcool e formol), herpetologia (répteis e anfíbios), mastozoologia (mamíferos), osteologia (esqueletos) e paleontologia (fósseis de vertebrados e invertebrados).

“O museu está atualmente abrigado em um prédio alugado, que não conta com as condições necessárias para a preservação da coleção”, destaca João Ricardo Vieira Iganci, diretor do museu. “Os principais fatores de risco são a umidade e a variação de temperatura. Entretanto, a UFPel vem há algum tempo tomando medidas para a realocação do museu e adequação da conservação e da exibição do acervo. Há previsão de mudança de prédio ainda para este ano”, complementa Iganci. Os recursos mensais de manutenção do Museu Carlos Ritter são de R$ 4.379,78 para portaria e de R$ 996,35 para limpeza.

Projeto Laneira Casa dos Museus depende de verba para ser viabilizado

Criado em 2011, o Museu da UFPel tem como objetivo contribuir com a divulgação e formação de conhecimento técnico, científico e cultural, além de abrigar e formar coleções capazes de apoiar e promover pesquisa sobre as unidades formadoras e a trajetória da universidade. No entanto, até hoje o museu não foi implantado.

No mesmo período, a universidade adquiriu o prédio da Laneira Brasileira S.A. (antiga indústria fabril de Pelotas), e sua utilização como sede do novo museu foi discutida. O projeto, na época avaliado em R$ 15 milhões, aguarda verba para sair do papel. Essa estimativa, no entanto, hoje precisaria ser recalculada.

“Na época do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), quando a universidade se expandiu e adquiriu prédios, o nosso orçamento para investimento era da ordem de R$ 150 milhões. Há cerca de cinco ou seis anos, o orçamento se reduziu para R$ 30 milhões. Esse ano foi de R$ 7 milhões e o ano que vem é de R$ 3 milhões”, lamenta Otavio Peres. “Então, quando se concebeu a Laneira Casa dos Museus, era na perspectiva de um orçamento de R$ 150 milhões de investimento. A previsão é, assim que liberados aproximadamente R$ 20 milhões, a gente tem projeto e tem capacidade de construir a Laneira Casa dos Museus”, conclui.

Com entrepiso reformado, Conservatório de Música da UFPel completa 100 anos em 2018

Outro prédio histórico e vinculado à cultura pelotense, o Conservatório de Música da UFPel completa, em 2018, o seu centenário de funcionamento. O Conservatório é declarado Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Apesar de transferido à UFPel em 1983, a propriedade do prédio permanece sendo da Prefeitura Municipal de Pelotas. Atualmente, a universidade está em tratativas com a Prefeitura para que o prédio passe também a ser da UFPel.

Em 2017, foram realizados investimentos de iniciativa da Associação dos Amigos do Conservatório de Música e da administração da UFPel, que recuperaram integralmente a estrutura do entrepiso, revertendo interdições do Salão Milton de Lemos (onde ocorrem recitais) e salas de apoio didático. Os gastos com material do piso, telhado, rede elétrica e cadeiras novas passaram dos R$ 100 mil, bancados pela Associação (a UFPel apoiou com a mão de obra). Neste ano, um projeto junto à Lei de Incentivo à Cultura (LIC) foi aprovado para qualificar o Salão de Concertos e melhorar a acessibilidade do local.

Museu da Baronesa está fechado para reforma nos telhados

Museu da Baronesa. Foto: divulgação

 

Além dos museus da UFPel, Pelotas ainda conta com mais um espaço mantido com verbas públicas: o Museu da Baronesa, fundado em 1982, com grande acervo de peças representando os usos e costumes da sociedade pelotense no final do século XIX e início do século XX.

Mantido pela Secretaria Municipal de Cultura (Secult), órgão vinculado à Prefeitura Municipal de Pelotas, o museu tem em seu acervo móveis, peças de vestuário e objetos que contam um pouco da história de Pelotas.

O Museu da Baronesa está atualmente fechado para reformas do seu telhado. Em ligação telefônica feita no dia 9 de outubro de 2018, foi informado à reportagem que não há previsão de quando o museu voltará a abrir as portas à população. A página do museu no Facebook vem mantendo os seguidores informados sobre os andamentos da reforma.

Procurada pela reportagem para detalhar custos de manutenção, dificuldades enfrentadas e projetos envolvendo o museu, a Secult não deu retorno até o fechamento desta matéria.

Fechado há oito anos, Theatro Sete de Abril aguarda liberação de R$ 15 milhões para ser reaberto

Com as portas fechadas desde 2010, devido ao risco de desabamento do telhado, o Theatro Sete de Abril foi contemplado com R$ 15 milhões no Programa de Aceleração do Crescimento Cidades Históricas (PAC-CH), em 2013. No entanto, o projeto enviado pela Secretaria Municipal de Cultura ainda não foi aprovado, e a verba não foi disponibilizada pelo Governo Federal.

De acordo com reportagem do jornal Diário Popular, publicada em 7 de abril de 2018, a expectativa é de que, assim que a verba for disponibilizada e os trabalhos começarem – o que pode ocorrer ainda este ano – o teatro deve ser reaberto em 24 meses. Em 2014, uma reforma emergencial foi realizada no telhado do teatro, com investimento de R$ 1,5 milhão.

A Secult não retornou os contatos da reportagem para prestar mais esclarecimentos a respeito do fechamento e reforma do Theatro Sete de Abril.

Castelo Simões Lopes passa por restauração

Desde agosto, o Castelo Simões Lopes, outro espaço histórico de Pelotas, vem passando por um processo de restauro, a cargo do Instituto Eckart – vencedor da licitação promovida pela Prefeitura Municipal em 2017. O Instituto é o responsável pela revitalização, restauração e uso criativo do castelo até 2032. Após a restauração estar finalizada, o castelo será aberto à comunidade de forma definitiva, porém, algumas visitas guiadas já vêm ocorrendo no local.

O apoio da iniciativa privada tem sido fundamental para que o projeto se realize. Foram captados, até o momento, R$ 800 mil por meio da Lei de Incentivo à Cultura (LIC). O Instituto Eckart ainda busca captar mais valores tanto via LIC quanto por meio da Lei Rouanet.

Inaugurado em 1923, o Castelo Simões Lopes – onde viveram membros da família, como o deputado e senador Augusto Simões Lopes, filho de João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça – foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) em 2012.

Apenas dois museus contam com proteção contra incêndios em Pelotas

De acordo com consulta feita pela reportagem ao Sistema Integrado de Serviços de Bombeiro – Módulo Segurança Contra Incêndio, no dia 4 de outubro de 2018, apenas o Museu do Doce (Casarão 8) e o Museu da Baronesa contam com alvará válido. Procurados para esclarecer se os demais museus da cidade possuem condições de segurança contra incêndio, o Corpo de Bombeiros (3º BBM) não retornou os questionamentos da reportagem até o fechamento desta matéria.