Foto: divulgação 

Patrimônio cultural do Brasil, o samba sempre marcou presença no extremo sul do país. Ainda que grande parte dos gaúchos conheçam as composições de Lupicínio Rodrigues, o gênero no estado tem representantes veteranos e contemporâneos, que estão representados em um novo projeto musical independente. Brasil Quilombo traz um conjunto de 12 sambas de músicas gaúchos na voz da intérprete Glau Barros. A cantora lança o álbum nesta terça-feira (18), em um espaço à altura da magnitude do ritmo: o Theatro São Pedro.

O álbum é a materialização de um sonho antigo de Glau, que começou a pensar no projeto em 2010. Nos últimos anos, ela foi se aproximando ainda mais do gênero e conhecendo inúmeras composições feitas no Rio Grande do Sul. “Esse trabalho é um sonho meu, mas não deixa de ser também uma forma de divulgar esses nomes que a gente não vê, não ouve no rádio, então eu estou super feliz pelo retorno dos compositores. A vontade é fazer um CD duplo ou triplo, tem muita gente para ser gravada e pra gente conhecer”, diz.

Estão no repertório nomes como Zilah Machado, por quem Glau tem um carinho especial. “Eu tive prazer de dividir o palco e também de integrar um espetáculo em homenagem a ela. Zilah compôs vários sambas. Ela tinha um tamborzinho no qual ia criando as músicas”, conta, detalhando que a autora de sambas como “Calmaria” e “Vem Devagar” (presente no álbum) foi afilhada de Lupicínio Rodrigues no início da carreira. Assim como Lupi, a compositora foi um dos grandes talentos do berço do samba em Porto Alegre: a região da Ilhota e do Areal da Baronesa.

Entram na lista também Pâmela Amaro (“A caixa e o tamborim”), Mestre Paraquedas (“Fuxico”), Antônio Villeroy (“O peixe quer água”) e Delma Gonçalves (“Desamor”), compositora que foi parceria de Bedeu, músico que foi um dos precursores do samba-rock, alcançando reconhecimento quando saiu do estado, foi para São Paulo e teve músicas gravadas por Jair Rodrigues e Neguinho da Beija-Flor.

Ainda que os sambas mais conhecidos no estado sejam os das tradicionais escolas de samba e tribos carnavalescas, Glau quis trazer para este projeto justamente a diversidade de sub-gêneros que compõem o samba gaúcho. São raridades não disponíveis nos canais de streaming, que Glau resgata e oportuniza que os gaúchos conheçam. Algumas músicas já foram enviadas para as rádios, e o álbum deve estar nas plataformas de streaming em breve.

Glau em show com a também sambista Loma Pereira (Foto Cintia Rodrigues)

Entram na lista de subgêneros o samba canção, o partido alto e o samba exaltação, representado pela música que dá nome ao álbum, uma composição de Zé Caradípia, em parceria com Luís Mauro Vianna. A autoria de Lupi também estará presente com uma versão de “Pergunte a meus tamancos”. O show de lançamento terá convidados especiais, como Nelson Coelho de Castro, Jorginho do Trompete e Edu do Nascimento, que levará o sopapo, tambor construído pelos escravizados nas charqueadas em Pelotas e resgatado pelo compositor e percussionista Giba Giba.

Integrante de uma família que curte samba e é do Carnaval, Glau começou a carreira de cantora nos anos 1990, representando diversos ritmos, do jazz ao rock.  Nos anos 2000, trabalhou também com as artes cênicas. Foi um espetáculo que fez com o grupo Caixa Preta que a levou a se dedicar com mais prioridade ao samba. “O espetáculo teve uma repercussão muito boa, a gente levava o samba para o teatro, havia todo um cuidado com o repertório, compositores daqui”, relembra.

A cantora se aproximou vem sendo porta-voz do samba no estado (Foto: Sesc Alegrete)

O projeto foi concretizado graças ao financiamento coletivo, já que por editais públicos o álbum não foi contemplado. “Nós estamos aí com o Fumproarte parado, alguns artistas nem receberam ainda o dinheiro do edital, então o momento é terrível para a gente que vive da arte. Editais que funcionavam até dois anos atrás pararam”, lamenta a cantora. Para Glau, falta ao poder público a visão estratégica com relação ao mercado artístico. “A capacidade produtiva da cultura é muito grande e o poder público esquece isso, esquece o trabalhador da arte, um trabalho que gera renda”, diz.

Enquanto as dificuldades na arte permanecem, Glau defende que os artistas, em especial as mulheres, se unam para crescerem juntas. Citando grupos como o Negras em Canto, ela conta que coletivos de mulheres já estão se reunindo e proporcionando esta troca.  “O que falta é o espaço para que essas pessoas mostre seu trabalho. Se não nos chamam pra fazer, nós mesmas fazemos o movimento entre as mulheres”, ressalta.

Show de lançamento: Theatro São Pedro – Praça Marechal Deodoro, s/n°, Centro Histórico | Porto Alegre-RS

Data: Dia 18 de junho de 2019, terça-feira, às 21h | Duração: 90 minutos