por Caroline Domingos

Mucha gente pequeña, en lugares pequeños, haciendo cosas pequeñas, puede cambiar el mundo”, já dizia Galeano. Ele não sabia, mas uma de suas célebres citações um dia serviria para definir a Acción Poética, a arte e a poesia que, juntas, dominaram os muros da América Latina (e do mundo).

Em 1996, quando o México era governado por Ernesto Zedillo e Monterrey era apontada como uma das cidades mais ricas do país a padecer sob o tráfico, nascia uma atitude no coração de um poeta e nos muros da cidade. Armando Alanis Pulido tomou as tintas e os pincéis em suas mãos e foi para a rua já que seus versos já não podiam mais ser sufocados, pediu licença e pôs-se a pintá-los nos muros. Do México para a América Latina, surgia a Acción Poética.

Se as ruas andavam cinzentas e as pessoas amedrontadas com a onda crescente de violência gerada pelo tráfico, Armando deu outro ritmo às rotas urbanas com suas poesias que tomavam os muros e se tornaram uma parte sensível da paisagem urbana. Seus versos de amor também ganharam toques de crítica social e senso de humor. Quando a mente de um poeta fica pequena para seus versos, é a hora de transpô-los para outros lugares. Alguns preferem os cadernos, Armando preferiu os muros da cidade de Monterrey. Pouco a pouco, suas frases ganharam espaço em outros lugares do mundo, atravessaram oceanos e foram parar na internet também.

Foto: arquivo pessoal

Contudo, muito antes das ruas ganharem os poemas de Armando, outros muros foram pintados por outros artistas. Bebendo na fonte de uma arte puramente mexicana, o muralismo nasceu em meados do século XX com forte caráter social, abordava temas históricos e se aproveitava da exposição pública para realizar uma manifestação crítica sobre a sociedade a partir dos traços de seus artistas. O período histórico não podia ser mais propício para a explosão do movimento artístico: era chegada a Revolução Mexicana que apesar de não ter seu elemento popular plenamente atendido, já não o omitia e reconhecia que as artes e a literatura foram fundamentais para que os acontecimentos dessa revolta armada tomassem as proporções que a história nos conta.

As injustiças sociais ganharam vozes a partir de 1910, quando teve início a revolta, e em 1920, murais. Sim, Murais! Vasconcelos Calderon assumia a pasta da secretaria de educação no México naquele mesmo ano e a construção de murais pela cidade foi a forma política encontrada para tentar fortalecer o nacionalismo e retratar a história do país. Entre os muralistas de maior destaque do período estão Diego Rivera (1886-1957), David Alfaro Siqueiros (1896-1974) e José Clemente Orozco (1883-1949), que ficaram conhecidos como “os três grandes”.

Hoje, alguns murais de Diego seguem em exposição pelo mundo, mas há pouco mais de 20 anos os muros do mundo ganham poesia pelas mãos de Armando e daqueles que, admirados pela sua iniciativa, repassam sua arte além das fronteiras. Se o muralismo Mexicano respingou no Brasil de Cândido Portinari à sua maneira, a Acción Poética se tornou um fenômeno global sem perder a essência: com temas amorosos que surpreendem até mesmo os pedestres mais distraídos, as letras negras sobre fundo branco viajaram o mundo sem que ninguém lhes cobrasse passagem, afinal, foram as redes sociais que garantiram a expansão mundial em mais de 30 países e cerca de 180 cidades mexicanas.

Ainda que tenha iniciado sem mensagens políticas ou religiosas -, foi assim que a estética do movimento permaneceu por muito tempo por grupos que se organizavam para compartilhar dos mesmos princípios do poeta criador de alguns versos – hoje o movimento se capilarizou e ampliou suas possibilidades . Tudo começou pelas mãos de Armando Alanis Pulido e alguns amigos poetas, um grupo disposto a espalhar a poesia pela cidade para promover a leitura e a sensibilidade. Mas quis a história – e a arte – que a ação não parasse por aí.

Acción Poética em uma cidade colombiana.Foto: reprodução

“Las bardas nos eligen a nosotros”

Foi com a frase acima que a conversa com o poeta mexicano começou. Armando havia lançado seu livro Balacera há algum tempo e estava envolvido com as vendas da obra e a continuidade da Acción Poética. Conversamos sobre o projeto e, claro, sobre o papel da poesia no mundo. Era como se as respostas lhe viessem como os versos. Ao ser questionado sobre como o projeto começou e sobre as permissões para a pintura dos muros, Armando disparou:

-Las bardas nos eligen a nosotros. Las bardas eligen su poema. Si te refieres a permisos, pedimos permiso y pedimos perdón.

 

 

A frase acima precisou ser transcrita tal qual foi dita, respeitando o idioma nativo do criador do projeto. Seria um desperdício poético não fazê-lo dessa forma, já que a língua passou a ser compreendida além das fronteiras geográficas graças àqueles que não resistiram ao mirar as frases escritas nos muros e as registraram em fotografias para, em seguida, passarem a fazer parte da era do compartilhamento. “Sem poesia não há cidade”, afirma Armando Pulido ao mencionar o que ele considera o lema da Acción Poética. Ele, que se diz “felizmente assustado com os rumos que o projeto tomou em tantos países”, assente: “é o caminho justo e correto da poesia. A poesia está na rua!” Para quem gosta de poesia, nem a maior pasta do pinterest ou as inúmeras fotografias do instagram saciam a sede pelos versos em um idioma que é tão próximo do pessoal do sul do Brasil. Foi assim que a conversa, que antes era sobre intervenção urbana, caminhou invariavelmente para o processo criativo e tantos outros temas. “É uma tentativa de fazer uma rotina e ser pego de surpresa. Sempre haverá um caderno por perto para fazer a anotação. Mas quando se trata de moldar o texto final, você lê muito e consulta muito. O poema não avisa, chega e você tem que estar preparado”, afirma Armando.

Os livros são vendidos por ele mesmo. Você pode até encontrá-los à venda pela internet, mas se procurar por Armando Pulido no Facebook talvez tenha a sorte de encontrar alguns posts dele comentando sobre a contagem das vendas. Ele diz que teve sorte quando, em 2016, a Editora Planeta apostou seu selo e lanço o livro Balacera. “É um livro de poemas que fala sobre a violência da droga em meu país e o assunto é difícil, mas é realidade. 

Que um livro de poemas apareceu com esse tema foi surpreendente, embora já existam muitos autores publicando sobre violência em todos os gêneros: Novela, história, teatro, cinema e romance, uma vez que, no México, o romance policial tem muito mercado. Uma editora como a Planeta ajudou muito. De fato, uma reedição foi feita um mês depois” conta o poeta. Segundo ele, Balacera foi um de seus livros de maior sucesso naquele ano no gênero poesia, mas confessa que não gostaria de tê-lo escrito: “foi muito difícil, você sabe que é e difícil. É contrário do que faço regularmente, meu tema é obviamente a cidade e o amor, essas duas áreas geográficas são o núcleo do meu trabalho poético”.

– Por que eu escrevi isso? Porque isso acontece. Não ter escrito significava um tópico que não estaria perto de mim. Foram anos muito difíceis para minha cidade, muito violentos. Sequestrado praticamente pelos cartéis do narcotráfico e pela luta do governo que deixou 200 mil mortos no governo anterior. 200 mil mortes! E centenas de milhares de desaparecidos, não uma ditadura, mataram tanto! Nem a era de 60 anos matou tanto!

Do amor espalhado pelos muros e tantos livros que apostaram nos temas românticos, cheios de humor e do tradicional jogo de palavras empregado pelo poeta, Balacera chegou como uma ruptura na vida literária de Armando.

“Eu definitivamente acredito no impacto social da arte e especialmente no da poesia, porque comunicando, sublimando e suavizando a mensagem, vamos entender melhor que temos que ser mais vibrantes como sociedade”, afirma Armando.

Foto: arquivo pessoal

Dos muros para as páginas, Armando encerrou a nossa conversa compartilhando seus pensamentos sobre como o livro surgiu, naturalmente, tal qual uma necessidade perante uma sucessão dos fatos que ele classificou como “uma crônica poética” lembrando assim da força motriz de seu trabalho e da nossa conversa: a poesia. Se os muros dobram as esquinas das ruas por onde Armando passa – e pinta – é natural que as conversas com o poeta também se desdobrem: das ruas para o mercado editorial, a poesia pelo mundo, o processo criativo e, claro, jornalismo.

Adentramos neste terreno tortuoso ao lembrarmos dos dados levantados sobre a violência e sobre como o tema é tratado, o medo das represálias e a coragem necessária para transformar um tema tão sensível em poesia e denúncia. Em tempos que exigem coragem, como ele mesmo disse ao lembrar da realidade de seu país, Armando lançou a última poesia da entrevista:

“O jornalismo é uma ocupação perigosa neste país e também o exerço de forma responsável em relação a informação e a quem é dirigida. Eu me assumo mais como um comunicador nesse sentido, professor, jornalista, poeta, ativista… São ofícios necessários agora mesmo nesse mundo. Precisamos dignificá-los e ser valentes.”