por Thaís Seganfredo
Fotos: Francisco Gick/divulgação

Se todo artista tem que ir aonde o povo está, os profissionais das artes cênicas de Porto Alegre sabem bem disso. Nesta quinta-feira, 18, artistas de mais de 10 grupos se mobilizaram para um vigília coordenada pela MOVE – Rede de Artistas de Teatro de Porto Alegre, em defesa dos espaços municipais e estaduais de cultura presentes na capital gaúcha. A mobilização teve início às 16h e foi até as 20h, na frente do Teatro de Câmara Túlio Piva, na rua da República, escolhido como símbolo dos muitos espaços existentes na cidade.

O grupo denunciou a precarização e o descaso com equipamentos como o Teatro de Arena, a Cia de Arte, a sala Álvaro Moreira, o auditório Dante Barone, a Usina do gasômetro e o próprio Túlio Piva, abandonado há 5 anos. “É uma vergonha ter um espaço cultural incrível fechado desde 2014. Eu comecei a fazer teatro aqui há 35 anos. Vários artistas começaram sua história nesse teatro maravilhoso, que despencou num espetáculo no Porto Alegre em Cena e, desde então, a prefeitura deixou a ver navios, assim como outros espaços”, afirma Deborah Finocchiaro, integrante do coletivo, relatando que a sala Álvaro Moreira, por exemplo, apresenta problemas de estrutura básicos, como pia e vaso sanitários quebrados.  “É um desrespeito absoluto em primeiro lugar com a comunidade, em segundo lugar com os artistas, e em terceiro, um descaso com a vida, com a cultura”, diz.

Cortejo fúnebre dos artistas em Porto Alegre. Foto – Francisco Gick

A vigília teve início como uma espécie de cortejo fúnebre pelo bairro, durante o qual os artistas dialogaram com as pessoas ao redor sobre a importância dos investimentos em cultura, distribuindo panfletos com um manifesto “em defesa da vida dos espaços culturais”. A maioria dos moradores do bairro se mostrou receptivo aos artistas, ainda que algumas pessoas tenham entoado palavras de apoio a Bolsonaro, de modo a fazer oposição ao protesto.

Em seguida, o cortejo se juntou a mais artistas e espectadores que esperavam em frente ao teatro.  A vigília seguiu com performances durante toda a tarde, nas quais os artistas denunciavam a situação dos espaços. “Uma cidade que despreza sua cultura é uma cidade que se humilha, que se arruína. Teatro é cidadania, teatro é educação, teatro é saúde”, defenderam, sustentando também que a cultura também movimenta a economia.

Com adesão de mais de 400 profissionais, a MOVE – Rede de artistas de teatro de Porto Alegre foi lançada em abril, com o objetivo de realizar ações que aproximem o espectador do teatro e também em defesa da cultura. “Nós vemos a necessidade de nos juntarmos para poder criar mobilizações e tocar de alguma forma a comunidade, para que isso fique exposto para todo mundo. O teatro tem uma característica que ele contamina as pessoas, quem vai uma vez e gosta continua indo toda a vida. Então a MOVE é uma ideia de expandir o teatro em todas as suas possibilidades. Através do teatro, a gente consegue criar novas perspectivas, mostrar outros mundo possíveis”, diz Deborah.

Artistas questionam terceirização

Vigília seguiu com performances em defesa da cultura Cortejo fúnebre dos artistas em Porto Alegre. Foto – Francisco Gick

Outro tema criticado pelos artistas é a terceirização dos espaços, que deve ser aprofundada nos próximos meses e sem a participação da comunidade cultural, como noticiou o Nonada nesta matéria. O coletivo questiona a terceirização do Araújo Vianna, que por anos teve quase que majoritariamente a programação ocupada por uma só empresa, a Opus Produções. Com o fim do contrato, foi lançado novo edital, que prevê que a empresa vencedora ficará responsável também pelo Túlio Piva.

Nesse modelo de gestão, a empresa detém a quase totalidade de direito de uso, impedindo a realização de editais públicos de ocupação, por exemplo. “Quem vai cuidar do Teatro de Câmara? A prefeitura terceirizou o Araújo Vianna e ninguém mais utiliza. O que vai acontecer com esse edital é que a gente fica sem a propriedade desses lugares. Não adianta só trazer os globais, a arte é um investimento em cidadania”, critica Liane Venturella.

O descaso, como afirmam os artistas, é geral, principalmente no que tem acontecido com a gestão do governo Bolsonaro na cultura. “A gente está vivendo uma cegueira, uma anestesia geral, em nome da ignorância. Querem que a gente fique cada vez mais ignorante, que tenha menos arte e menos educação. Bolsonaro atinge a cultura, porque é o setor que pode mudar uma sociedade”, avalia Deborah.

Confira a íntegra do manifesto:

“LUTO PELO TEATRO!!

Em DEFESA DA VIDA dos Espaços Culturais!

Porto Alegre, cidade que se orgulha de sua variada produção cultural, tem testemunhado o fechamento de teatros tradicionais e o sucateamento de espaços culturais. O Teatro de Câmara Túlio Piva, o Centro Cenotécnico e a Usina do Gasômetro encontram-se fechados e sem previsão de abertura; a construção da Terreira da Tribo e do Teatro Elis Regina permanecem só na promessa. O Auditório Araújo Vianna foi entregue à iniciativa privada e se tornou um espaço inacessível aos artistas locais.

Arte e cultura são fundamentais para toda a sociedade. Criam diálogos, confrontam ideias, produzem experiências de encontro com o outro. Ajudam a diminuir o índice de violência e colaboram na promoção da SAÚDE e o BEM-ESTAR SOCIAL. A cultura também faz parte da ECONOMIA das cidades, com geração de empregos e receita, incluindo diversos setores como técnicos, restaurantes, serviços de segurança, limpeza, turismo, entre outros.

MOVE – Rede de Artistas de Teatro de Porto Alegre”

Foto – Francisco Gick
Foto – Francisco Gick
Foto – Francisco Gick