por Thayse Ribeiro

A história pode parecer absurda e saída da mente insana de um roteirista hollywoodiano, mas na verdade, o novo filme de Spike Lee é inspirado em fatos reais. “Infiltrado na Klan” conta a história de Ron Stallworth, um policial negro nos Estados Unidos dos anos 70, que se infiltra na Ku Klux Klan com a ajuda de um policial branco (e judeu).

Infiltrado na Klan, vencedor do Grande Prêmio do Júri do festival de Cannes de 2018, marca um retorno furioso e necessário do cineasta Spike Lee às telonas, já que o diretor de Malcom X (1993) e Faça a Coisa Certa (1989) permanece firmemente ancorado no cinema ativista que marca sua trajetória. Aqui, ele volta a fazer uma das coisas que faz de melhor: colocar o dedo na ferida. Intercalando momentos de humor ácido (como a cena da primeira conversa de Ron com um representante do Klan) e outros de reflexão pesada (que vão de reuniões dos Panteras Negras a cenas recentes de ataques contra negros nos EUA), Lee entrega um filme que nos transporta a seu ativismo dos anos 90, que fez dele um dos porta-vozes da comunidade negra americana.

O filme retrata bem o clima de ódio, perseguição e desconfiança da década de 70, período de maior enfrentamento entre negros organizados e supremacistas brancos nos Estados Unidos, mas o curioso (e ao mesmo tempo doloroso) é o quanto o filme nos diz sobre os tempos atuais, o quanto pensamos que evoluímos, mas seguimos enfrentando os mesmos monstros.

Durante a estreia em Cannes, Lee afirmou que BlacKkKlansman é algo mais do que cinema: “Para mim é um chamado para que despertemos, neste momento em que a mentira se anuncia como verdade. Para mim tanto faz o que digam os críticos. Sei que estamos no lado certo da história com este filme”.

Foto: divulgação

A história começa quando, em 1978, Ron Stallworth, um policial negro do Colorado, consegue se infiltrar na Ku Klux Klan local. Ele se comunica com os membros do grupo por meio de telefonemas e cartas, e quando precisa estar fisicamente presente envia o policial branco Flip Zimmerman em seu lugar. Mas o que era pra ser apenas uma investigação acaba por tomar rumos diferentes quando Ron consegue sabotar uma série de ações orquestradas pelos racistas, sem que ninguém suspeitasse da cor de sua pele.

Antes de conseguir se infiltrar na KKK, Ron passou por um período humilhante no departamento de registros até ser levado para um trabalho disfarçado, onde tem que espionar uma reunião dos Panteras Negras. A experiência o modifica radicalmente, inspirando-o a usar a tática secreta em uma nova direção. A busca pela raça pura dos integrantes da KKK é composta por uma mistura de ódio e ignorância tão grandes que nos deixa atônitos, mas Spike Lee consegue balancear estes momentos de drama com humor e mostrar todo o seu talento como diretor.

O sarcasmo é o fio condutor da trama, e as ironias, combinadas com os diálogos racistas incessantes, criam um miasma interessante. Ainda assim, temas sensíveis como as preconceituosas, ofensivas e violentas questões que atingem os negros todos os dias, são tratados de forma séria e direta. Mais do que uma reconstrução de uma história e uma época, o desconforto chega ao ápice quando Spike Lee deixa as suas próprias imagens de lado para mostrar cenas da marcha de supremacistas do grupo Unite the Right, em Charlottesville. A sensação de que, 40 anos mais tarde, pouco mudou é triste.

Foto: divulgação

O filme já começa impactante com uma participação de Alec Baldwin, recentemente aplaudido nos EUA por suas imitações de Trump no programa de humor Saturday Night Live. No filme, o ator interpreta um extremista do poder branco. John David Washington (filho de Denzel Washington) interpreta o personagem principal, Stallworth, um jovem negro em Colorado Springs que deseja se juntar à força policial, encorajado por uma ação afirmativa em todo o estado.

O elenco está excelente e conta também com Adam Driver interpretando Zimmerman, o policial branco; Corey Hawkins como Kwame Ture (ativista negro do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos da época). O papel de Hawkins é breve, mas eletrizante. Há também uma pequena participação de Harry Belafonte que emociona. Amigo pessoal e confidente de Martin Luther King nos anos 1950 e 1960, Belafonte foi o primeiro artista negro americano a se engajar na luta pelos direitos civis, tornando-se um porta voz do movimento à época e desde então.

Uma aparição que chama a atenção no longa é a do ator Topher Grace que interpreta o chefe da KKK, David Duke. Este nome pode lhe parecer familiar visto que recentemente ele ilustrou os noticiários brasileiros. Duke, conhecido ex-lider do grupo nos Estados Unidos, elogiou Jair Bolsonaro (presidente eleito em outubro deste ano) no programa de rádio que comanda. 

Foto: divulgação

A estética do filme nos transporta ao imaginário que possuímos dos anos 70. As calças boca de sino, roupas estampadas e sandálias plataformas são algumas das referências típicas da década presentes no longa. Mas o que mais se destaca é o estilo dos personagens negros da obra e a relação com a identidade. Através do black power e referências ao estilo Jackson Five percebemos uma mudança no comportamento dos jovens ativistas negros daquela década.

O figurino  ficou a cargo de Marci Rodgers, colaboradora antiga de Spike Lee. Ela visitou a universidade onde Kwame Ture estudou e se encontrou diversas vezes com Ron Stallworth. Para o estilo cool de Ron, ela seguiu as orientações do próprio, que a ensinou como ele usava alguns acessórios para refletir a linguagem das ruas. Mas o maior acerto do longa-metragem é seu trabalho de montagem, capaz de dar conta de várias subtramas, núcleos, prólogos e apêndices sem deixar o ritmo cair. Vale mencionar que o longa tem uma música inédita de Prince, Mary Don’t You Weep.