por Glauber Cruz e  Thayse Ribeiro

Façamos um exercício respondendo a duas perguntas: a quantos filmes africanos você já assistiu? Caso tenha visto algum, ou mais de um, qual era a sua nacionalidade?

Caso a resposta da primeira pergunta seja algo que indique mais do que os dedos de uma mão e a da segunda indique um conhecimento sobre as muitas diferenças entre os países que formam o continente africano, muito bem, você está no caminho certo. Agora, caso a resposta sugira justamente o contrário, pois bem, você é mais uma vítima da construção sócio-cultural que passa pelo que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie chama de “história única”: a história de que o continente africano e dos 52 países que o formam são uma África uniforme, faminta, devastada por guerras civis e pela Aids. A história única que por séculos vem sendo contada pela literatura e pelo cinema, e que recheia o imaginário do mundo com estereótipos e preconceitos.

Como diz Chimamanda, falar de uma história única é falar de poder: é falar sobre quem determina quais histórias são contadas, como essas histórias são contadas e quando essas histórias são contadas. Durante dez dias, a Mostra de Cinemas Africanos tornou possível o nado no sentido contrário dessa maré e mostrou outras histórias sobre África. E não só isso: outras histórias contadas por aqueles que são os olhares mais importantes e que sempre foram ignorados, os olhares africanos.

Promovida em Porto Alegre pela produtora Ana Camila Esteves em parceria com a Cinemateca Capitólio, a Mostra de Cinemas Africanos apresentou ao público que frequentou a Capitólio entre os dias 7 e 16 de dezembro, 22 filmes de países como Quênia, Nigéria, Sudão, África do Sul, Senegal e Burkina Faso, além de obras dirigidas por cineastas de origem africana em diáspora, especialmente na Europa.

Plateia lotada para a mostra na Cinemateca Capitólio (Foto Gabriela Almeira/reprodução)

Através dos títulos escolhidos pelas curadoras, a mostra deu destaque para três eixos temáticos narrativos: o feminino (a maioria dos filmes eram dirigidos por mulheres, mas para além da direção, os filmes apresentam as realidades da mulher negra na sociedade contemporânea), o universo da infância (não com filmes infantis, mas com um olhar para as angústias e tropeços da vida de crianças negras na África e na diáspora) e o ativismo e micropolíticas (através de filmes que apresentam como os africanos lidam em seu cotidiano com situações de vulnerabilidade e narrativas que oferecessem um panorama da realidade de diferentes regiões do continente). Foram ficções e documentários, curtas e longa-metragens que nos ajudam a entender que a África pode ser sim palco de toda e qualquer história e não somente da história única que desde sempre conhecemos.

Além da programação de filmes, a Mostra contou também com quatro debates realizados após algumas das sessões, que abordaram temas como representatividade, feminismo negro e a produção de filmes em África. Os realizadores dos filmes também se fizeram presentes nas sessões: através de vídeos gravados pelos próprios, eles falaram sobre os desafios de realizar as produções, sobre suas temáticas e sobre como é importante que os cinemas africanos sejam conhecidos no Brasil.

Um aspecto bastante pautado ao longo da Mostra foi a forma como são retratadas as experiências diaspóricas dos afro-descendentes pelo mundo. As narrativas apresentadas revelam importantes aspectos da memória e experiências destes indivíduos que constantemente buscam se inserir em novos espaços, sem perder sua essência cultural. O cinema negro, que segue incipiente no cinema mundial, é essencialmente diaspórico, já que, mesmo quando não há intenção, descreve os aspectos históricos, políticos e culturais da realidade das populações negras.

A experiência da negritude no mundo é pautada pela similaridade em diversos aspectos, tornando-a uma experiência compartilhada, e a Mostra de Cinemas Africanos também se revelou como um espaço de reflexão sobre as identidades e as subjetividades negras e como elas se relacionam umas com as outras nos movimentos da diáspora. Conhecer o que é produzido nos cinemas africanos é conhecer uma expressão artística que fala também para a população negra que não é natural de países africanos, mas que se vê atravessada (com suas particularidades) por questões raciais, sociais e econômicas.

A infância também é um tema africano

Supa Modo. (Foto: One Day Fine Films/divulgação)

Celebrado no Festival de Berlim de 2018, o queniano Supa Modo (2018) abriu a Mostra no dia 7 de dezembro. Selecionado pelo Quênia para representar o país no Oscar, o filme lança um delicado – apesar de poderoso – olhar para a infância ao contar a história de Jo, uma menina que sofre de uma doença terminal que conta com o apoio da mãe e da irmã para viver os últimos dias de vida.

Brincando com referências ao cinema dos outros continentes, o diretor Linkrarion Wainana fala sobre a morte e a perda de forma sublime, fugindo do clichê e de cenas expositivas: em Supa Modo, a emoção que aflora nos espectadores é o resultado de uma relação que criamos com a protagonista e com aqueles que a cercam, que fazem de tudo para que o encontro de dois extremos tão polarizados (a morte e a infância) seja menos doloroso. Um filme gigantesco sobre alteridade e sobre como a infância pode resistir em cores e sorrisos mesmo quando o “mundo adulto” teima em se revelar mais cedo. E é muito potente que uma história como Supa Modo seja ambientado no Quênia, pois concretiza um processo de desmistificação de que a infância no continente africano é pautada principalmente pela violência e pela miséria. Jo sorri, mesmo quando a sua morte é iminente e esse sorriso é, no fim das contas, um colorido e desdentado ato de revolução.

A exibição de Supa Modo foi precedida pelo debate “Distribuição e circulação dos cinemas africanos: o acesso aos filmes”, que contou com a presença de Ana Camila Esteves, jornalista e curadora da Mostra e de Pedro Henrique Gomes, crítico de cinema. Em sua fala, Ana Camila se revelou estupefata pelo fato dos cinemas africanos ainda estarem muito atrelados ao circuito de festivais de outros continentes (principalmente europeus) para que ganhem visibilidade e para que sejam legitimados como filmes que são, num eco cultural da violenta relação de dependência entre África e Europa. “Esses filmes todos só existem se forem exibidos em festivais. Berlim, Cannes, o Festival de Toronto também. E é só assim que a gente consegue conhecer esses filmes”, relata Ana Camila.

Ela também falou sobre como o processo de exibir os filmes é complicado e burocratizado justamente por essa relação de dependência do cinema europeu. Muitas vezes, para serem exibidos, os filmes precisam ter seus direitos vendidos, o que dificulta a exibição fora dos circuitos mais tradicionais e, consequentemente, um maior alcance dessas obras. Para a exibição dos 22 filmes da Mostra foi, segundo Ana Camila, realizado muito diálogo, tanto com as distribuidoras detentoras dos direitos quanto com os próprios realizadores dos filmes. A organização do evento inclusive ficou responsável pela legendagem de alguns filmes que não possuíam o recurso em português.

O conflito entre modernidade e tradição na África atual

Wallay (Foto: divulgação)

Na tarde de sábado, 8 de dezembro, segundo dia da Mostra, foram exibidos os filmes Wallay de Berni Goldblat e Rafiki de Wanuri Kahiu. Duas obras distintas que nos apresentam duas Áfricas que parecem díspares, mas que perpetuam os mesmas crenças e preconceitos de uma sociedade que luta para se enquadrar na modernidade sem perder seus costumes.

Em Wallay (2017), do diretor suíço-burkinense Berni Goldblat, o conflito entre tradição e modernidade, tão caro às diversas narrativas dos cinemas africanos, encontra uma abordagem contemporânea, leve e divertida. Através das experiências do menino Ady, é possível sensibilizar-se para as questões de cultura e identidade que persistem no indivíduo africano em diáspora no mundo inteiro.

Na narrativa, um menino de 13 anos, Ady, não escuta mais seu pai, que o cria sozinho no sul da França. O pai decide então confiar ele ao seu tio Amadou no período de férias de verão, em uma região rural de Burkina Faso, seu país de origem. Lá, acreditando que está somente de férias, Ady descobre que foi enviado para tornar-se um homem através dos costumes locais. No decorrer do longa somos tensionados pelo contraste entre a modernidade de Ady e a África tradicional de Burkina Faso. A relação do menino com a família do pai torna-se ainda mais complicada por estas diferenças. Como a maioria dos jovens de sua idade, tudo o que Ady quer é relaxar com seus fones de ouvido ou jogos online enquanto esperam dele trabalho e comprometimento. Estas tradições, negadas pelo pai em sua nova realidade na Europa, agora se tornam válidas para “disciplinar” o filho que passa por uma fase difícil da adolescência.

Em um local onde mal existe eletricidade e com meios de comunicação limitados, inicialmente o menino reage à nova realidade com uma mistura de rebelião e descrença em sua súbita mudança de condições de vida. Mas, o garoto gradualmente se abre para um novo mundo e um novo jeito de ser, através da relação com sua prima Jean e sua avó, Mame que lhes apresentam que o “novo” mundo não é assim tão assustador.

Rafiki (Foto:divulgação)

Na sequência, foi exibido em primeira mão em Porto Alegre o aclamado longa-metragem, banido no Quênia e ovacionado na edição de 2018 do Festival de Cannes. Sob um filtro rosa, a diretora Wanuri Kahiu apresenta uma narrativa com temática tabu em seu país: a homossexualidade. No Quênia, a homossexualidade é proibida por lei e pode ser penalizada com até 14 anos de prisão.

O longa, que colocou a vida da diretora em risco por tratar destas questões, era a principal escolha do Quênia para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar, por sua repercussão internacional em grandes festivais de cinema. Mesmo após a suspensão da proibição, o governo queniano escolheu outro filme como representante do país na premiação, relativizando seu potente grito de liberdade que ecoa nos arredores de um país ainda extremamente conservador. O representante do país acabou sendo Supa Modo.

Em duas sessões lotadas (a primeira no dia 08/12 e a segunda no dia 13/12) e aplaudidas pelo público porto-alegrense, Rafiki apresenta a história de um amor impossível contada sob um novo ângulo. Com o tradicional pano de fundo das famílias rivais, Wanuri consegue nos sensibilizar com sua abordagem da sexualidade lésbica negra, tema ignorado na cinematografia mundial, reforçando  a negação dessas existências de mulheres negras e lésbicas no cinema. A abordagem do filme pode soar leve, mas como diz a própria diretora no vídeo exibido antes da sessão, um filme de amor também é um filme de luta, e assim é Rafiki.  Com cores vibrantes e uma pegada pop, somos apresentados a Kena e Ziki, duas meninas que cresceram ouvindo o ditado “Boas meninas quenianas tornam-se boas esposas quenianas”. No entanto, ambas anseiam por algo mais real que isso.

Rafiki (Foto: divulgação)

Baseado no conto “Jambula Tree” da escritora ugandense Monica Arac de Nyeko, com uma linguagem leve e sensível, ele desconstrói estereótipos até mesmo através da estética visual. Somos impactados com a pluralidade de cores apresentada na fotografia, no figurino e no design de produção que nos transportam para uma narrativa urbana que nos descola da ideia de uma África árida, seca e amarelada.

Após a exibição dos filmes, foi realizado um debate com a temática “Por um cinema negro, feminino e LGBTQ” com participação de Fernanda Nascimento (doutoranda no PPG Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, com pesquisa sobre gênero e sexualidade), Lorena Risse (doutoranda em Ciências da Comunicação na Unisinos) e Carla Rabelo (professora da Unipampa). O tema central da conversa tratou do espaço ocupado pela mulher lésbica, tanto no cinema como na sociedade atual. Uma questão levantada pelas debatedoras foi a importância do cinema feito por mulheres para contar histórias femininas. Ainda nos deparamos com a dificuldade de representar o amor lésbico e com histórias contadas por errôneos pontos de vista, essencialmente masculinos.

Ineditismo no Brasil

Vaya (Foto: divulgação)

No terceiro dia da Mostra, 09 de dezembro, os espectadores conferiram uma seleção de curtas apresentados em parceria com a New York African Film Festival. Na seqüência foi exibido o longa-metragem Vaya (2016) do diretor nigeriano Akin Omotoso em sua primeira exibição no Brasil. No filme conhecemos as histórias de três passageiros de um trem que chega a Joanesburgo vindo de KwaZulu-Natal. A jovem Zanele que busca se consolidar como artista, o menino Nhlanhla está na cidade para visitar um primo com a promessa de um emprego e Nkulu que está na cidade grande para buscar o cadáver do pai. Ambientado no submundo da maior cidade da África do Sul, Vaya é um excelente representante do cinema sul-africano contemporâneo, que ao mesmo tempo sensibiliza e perturba o espectador. Baseadas em histórias reais, as experiências na cidade grande dos personagens os obrigam a repensar suas atitudes diante da vida e das pessoas.

 Vozes negras, femininas e diaspóricas

Solte a Voz (Foto: divulgação)

Na terça-feira, 11 de dezembro, retorno da Mostra após um dia de descanso, a plateia foi comovida pelo sensível documentário Solte a Voz (2018), da diretora francesa Amandine Gay. No longa, conhecemos 24 mulheres de origem africana, entre cidadãs, ativistas, engenheiras e pesquisadoras, que falam sobre suas identidades enquanto mulheres negras vivendo na França. Os depoimentos focam na discussão das interseções entre discriminação, arte, pluralidade de vidas e a necessidade de se apropriar das narrativas de si.

O documentário já começa com um importante questionamento: como as entrevistadas descobriram-se negras? A questão fica reverberando em nossos pensamentos mesmo após a sessão. Será que meninas brancas também passam por esse momento? Por que descobrir-se negra é tão marcante e está sempre relacionado a uma experiência dolorosa e que de certa maneira molda a vivência e o futuro comportamento destas meninas na sociedade? Não só neste documentário, mas em toda a Mostra esta foi uma temática presente em diversos filmes: o papel da mulher negra na sociedade atual. Como podemos nos destacar em um mundo machista e racista que nos arrasta para a base de toda a cadeia produtiva intelectual e cultural?

E, com base nestes questionamentos, é que se mostra a importância da exibição de filmes como Solte a voz. O documentário é um manifesto pela valorização da voz, da presença e da potência da mulher negra. Através dos depoimentos de mulheres tão diferentes, entendemos que suas existências são marcadas por sua condição de mulheres e negras e percebemos o quanto estes depoimentos em muito se relacionam com as vivências no Brasil.

Antes da exibição, no vídeo gravado especialmente para a Mostra, quando questionada sobre o porquê de fazer um filme com aquelas mulheres, a diretora Amandine Gay não poderia ser mais enfática: “Porque somos maravilhosas! Mostrar o modo como somos na nossa visão, não pela visão dos outros, é uma forma de inspirar jovens meninas negras”. Esta complexidade de poder ser quem se é, nestes casos, muito mais do que só mulher, mas mulheres negras, se torna uma batalha diária. Uma batalha constante para ser o oposto de qualquer estereótipo, uma batalha para se sentir representada em uma sociedade que não lhe reconhece, uma batalha para sair da invisibilidade e combater a objetificação de seus corpos.

É impossível não se emocionar, e, no meu caso, enquanto mulher negra, não se identificar com os depoimentos ouvidos pela diretora que, através de um belíssimo trabalho de edição que alinha tantas histórias, nos mostra o quanto é preciso falar sobre estes assuntos e o quanto precisamos evoluir como sociedade para acabar com as angústias tão comuns a todas as mulheres negras, independentemente de sua localização no mundo.

A exibição foi sucedida pelo debate “Representatividade feminina negra: desdobramentos entre África e Brasil” com a presença de Camila Andrade (doutoranda em Ciência Política e integrante do CEBRAFRICA, da UFRGS), Fernanda Bastos (escritora e jornalista, mestranda em Comunicação e Informação na UFRGS e criadora da editora Figura de Linguagem) e com a mediação de Fernanda Carvalho (jornalista na TV Nação Preta e ativista do movimento negro). A conversa foi permeada por temas como a solidão e a objetificação da mulher negra e sobre como as agendas do movimento feminista nem sempre abrangem a todas.

Para Camila Andrade, que está atualmente no Rio Grande do Sul, mas é da Bahia, “ser o melhor” é a ferramenta negra para enfrentar o mundo, é preciso estar constantemente provando nosso valor e que somos merecedoras do espaço que ocupamos. Fernanda Bastos descobriu o que era ser negra na TV quando não se via ali e percebeu que ser mulher e negra é algo que vai sempre vai nos separar. Como jornalista no Rio Grande do Sul ela diz que sabe que nasceu e cresceu em um estado que a odeia. O debate foi encerrado com a fala da poetisa Lilian Marques que estava na plateia na ocasião e utilizamos suas palavras para deixar o questionamento: até quando a mulher negra vai ter que ser sinônimo de resistência?

Um cinema de cores e sons

No ritmo do Antonov (Foto: divulgação)

O oitavo dia da Mostra foi dedicado ao documentário sudanês No ritmo do Antonov (2014). Dirigido por Hajooj Kuka, o documentário fala sobre como a música é um pilar da rotina, da cultura e da busca por identidade no Sudão. O “Antonov” do título é um avião responsável por lançar as bombas que dão seguimento à guerra civil no país, que separou adeptos do islamismo de adeptos de religiões tradicionais e religiões cristãs. Nessa realidade de dois Sudões (o Sudão do Norte muçulmano e o Sudão do Sul cristão e animista) a música se revela o elemento tensionador de aspectos como a identidade de um país que está em conflito justamente para definir essa identidade.

A etnomusicóloga Sarah Mohamed, uma das figuras que conduzem o espectador nesse Sudão de conflitos e músicas diz: “Há um Sudão feliz, que ama a vida”. Isso se revela verdadeiro nas muitas cenas que mostram agricultores, pastores, militares, pessoas comuns vítimas de uma guerra (que, segundo Sarah, é racista), transcendendo os conflitos em rituais religiosos ou na resolução de atritos entre si, embalados por músicas tocadas em instrumentos feitos muitas vezes de forma manual com objetos usados.

Há também no documentário duras e sinceras críticas à toda e qualquer violência motivada pela imposição de culturas. E, nesse ponto, o filme é espetacular ao trazer a música como um instrumento de pedido por igualdade e respeito, como um grito contra a marginalização e a injustiça e por promover uma profunda reflexão sobre quem somos e que lugar ocupamos no mundo e como as nossas expressões podem ajudar a responder essas perguntas.

Apoderamento negro e feminino

Martha & Niki (Foto: divulgação)

No sábado, 15 de dezembro, penúltimo dia da mostra, momentos antes da sessão principal do dia, o saguão da Cinemateca Capitólio não estava lotado, mas era perceptível uma mudança no cenário que normalmente é visto no local: mais da metade dos presentes no dia eram negros e ocupavam quase todo o espaço na expectativa do início de mais um filme que, de certa forma, os representaria na tela do cinema. E nesta mudança de cenário está um dos grandes trunfos da Mostra, que é não só apresentar as diferentes experiências de africanos espalhados pelo mundo, mas dar a oportunidade aos daqui de se reconhecerem na telona.

Após a exibição de uma série de curtas apresentados através de uma parceria com a FestiFrance foi realizada uma intervenção cultural com as slammers, poetas e MC’s Ana Tereza (Pretana) e Mikaela Coelho, do grupo Poetas Vivos. No saguão da Capitólio ecoou o som da poesia escrita por mulheres negras, que através de suas escrevivências (termo emprestado de Conceição Evaristo) expõem o que é ser mulher negra na sociedade brasileira atual.

Depois da intervenção foi exibido o documentário Martha & Niki (2016), da diretora Tora Mårtens, que acompanhou durante oito anos a trajetória de Martha Nabwire e Niki Tsappos. Juntas, elas venceram a maior competição de hip-hop da Suécia e em 2010 disputaram a final mundial da maior competição internacional de dança de rua, realizada em Paris. O longa registra o amor das duas pela dança, uma pela outra e a amizade posta à prova em razão das diferenças sociais enfrentadas por ambas.

Niki nasceu na Etiópia, mas foi adotada ainda criança por uma família sueca e levada para a Europa, enquanto que Martha nasceu e cresceu em Uganda e foi para a Europa aos 14 anos de idade como refugiada. Estas diferentes experiências diaspóricas possuem forte influência na convivência das duas, sobre seus desejos, anseios e sobre a forma como buscam o caminho de suas vidas. Para além de apresentar uma narrativa dinâmica, urbana e inspiradora, o documentário parte do amor de Martha e Niki pela dança para discutir questões relacionadas à identidade africana na condição diaspórica das duas dançarinas.

Nas cenas das batalhas de dança, em sua maioria contra adversários homens, a conexão entre as duas é perceptível e o desejado compartilhado por elas de sempre se superarem e ocuparem os espaços que lhes pertencem é o que as leva sempre à diante. O documentário acompanha as meninas em uma jornada pelo mundo onde as duas estão em busca de si mesmas, passando por países como Suécia, França, Estados Unidos, Cuba, República Checa, Grécia e culminando em Uganda, na África. A dança aqui é tratada como forma de expressão e caminho para a liberdade e reforço de suas origens.

Após a apresentação do filme foi realizado o debate “Mulheres e culturas urbanas” com a participação das slammers, poetas e MC’s Ana Tereza (Pretana) e Mikaela Coelho e da jornalista Carol Anchieta. O que ficou evidente durante os relatos e a experiência delas ao assistir o filme é o quanto a mulher negra precisa batalhar mais que as outras. Para Pretana “desde novas somos ensinadas que precisamos lutar mais, assim como as meninas do filme. A vida do negro é isso, acordar todo dia sabendo que vai ser muito difícil e não desistir nunca”.

As mães da África

O último dia da Mostra de Cinemas Africanos foi um grande reflexo do que o público que compareceu à Cinemateca Capitólio desde o primeiro dia testemunhou: histórias arrebatadoras protagonizadas e contadas por mulheres negras.

A programação começou com a exibição de três curtas-metragens da cineasta queniana Ekwa Msangi. Diretora, produtora e escritora, Ekwa se vê confortável ao flertar com diversos gêneros cinematográficos. O primeiro curta, Taharuki (2011), é um suspense político ambientado em um Quênia traumatizado pela violência que precedeu as eleições de 2007, que reelegeu o candidato Mwai Kibaki – alvo de acusações de fraude no processo eleitoral – por mais cinco anos. No filme, um casal precisa enfrentar o peso de suas decisões (e das consequências delas) enquanto trabalham em um movimento clandestino de libertação de crianças. Já o divertido Soko Sonko (2016) é uma comédia familiar que mostra como um pai desastrado pode tornar o simples ato de levar a filha à uma trançadeira numa grande confusão. Envolvendo personagens comuns do cotidiano, o curta faz uma reflexão sobre os espaços ditos femininos e os ditos masculinos, e o que acontece quando o necessário trânsito entre esses dois espaços socialmente construídos é realizado. Finalizando o programa de curtas de Msangi, foi exibido o profundo Farewell, meu amor (2016), uma verdadeira aula de como realizar um curta-metragem. Com planos fechados, uma trilha melancólica e uma atuação simples mas arrebatadora que retrata o último encontro de um casal dentro de um apartamento, somos apresentados a uma história de amor cujos impedimentos são as consequências da diáspora dos filhos de África pelo mundo.

Árvore sem frutos (Foto: divulgação)

Logo depois foi a vez do documentário Árvore sem frutos (2016), dirigido pela cineasta Aïcha Macky, nascida no Níger. Em cores vibrantes e em alguns momentos flertando com o ficcional, Árvore sem frutos fala das mulheres adeptas do islamismo que se deparam com a infertilidade e como isso as coloca em contato direto com o preconceito e com a invisibilidade. Mas, além disso, o documentário questiona, a partir da visão dessas mulheres (e, em alguns casos, a partir de suas vozes) a responsabilidade sobre a concepção de uma nova vida: onde estão os homens nessa história? E quando é o homem o infértil, o que há de ser feito? Árvore sem frutos mostra, através de relatos e histórias duras e emocionantes, que a mulher islâmica africana não é uma figura estática: é uma figura que questiona, que se rebela e quer não só quer ter, como também quer contar a sua própria história.

A maternidade em conflito com as tradições também foi o tema central do filme que encerrou a Mostra. Em M de Menino (2013), da nigeriana Chika Anadu, a protagonista Amaka – uma representação da independente e moderna mulher nigeriana – se vê às voltas com os impactos do sexo do filho que espera do marido. Se homem, o prosseguimento da linhagem da família, se mulher, um corte nessa mesma linhagem. O filme é uma grande reflexão sobre como as tradições de África (no caso, do povo igbo) lidam com questões como independência, o conflito de gerações e o papel da mulher na sociedade.

Aqui, nos deparamos novamente com uma temática que se fez presente em vários filmes da Mostra, o confronto entre o moderno e uma cultura que gira muito em torno da figura do homem. Ao ser ameaçada pela sogra que diz que, a menos que ela tenha um filho, ela encontrará uma segunda esposa para o seu marido, Amaka precisa optar entre lutar por seu estilo de vida ou aceitar as imposições de uma sociedade que ainda luta para encontrar o equilíbrio entre religião e contemporaneidade. O filme é um forte exemplo da potência da nova geração de cineastas nigerianos que conseguem utilizar o cinema para abordar as temáticas culturais de seu país e todas as questões que rodeiam ao assunto.

Uma história que é tudo, menos única

Ocupação, representatividade, feminismo, pluralidade. São muitos os substantivos que podem dar conta da Mostra de Cinemas Africanos que apresentou a Porto Alegre uma parcela do que é feito no audiovisual no continente africano. É muito significativo que espaços como as salas de cinema, ainda tão restritos e racialmente demarcados, sejam também espaços de questionamento do estado das coisas e palco de um trabalho de desconstrução de um olhar único para um lugar cheio de lugares como África.

Além desses aspectos que giram em torno da produção cultural e do tipo de material que consumimos, a Mostra também tensionou a espinha dorsal da prática cinematográfica: a sua qualidade técnica e estética. De fato, após 22 filmes, entre curtas e longas com narrativas diversos, a certeza que fica é a de que os cinemas do Quênia, da Nigéria, de Burkina Faso, e tantos outros países representados pela curadoria, em nada devem para os cinemas hollywoodianos e europeus. São textos ricos, trilhas sonoras marcantes, edições criativas e fotografias belíssimas que, juntos, sacodem a plateia pelos ombros e diz “estamos aqui!  Temos diferentes histórias para contar, existimos e somos plurais! ”.

E as reações que pairavam pela sala de exibição ao acender das luzes após cada sessão refletia justamente o que é a experiência do cinema: o mergulho absorto em um universo que não é o nosso e que pode nos cativar, nos emocionar, nos encher de raiva ou medo, que pode nos revoltar, nos fazer perder a esperança ou mesmo recuperá-la e que nos marca de uma forma ímpar, uma forma que só a imagem e o som reunidos podem marcar.