por Thayse Ribeiro

Eu já havia assistido a Roma duas vezes em casa. Todavia, a emoção da sala escura  do cinema e de dividir a experiência com as pessoas que ali estavam foi imensamente melhor do que o meu testemunho solitário em casa.

Em uma noite chuvosa de quinta-feira, após a longa espera na fila que se formou no saguão da Cinemateca Capitólio, já começamos a noite com a estranheza de ver o símbolo do Netflix na tela grande. Isso porque em Porto Alegre, o filme do diretor mexicano Alfonso Cuarón ganhou duas sessões no Capitólio, uma no dia 17 e outra sessão extra no dia 18 de janeiro, após se esgotarem os ingressos para a primeira exibição. Foram duas noites lotadas e, quando digo lotada,s é em seu sentido literal. Não sobrou uma cadeira vazia na sala.

Roma foi produzido pela gigante do streaming e está disponível no serviço desde dezembro de 2018. Após sua estreia por lá, muitos comentavam a magnitude da obra e como seria a experiência de assisti-la na telona. Diante desse apelo e visando o Oscar, a Vitrine Filmes promoveu sessões especiais em cinemas nas cidades de Recife, Fortaleza, Porto Alegre e Teresina. O filme que já levou um Leão de Ouro no Festival de Veneza (melhor filme), dois Globo de Ouro (filme estrangeiro e direção) e quatro Critics’ Choice (filme, filme estrangeiro, direção e fotografia) pode fazer história como o primeiro filme do Netflix a ser indicado às principais categorias da Oscar.

Foto: divulgação

Projeto mais pessoal da carreira de Cuarón, Roma é um retrato intenso em preto e branco do México no início dos anos 1970, com suas diferenças sociais e raciais, no qual o diretor rememora suas lembranças de infância e nos entrega esta peça deslumbrante e ambiciosa. A história é apresentada pelo ponto de vista de Cleo, a empregada/babá de uma família de classe média da Cidade do México. Ela foi magistralmente interpretada por Yalitza Aparicio, uma mulher de Oaxaca sem experiência prévia diante de uma câmera e que foi descoberta pelo diretor de elenco em uma pequena aldeia no México.

A sensibilidade com que Cleo lida com as crianças nos faz entender o carinho de Cuarón com Libo, a indígena que inspirou a personagem e que criou ele e seus três irmãos. No filme, Cleo canta, se desdobra nas tarefas da casa, busca as crianças no colégio e as consola nos momentos em que a mãe não se faz presente, sempre com um ar sereno, de quem talvez não tenha a noção de sua condição de empregada e que substituiu sua família de origem pela de classe média onde trabalha e reside em um minúsculo quarto na parte externa da casa.

Cleo divide seu pequeno quarto com Adela (Nancy García García), outra trabalhadora da família. As crianças de que cuida são turbulentas e cheias de perguntas, e a casa se enche de vida desde o amanhecer, quando ela acorda as crianças, até o anoitecer, quando apaga as últimas luzes. Fora dos olhares dos patrões, ela se divide retorna a suas raízes,  em uma vila pobre a quilômetros de distância da casa onde trabalha.

Estas diferenças culturais e sociais ficam evidentes até nos diálogos do filme. Com os patrões, Cleo e Adela falam espanhol; entre si falam Mixteca, o dialeto indígena de sua aldeia natal. Mas o foco do filme não é necessariamente o contraste de classes, embora tenha suscitado discussões sobre o sentido de uma obra que homenageia uma trabalhadora subserviente. É antes o modo como o doméstico e o social colidem, a forma como a vida dos indivíduos se desenrolam de maneira cotidiana em um cenário de acontecimentos muito maiores.

Foto: divulgação

Roma é o bairro em que Cuarón cresceu e onde se passa a narrativa, um bairro de classe média alta onde ainda era possível levar a vida sem se preocupar com as reviravoltas que aconteciam na cidade àquele período. Ao invés de usar estúdios de filmagens, o diretor decidiu gravar o filme em uma casa local, que foi minuciosamente moldada para lembrar a casa número 21 da Rua Tapeji no bairro Roma onde cresceu.

Casa esta que é quase um personagem silencioso do filme. Através dos movimentos lentos da câmera e das cenas com ângulo aberto, conhecemos seus cantos e o dia-a-dia da família, sempre pelos olhos calmos de Cleo, que parece ditar o andamento do filme. Seguimos seus passos da limpeza do pátio, da sala, dos quartos até ao apagar das luzes a noite.

Para contar a história, Cuarón não utilizou um roteiro tradicional. Os atores só tomavam conhecimento das cenas no mesmo dia das filmagens, o que torna tudo mais íntimo e aproxima o espectador do que se passa na tela. E aqui vale destacar o excelente desempenho da novata Yalitza Aparicio. Sua personagem pode ser calma e quieta, mas Aparicio transmite cada emoção com pouquíssimas palavras: sentimos sua alegria, seu carinho, sua dor, seu ressentimento e aos poucos, de coração mais mole, compartilhamos até algumas lágrimas com Cleo, esta menina de cujo passado conhecemos pouco, mas que acompanhamos um fragmento de sua jornada durante o filme.

Foto: divulgação

Na tela, tudo vira arte através das lentes de Cuarón: o pátio sendo lavado pela manhã, as gaiolas dos passarinhos, e até um carro estacionando e esmagando um cocô viram poesia. Com seu olhar cuidadoso, de quem viveu a história que está sendo contada, já que a mesma é inspirada em sua família e suas lembranças de infância, percorremos os corredores da sala, os quartos, acompanhamos as brigas e conhecemos um pouco da história do diretor, de sua família, de Libo e de seu país.

Um dos elementos que mais chamam a atenção no filme é a cuidadosa recriação da época, não somente através dos cenários, das roupas e das referências musicais e televisivas, mas pela forma com que apresenta os contextos sociais do México naquele momento. Assuntos políticos são lançados delicadamente nas conversas diárias da família e uma das cenas mais dramáticas mostra a matança de estudantes conhecida como o massacre de Corpus Christi ou “Halconazo”, que ocorreu em 10 de junho de 1971 e que ainda é hoje um dos eventos mais tristes da história do país.

Em Roma, a história de Cleo se intercala com a história da Cidade do México. Enquanto ela cuida dos patrões, as imagens em preto e branco do filme retratam um país em meio à modernização. As ruas são barulhentas e cheias de carros buzinando e vendedores gritando. Aviões comerciais sobrevoam a cidade, adolescentes discutem sobre filmes e cartazes comemoram a Copa do Mundo da FIFA de 1970, realizada no México apenas alguns meses antes.

Foto: divulgação

Nesta transição de momentos íntimos do dia a dia da família a momentos épicos da história do país, com belas imagens em preto e branco que o próprio Cuarón fotografou (como se até mesmo sua antiga relação com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki não lhe permitisse chegar tão perto quanto ele precisava de sua visão), somos presenteados com um mundo que parece que não foi criado, mas redescoberto após décadas de esquecimento.

Essa é a verdadeira maravilha de Roma, que me parece ser quase um ato de gratidão e respeito tão intenso que às vezes parece um pedido de desculpas. Cuarón dirigiu, roteirizou e fotografou esta história que nos leva a acreditar, seja seu meio de dar visibilidade àquelas pessoas invisibilizadas, ecoar as vozes dos excluídos daquela época e apresentar toda a complexidade do México com seus contrastes, injustiças, classes e política.

Ao fim do filme, com o simples “For Libo”, chega o momento do maior reconhecimento da mulher e dos acontecimentos que ajudaram a moldar a personalidade de Cuarón, o homem nostálgico de Roma, mas também o cineasta visceral que nos atirou ao espaço com Gravidade, bem como o diretor que nos mergulhou na distopia realista de Filhos da Esperança.

Para nosso deleite, e quase um pouquinho, nossa intrusão, nos foi permitido entrar nesta casa e conhecer a sua infância, através do seu olhar, e das suas memórias que alicerçam esta película silenciosa e inesquecível.