Nelson Colás, Diretor de Relações Institucionais da Federação de Amigos de Museus do Brasil
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Nada melhor do que mostrar e explicar como as coisas funcionam para que as pessoas passem a considerá-las relevantes. É com esta perspectiva pedagógica que o Instituto Brasileiros de Museus (Ibram) realiza a 13ª edição da Primavera dos Museus, um projeto nacional realizado entre os dias 23 e 29 de setembro, que oferece exposições, oficinas e palestras com a proposta de trazer mais visitantes aos museus brasileiros.

Com o tema “Museus por dentro, por dentro dos museus”, a campanha quer mostrar para a sociedade como se dá o cotidiano museológico e a gestão destes equipamentos — no Brasil, há 3.800 museus em atividade, muito dos quais pouco conhecidos.

Quebrar as barreiras entre as instituições e a sociedade deve ser a pedra de toque não apenas da Primavera dos Museus, mas de todas as ações voltadas ao setor. Por isso, a ideia é abrir as portas para que todos conheçam os museus não apenas nas suas galerias, mas nos processos necessários para que eles se mantenham.

As circunstâncias para tanto têm sido favoráveis. Conforme os últimos levantamentos de visitantes, o Brasil tem se demonstrado um país que, a cada dia, tem mudado sua visão em relação ao significado de ir aos museus. De 2017 para 2018, 38 milhões de pessoas visitaram museus, um aumento de 19% em relação a 2017, segundo os dados do Ibram.

Se os ambientes dos museus estão recebendo mais visitantes, isso se deve a algumas mudanças na relação da gestão desses estabelecimentos. Nos últimos anos, curadores têm implementado novas técnicas para trazer o público, com apostas em metodologias atuais de comunicação e desenvolvimento de eventos que possam atrair adultos, jovens ou crianças.

O interesse do público também foi despertado por causa de exposições que destacam minorias e grupos antes pouco representados. A diversidade foi temas de inúmeras mostras, que levaram ao público exposições sobre mulheres, negros, indígenas, comunidade LGBTQI+ e artistas não-europeus. São obras que fazem com que pessoas antes “excluídas” da agenda se sintam, agora, representadas.

Outro resultado positivo é que esta evolução não está unicamente relacionada a investimentos e ações do poder público. Associações e voluntariado também têm cooperado para o incentivo à visita de mais pessoas à arte e história. Entre as novas estratégias, alguns museus estão promovendo exposições interativas por meio da tecnologia, para auxiliar na imersão das obras exibidas.

A Pinacoteca de São Paulo é um bom exemplo, com um aplicativo para que os visitantes acompanhem as obras e possam interagir e aprofundar-se na biografia dos autores. A tecnologia nesse caso é uma importante ferramenta, pois facilita o entendimento das obras exibidas e desmistifica o conceito de que arte é algo inatingível.

Junto a esse cenário atual, a presença de Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) tem cooperado na divulgação dos museus, por meio das mídias sociais. Essa metodologia tem ampliado, ainda mais, a interação das pessoas com o espaço. Tanto é que, além da entrada gratuita promovida em algumas exposições, o Ibram também aponta o aumento de 31% do público nos museus no primeiro semestre deste ano, ocasionado principalmente em locais onde a utilização das mídias sociais são mais enfáticas.

A mudança no modelo de comunicação para promover e apresentar a exposição da Tarsila de Amaral no MASP, encerrada em 28 de julho, foi igualmente bem sucedida — o museu liberou fotografar as peças expostas e, com isso, os milhares de visitantes utilizaram as redes sociais para mostrar suas idas, publicando “selfies” junto às obras da Tarsila. Um dos efeitos foi a presença de 402 mil pessoas, tornando a mostra como a mais vista no museu paulistano e superando o número de visitantes no Museu do Louvre (França) no mesmo período.

É notório que a exposição nas redes sociais ajuda a tornar os museus mais conhecidos e atrativos para pessoas pouco habituadas a esse tipo de passeio. Conforme dissertação de mestrado da pesquisadora Mariana Santana Marques, grande parte do público entrevistado foi a algum museu após ver uma selfie do local. As publicações nas redes fazem com que o engajamento das pessoas aumente. As fotos no Instagram com “hashtags”, por exemplo, promovem a divulgação do espaço sem o aporte financeiro da publicidade tradicional. Como dica, tanto o poder público quanto associações que dão suporte aos museus podem utilizar esse modelo de divulgação.

As inovações na forma de chegar ao público fazem com que os museus não fiquem no ontem, mas se fixem no presente para se projetarem no amanhã. Que essas inovações sejam constantes. O Brasil precisa de seus museus valorizados não somente quando tragédias como a do Museu Nacional acontecem. Os museus preservam a nossa memória e nos ensinam a não cometermos os mesmos erros tanto no presente, quanto no futuro.