Por Julio Souto Salom

Em meio ao caos urbano e à pulsação da zona leste de Porto Alegre, quem passa de ônibus pela Avenida Bento Gonçalves não pode deixar de notar o enorme muro grafitado do Instituto Psiquiátrico Forense, junto à Igreja de São Jorge. São mais de cem metros nos que as palavras “DARZ VIVE” e “DARZ ETERNO” se repetem com diferentes grafias, desenhos e cores. Faz uns dias que a tinta brilha fresca e renovada, após uma nova mutirão de grafiteiros. A repetição insistente do mesmo nome escrito por tantas mãos e a afirmação gritante da vida faz com que o passante perceba logo que esse muro não é um grafite normal. Quem foi Darz? Como morreu? Essa escrita sobre o caótico texto da cidade tenta impedir o esquecimento de um crime estúpido e perpetuar a memória de um jovem amado pelos seus amigos.

Muro na Avenida Bento Gonçalves, em 2016.. Foto reprodução

Max e Leandro: duas mortes estúpidas

Darz era o nome grafiteiro de Max William da Rosa, um jovem porto-alegrense que foi assassinado na noite de 22 de Outubro de 2015, junto ao seu amigo Leandro Scherer. Aquela noite, os dois amigos comemoravam o aniversário de Leandro, conversando junto a um posto de gasolina na rua Júlio Boccacio, esquina com a avenida Bento Gonçalves. Por volta das 22 horas, eles foram surpreendidos pelas costas por diversos disparos. Pela sua aparência física, Max foi confundido com uma outra pessoa que era alvo dos criminosos. Max não resistiu aos ferimentos e morreu no local, Leandro chegou a ser socorrido, mas morreu na manhã seguinte. Com 28 anos, Max era dono de uma empresa de comunicação visual e era muito conhecido no mundo do grafite pela sua paixão e dedicação. Deixou a mãe, três irmãos, namorada e filha de 5 anos. Da mesma idade, Leandro morava no bairro Santo Antônio, na rua em que o crime ocorreu. Apaixonado por carros, trabalhava como mecânico e participava em eventos automotivos. Deixou os pais, sua irmã e noiva.

O assassinato foi noticiado na imprensa local, mais duas vítimas mortais entre os seiscentos setenta e oito homicídios que aconteceram em Porto Alegre em 2015. Na mesma semana, os amigos organizaram um ato em frente ao Palácio da Polícia Civil na Avenida Ipiranga, exigindo justiça e segurança. Para além da impossível reparação e da vã esperança de que crimes como esses não se repitam, a indignação dos amigos de Darz surge da banalização e esquecimento da sua existência. Com taxas de homicídios tão elevadas, é difícil que a memória coletiva da cidade guarde a lembrança de mais uma vítima fatal. Ações como o muro grafitado na Bento Gonçalves vão além da imagem da vítima do azar e instauram um monumento ao ente amado, mas também ao artista e educador como figura pública cultural da cidade.

Grafiteiro exige respeito. Na Avenida Mauá, um grafiti de Darz foi atropelado pelo projeto “Arte no Muro” promovido pelo Santander Cultural, provocando a reação dos seus amigos. Foto: Trecos Gang, 28/04/2016

Os muros não esquecem

A preocupação com a memória do grafiteiro começou quando seus companheiros perceberam que muitas das suas pinturas estavam sendo “atropeladas”. Sobre seus grafites e pixações apareciam outras marcas, tanto pintadas quanto cartazes colados anunciando festas ou promovendo greves, apagando seu legado como uma onda de mar apaga uma pegada na areia. Seus companheiros se dedicaram à preservação das marcas da sua memória nos pontos da cidade onde ela era desrespeitada, muitas vezes por indiferença ou desconhecimento do caso.

Em outubro de 2016, foi pintado o muro do Instituto Psiquiátrico Forense, com a autorização da entidade conseguida por mediação de uma funcionária da instituição. Para a homenagem, uma multidão de grafiteiros emprestou sua habilidade artística para escrever o nome de DARZ no muro. A variação de grafias e estilos para inscrever um mesmo nome é o que outorga destaque a este muro entre os milhares de grafites da cidade. Sob um olhar pejorativo, o grafite e a pixação normalmente são vistos como exercícios de vaidade narcísica dos autores, que não se importariam em “enfeiar” a cidade para marcar nela a sua presença. No muro “DARZ VIVE”, com a variação de estilos e cores, mesmo o passante desavisado entende ao instante que muitas mãos participaram no mural coletivo homenageando uma mesma pessoa. Não há narcisismo, mas tributo persistente.

Restauração do muro homenagem a DARZ, domingo 21 de outubro de 2018 (Foto: Julio Souto)

Um novo mutirão, três anos depois

No domingo de 21 de outubro de 2018, os amigos de Darz se reuniram de novo naquele muro junto à Igreja de São Jorge, dois anos depois, para restaurar a obra e pintar de novo onde fosse preciso. Alguns grafites (não muitos) tinham sido atropelados, outros tinham a tinta desgastada ou com pouco brilho. O mutirão de restauração também foi oportunidade para um reencontro de rememoração do amigo, marcando os três anos do assassinato.

Além dos familiares e seres queridos, os amigos lá reunidos integram vários grupos dos que Darz fazia parte. Um dos mais ativos é a Trecos Gang Paint, atuante pelos lados do Morro da Cruz e Parthenon. Dick, membro deste grupo, tem sido dos mais preocupados na preservação da memória de Darz, organizando encontros como a mutirão do muro do IPF. Além de amigo, Dick era sócio de Darz na empresa de comunicação visual. Para ele, a homenagem é uma obrigação com o amigo: “Ele fez muito pelo grafite em Porto Alegre, mas além disso era uma pessoa espetacular. Trabalhador, amoroso, sempre dando risada com os amigos…” A reunião junto ao muro da Bento serve para restaurar as pinturas, mas também é um encontro para conversar sobre o amigo com um galeto e umas cervejas: “é uma homenagem que ele teria gostado”.

Marcelo Smok, integrante da crew EVL, da qual Darz participava, nos explica o significado dessa sigla: “quando éramos mais piás, criamos a EVL como uma gang de pixação, lá do bairro Santo Antônio. Coisa de moleque mesmo, EVL era É Vida Loka! Depois fomos amadurecendo e Darz fez a proposta de mudar para Evolução Lado Leste, com a mesmas letras, trazendo mais consciência para nossas ações”.

Homenagem no Largo Zumbi dos Palmares na Cidade Baixa  (Foto: Julio Souto)

Conversando com os amigos de Darz podemos relativizar a teimosa divisão entre grafite e pixação que afirma o poder público, segundo a qual a pixação estaria associada ao vandalismo e o crime ambiental, enquanto o grafite é uma aceitável forma de arte urbano. Neste caso, tanto a restauração dos grafites com autorização quanto as pixações do nome Darz, que seguem aparecendo em muros da cidade, buscam apenas manter viva a memória de um ente amado. A diferença formal e estética espelha os diferentes tratamentos legais que enquadram as intervenções, mas não há nenhuma diferença no fundo ético, na intenção da marcação da cidade.

O Núcleo Urbanoide, outro coletivo do que Darz fazia parte, é um dos mais atuantes grupos de arte urbana de Porto Alegre. Entre outros feitos, é conhecido pela curadoria do Meeting Of Styles 2014, evento internacional de grafite no que mais de 60 grafiteiros pintaram o Túnel da Conceição. Jorge e Lucas lembram de Darz como um artista autêntico: “o coletivo já ficou bastante conhecido no circuito de arte urbana, participamos em ações em museus e galerias. Dá para sentir que há muita falsidade e vaidade neste mundo da arte, muitas pessoas fazendo as pinturas só para aparecer na foto e ganhar likes. Lembrar de Darz é lembrar de um artista que fazia grafite por paixão, não por todas essas futilidades que envolvem este mundo”.

O coletivo Anjos do Bem foi criado por amigos e familiares de Darz, como uma organização beneficente especialmente focada na infância e em ações que promovem a cultura da paz. O nome da organização lembra uma figura icônica que Darz desenhava em vários cantos da cidade, como nos explica Samuel, um dos organizadores do grupo: “Darz desenhava esse anjinho com a palavra ‘PAZ’, que nos parece muito especial. Está pintado lá no início do muro, perto da Igreja de São Jorge. Com o coletivo queremos lembrar as ações de educação que ele fazia, com oficinas de grafite para adolescentes, sempre com mensagens positivas. Tem essas intervenções nas placas de trânsito, “nunca PARE de sonhar”, ficaram bonitas. Mas além disso estamos fazendo também ações que vão além do grafite, festas comunitárias para crianças lá na Lomba do Pinheiro, levando cachorro quente e piscina de bolinhas. Tudo no nome de Darz”.