Fabiana Reinholz/ Brasil de Fato (com alterações)
Tyane Leal/Nonada
Foto Ravena Rosa/Agencia Brasil

Mesmo pertencendo  à maior parcela da população, uma vez que vivemos em um país no qual temos uma maioria de negros e mulheres, as mulheres negras permanecem sendo as mais prejudicadas socialmente, realidade que pode ser constatada nos dados que tratam do mercado de trabalho, no mapa da violência ou na representatividade política. À frente e por trás disso, o racismo e preconceito, cada vez mais arraigados. 

Para a doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Winnie Bueno, o pacto narcísico da branquitude e as novas formas de silenciamento da violência racial são duas características contemporâneas que aprofundam os desafios do combate ao racismo no Brasil. “Estamos sendo governados por um presidente que nega a existência do racismo. Isso é grave, isso é bastante sério e isso faz com que o governo possa se omitir de enfrentar o racismo enquanto problema social”, ressalta.

A doutorando em sociologia Winnie Bueno. Foto arquivo pessoal

Ela destaca que as mulheres negras vivem uma tensão dialética entre ativismo e opressão, o que faz com que os momentos de maior violência sejam também momentos de ampliação de formulações políticas, educacionais e estratégicas. “É um momento onde direitos dos grupos oprimidos estão sendo mais diretamente atacados, e isso impacta na vida de mulheres negras, mas é também nesses momentos que as formulações e estratégias políticas desenvolvidas por essa coletividade adquirem complexidade”.

Para a graduanda de Psicologia Débora Otunolá, representante da Marcha do Orgulho Crespo, que surgiu em 2015 em São Paulo, “o Rio Grande do Sul é um dos estados mais preconceituosos do país. Ser negro aqui é a constante esteriotipação e comparação com subalterno. Nós negros não somos vistos como bonitos ou belos”, afirma a estudante. Débora destacou que a frase que todos são iguais não existe, que a luta é por respeito e não igualdade. “Somos vistas apenas em datas assim, depois esquecem e lembram no dia 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra).”

“O Rio Grande do Sul é um dos estados mais preconceituosos do país. Ser negro aqui é a constante esteriotipação e comparação com subalterno. Nós negros não somos vistos como bonitos ou belos”, afirma a estudante. Débora destaca que a frase que todos são iguais não existe, que a luta é por respeito e não igualdade. “Somos vistas apenas em datas assim, depois esquecem e lembram no dia 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra).”

No que diz respeito ao Sul do país, para além de todos os desafios relacionados ao racismo e ao sexismo, temos a questão da invisibilidade, frisa Winnie. “A narrativa que não existem pessoas negras no Sul faz com que a nossa atuação seja mais dificultada. 

Pioneirismo no Terceiro Setor

Janice Ramos. Foto Fabiana Reinholz

A primeira organização de mulheres negras do Brasil nasceu aqui, a ONG Maria Mulher, da educadora Maria da Conceição Fontoura. Entretanto, não é nacionalmente reconhecida e celebrada como é Sueli Carneiro, por exemplo. Essas mulheres são contemporâneas, ativistas fundamentais para a luta de mulheres negras, mas a dinâmica de marginalização das mulheres negras no sul oculta trajetórias”, avalia Winnie.

A ONG Maria Mulher foi construída 1987, momento da redemocratização do país. Na época, de acordo com Sandra Maciel, uma das coordenadoras da ONG, o movimento negro tinha as suas pautas, mas as mulheres negras estavam construindo as suas próprias formas de enfrentamento ao racismo e ao machismo. Ao se analisar a situação das mulheres negras no estado, afirma. “Estamos por nossa própria conta, fazendo os caminhos, criando oportunidades, porque ainda somos as últimas da pirâmide em uma sociedade racista e sexista”.

Em relação aos avanços, Sandra destaca a conquista em postos de trabalho, onde eram vistos somente pessoas não negras. “Colorimos as universidades do Brasil afora”. Em contrapartida os retrocessos, aponta, são os a sociedade está vivendo na questão da reforma da aposentadoria, nas mudanças das leis trabalhistas, nos ataques na educação. Ao abordar a questão dos números de violência às mulheres negras, Sandra, frisa que a precariedade das condições sociais, econômicas, psíquicas faz da mulher negra uma vítima potencial de quase todos os tipos de violência e nisso está incluso os homicídios e feminicídios.

Mercado da comunicação

Para a jornalista Jeanice Dias Ramos, as dificuldades não terminaram para as mulheres negras jornalistas, mas apesar de todos os percalços, ela acredita que a nova geração traz uma nova esperança e perspectiva. “Nós, jornalistas negras, com eu, a Vera Daisy, a Vera Cardozo, a Nelcira Nascimento, passamos por uma etapa muito difícil. Éramos muito solitárias nas redações, uma no meio de uma multidão. Isso está alterando, é um grãozinho de areia, mas está alterando. As novas jornalistas negras estão abrindo mais espaço, e não é um processo tão doloroso como foi o nosso. Os tempos são outros, as mentalidades não estão tão enraizadas”, acredita.

A também jornalista e repórter Fernanda Carvalho enfatiza que ainda se está muito aquém do ideal. “Temos que seguir caminhando e abrindo espaços”, afirma. Tratando da presença das mulheres na mídia e no jornalismo, Fernanda pontua que duas questões precisam ser vistas: a visibilidade e a representatividade. “Visibilidade é bacana, é bom vermos mais profissionais negras diante da tela, por exemplo, mas ainda precisamos estar nos outros espaços: redatores, editores, pauteiros.. Aí entra a representatividade. Temos que ter voz ativa nos espaços decisórios”, analisa.

De acordo com ela, na prática, infelizmente, depende-se de uma profissional negra em muitas redações para que as pautas ganhem espaço. “De uma maneira geral, quem pensa o jornalismo não é ainda sensível neste sentido. E quando é, parece que ainda não o suficiente. Ainda temos muito a avançar, mas também é importante vermos que já caminhamos neste sentido”, observa.

Fernanda Carvalho sintetiza os desafios das mulheres negras em fazer com que suas pautas sejam vistas de maneira tão universal como outras pautas são. “Por exemplo, não vemos o genocídio da juventude negra ser tratado pela mídia – generalizando – como um problema do país. Parece que é um problema só nosso. Se é a mãe negra que chora, a gente que se resolva”, exemplifica.

Literatura e representatividade 

No mercado editorial, a jornalista e editora literária Fernanda Bastos, da editora Figuras de Linguagem, diz que o segmento é muito similar aos outros espaços. “O racismo é estrutural, e o mercado editorial reflete essas opressões de gênero, raça e classe. Avanços têm sido conquistados, especialmente a partir do século 21, por conta da organização das mulheres negras, mas os ganhos coletivos surgem lentamente”, observa.

Pode-se ter uma ideia das dificuldades enfrentadas, conforme Fernanda, ao pensar no fenômeno literário do século 20 que foi Carolina Maria de Jesus, em como foi difícil para ela se inserir e como, até hoje, tentam deslegitimar seus feitos e sua obra. “Mesmo sendo esse arrasa-quarteirão em vendas e trazendo a perspectiva dela, o lugar de fala, ainda assim houve estranhamento e rejeição do mercado”, pontua.

Na avaliação da editora, escritoras africanas que são sucesso de venda, como Chimamanda Ngozi Adichie, têm demonstrado que a experiência negra no mundo tem qualidade literária é vendável e contribui para uma nova perspectiva quando o assunto é literatura feita por mulheres negras. “Essas autoras mundialmente conhecidas alargam as possibilidades de consumo para outras mulheres negras, pois há um público que há muitos anos vinha sendo desprezado e que hoje começam a ser atendidos. Os êxitos de vendas e de projeto literário de Conceição Evaristo, Geni Guimarães e Ana Maria Gonçalves são exemplares do poder das narrativas de mulheres negras no Brasil”, afirma.

Enfrentando o racismo no Judiciário

A juíza Karen Pinheiro. Foto arquivo pessoal

por Tyane Leal

A primeira juíza doutora negra de Rio Grande do Sul, Karen Pinheiro, foi uma das palestrantes de evento em homenagem ao Dia 25 de Julho, que é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha. Na Câmara dos Municipal de Porto Alegre,a juíza falou sobre racismo institucional e sua carreira.

Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC – RS), Karen especializou-se em Direito Civil e Processual pela Universidade de Passo Fundo. Durante sua trajetória, cerca de vinte anos na magistratura, a juíza conta que nunca evidenciou sua negritude no trabalho – alisou o cabelo, que até então era usado crespo, para se adequar ao ambiente branco.

“Durante muito tempo eu não me entendia. Hoje, experiente, consigo fazer uma leitura crítica do meu comportamento. Tinha uma imagem distorcida daquela que a instituição esperava de mim. Então, usava um cabelo com corte chanel, alisado e com roupas estilo terninho”, relata.

Segundo dados trazidos por ela no bate-papo, o Poder Judiciário é predominado pelo gênero masculino e branco, apenas 1,4 dos juízes são negros. A partir de 2015, a lei mudou e passou a reservar 20% das vagas de concurso público para pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas.  Mesmo com a mudança, a desigualdade é escrachada, as vagas raciais ainda não são ocupadas corretamente, diz ela.

Nas fotos apresentadas pela juíza, o racismo é visto escancaradamente: turmas de advogados e juízes do Brasil inteiro com pouquíssimas pessoas negras, no máximo uma ou duas.

“Se você perguntar para uma pessoa quem são os juízes negros do país, elas fecham os olhos e não pensam numa mulher negra nunca. Jamais! Isso acontece também com médicos. Imagina um médico negro salvando tua vida. O ser humano negro não é visto como capaz de estar em determinados lugares.”

A magistrada estudou em colégio e faculdade particulares e sempre foi única negra nas turmas. Foi aprovada no concurso público aos 18 anos e pouco tempo depois assumiu o cargo de juíza numa comarca do interior do Rio Grande do Sul. Entre todos os 90 candidatos, era a única negra. Viu o preconceito inúmeras vezes no âmbito profissional. Karen ressaltou que sua história é exceção, mas que não quer que sua trajetória seja um exemplo para os demais. E que isso só confirma o racismo e exclusão no Brasil.