Litoral fluminense, década de 40. A mata atlântica ainda preservada foi a paisagem que Karim Aïnouz escolheu para o prólogo de A Vida Invisível, que inicia com Guida e Eurídice, duas irmãs filhas de pais portugueses conservadores, contemplando a grandiosidade do oceano à sua frente. Não deixa de ser tristemente irônico, no entanto, que a imensidão do mar, que tantas vezes espelha valores como liberdade e aventura, seja no filme sinônimo de tragédia.

A Vida Invisível traz alguns anos das vidas de duas irmãs inseparáveis que, como apresenta o prólogo em uma angustiante metáfora, tomam caminhos diferentes: Eurídice tenta seguir a carreira de musicista enquanto se casa sem amor; Guida conhece um grego por quem se apaixona e decide se casar na Europa. Como uma tempestade, contudo, o destino arrebata suas vidas com um imprevisto, dando origem ao melodrama. Não se engane com a palavra, porém. O longa vencedor do A Certain Regard, de Cannes, é cinema da mais alta qualidade.

Assim como os melodramas de Douglas Sirk, uma de suas referências, Karim Aïnouz não economiza no discurso político, trazendo a todo momento reivindicações feministas – com temas como a desconstrução do romantismo da maternidade – e questionamentos sobre diversidade sexual e de heteronormatividade. Essas questões permeiam as vidas das personagens de tal forma que o filme nos conecta diretamente com o século passado, num misto entre revolta e resignação com os problemas sociais que insistem em não ser resolvidos na sociedade brasileira. As duas horas e meia de duração, longe de serem maçantes, acabam por contribuir para a imersão na história, junto à expectativa pelo destino das protagonistas.

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Ainda sobre o texto político, uma abordagem inédita de A Vida Invisível diz respeito às dificuldades que as mulheres do século passado enfrentavam se quisessem seguir carreira artística. A questão é pouco abordada na ficção brasileira, ainda que se tratasse de um problema social – e racial – que resulta até os dias atuais na desigualdade e invisibilidade de musicistas, escritoras e artistas visuais. Sempre julgadas por homens brancos, as mulheres de classe média precisavam passar pelo crivo dos professores e dos maridos para conseguirem entrar nos ambientes acadêmicos, praticamente o único caminho para a profissionalização.

Já as mulheres negras não tinham sequer essa possibilidade. Nesse sentido, embora o foco do filme sejam personagens brancas, o filme não falha em abordar um pouco da questão racial, em especial trazendo a condição da mulher negra das favelas cariocas, que começavam a se formar naquela época. Episódios racistas também aparecem no filme, em momentos nos quais o filme parece infelizmente se passar na contemporaneidade.

Baseado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, o roteiro de Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Aïnouz acerta tanto no peso dramático quanto no equilíbrio entre as vidas paralelas de Guida e Eurídice, o que confere dinamismo e profundidade a uma história que poderia se tornar uma típica novela brasileira em mãos menos talentosas. E, ainda que o drama predomine, o roteiro insere de forma sutil um pouco da leveza do livro em tiradas que remetem à crônica de costumes, fato que só acrescente mais camadas à complexidade da obra. O elenco, em especial as atrizes, corresponde bem ao que o roteiro exige. Todas as vivências, não apenas as trágicas e solitárias como também as felizes – são representadas com profundidade tanto pelas protagonistas (Carol Duarte, Julia Stocker e Fernanda Montenegro, arrebatadora) quanto pelas coadjuvantes.

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Também contribuem para isso a fotografia e a direção de arte do filme, que aposta nas cores verde e vermelho – combinação já utilizada para conferir tensão a uma trama, vide Vertigo – e amarelo, que aparece principalmente nos poucos momentos iluminados nos quais Guida e Eurídice se conectam, física ou emocionalmente. Essa escolha por fugir do naturalismo conhecido dos dramas brasileiros transmuta dureza em poética e dor em beleza – e gosto de pensar em A Vida Invisível como uma irmã de Elena, de Petra Costa, outro longa brasileiro recente igualmente sensível que espelha algumas temáticas desta obra de Karim.

Ainda assim, a reconstrução que o filme realiza do Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950 impressiona pelo realismo, o que faz com que em nenhum momento o filme se afaste do cunho político e das consequências que o machismo, o patriarcado e a desigualdade social acarretam. Não há alívio nos sentimentos transpostos na tela, não há escape para as dores vivenciadas pelas personagens.

Se une a tudo isso também o fato de todas as tragédias sofridas pelas personagens serem causadas pelos homens da trama, seja o marido, o pai ou o médico da família. A escolha, longe de ser panfletária, soou orgânica no desenvolvimento da história, ilustrando de forma didática, mas envolvente, os males que o machismo é capaz de provocar.  Afinal, o que nos mostra A Vida Invisível é que esse peso que nós mulheres carregamos – no peito, nas costas, no ventre – só existe porque nós fomos amarradas a âncoras.

Escreve preferencialmente sobre políticas culturais, culturas populares e arte engajada.
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