Laura Galli
Foto: Lunara

Na história de uma cidade, tempo e espaço parecem ainda mais próximos: é na cidade que podemos perceber os detalhes da vida cotidiana e ao mesmo tempo as repercussões de contextos mais amplos (do país e do mundo) no dia-a-dia das pessoas. Embora exista uma história de Porto Alegre considerada oficial, é em cada rua, beco ou avenida, pelos arroios e pelo Guaíba, onde passaram e passam inúmeros homens e mulheres comuns, que as múltiplas histórias da cidade são construídas. Essas lutas, sociabilidades e formas de vida das mais diversas frequentemente são apagadas de narrativas oficiais sobre a cidade. Buscando trazê-las à tona, diferentes projetos independentes vêm sendo organizados ao longo dos últimos anos, com a realização de caminhadas, pedaladas, formulações de mapas digitais interativos e museus a céu aberto.

Em 2019, algumas dessas iniciativas se uniram para formar a Rede Trajetos da Memória, que busca ser um espaço de articulação e reflexão dessas experiências com o objetivo de ampliá-las e difundi-las, dando maior visibilidade a outras histórias da cidade – de negros e negras, indígenas, mulheres, população LGBT, trabalhadoras e trabalhadores, moradoras e moradores da periferia. Na última quarta-feira, a Rede Trajetos da Memória lançou a Carta pelo Direito à História, à Memória e à Cidade, disponível abaixo na íntegra.

O lançamento ocorreu no Memorial Luiz Carlos Prestes, centro cultural importante para a memória da luta de Prestes e dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros e brasileiras. Após a leitura da Carta, representantes de alguns dos projetos apresentaram suas experiências, expostas a seguir. O historiador Vagner Eifler abriu as falas, contando que a partir de pesquisa sobre a ocupação do extremo sul de Porto Alegre, criou o projeto Histórias da Ponta Grossa, que inclui caminhadas pelo bairro e discussões em fóruns online a partir de fotografias antigas.

Bará do Mercado é um dos pontos de história negra da cidade (Foto Igor Sperotto)

Caroline Pacievitch, professora da FACED/UFRGS, falou em nome do Laboratório de Ensino de História e Educação, que apoia projetos de percurso de memória, e tem como carro-chefe do trabalho o apoio didático-pedagógico ao Territórios Negros. Além disso, Caroline conta que os percursos de memória pela cidade têm sido objeto de estágios de Educação Patrimonial do curso de Licenciatura em História da UFRGS.

Eduarda Ferrari Soletti apresentou o projeto Pedal pela Memória, vinculado ao Laboratório de Estudo Sobre os Usos Políticos do Passado, também da universidade federal, que já teve duas edições temáticas, a primeira relativa às memórias da população LGBT em Porto Alegre e a segunda sobre memória da democracia.

Motivada por inquietações sobre as marcas da ditadura civil-militar em Porto Alegre, a historiadora Anita Natividade Carneiro criou o projeto Caminhos da Ditadura em Porto Alegre, que surgiu como um mapa digital (disponível neste link). A intenção foi visibilizar locais ligados à ditadura civil-militar na cidade e atualmente conta também com página no instagram (@caminhosdaditadura_poa) em que são publicadas histórias da cidade nessa perspectiva.

O Dopinha, casarão antigo no bairro Bom Fim usado como centro de tortura durante a ditadura (Foto Bernardo Jardim)

Frederico Bartz apresentou o projeto Caminhos Operários, que surgiu como um percurso único pelos bairros Floresta e São Geraldo (o Nonada cobriu uma das edições e o texto está disponível neste link). Numa região que concentrava grandes fábricas e hoje é objeto de “revitalização”, pouco se sabe sobre as histórias das pessoas que lá trabalhavam e viviam. “As fábricas se moviam sozinhas? Onde estão os trabalhadores dessa região?”, indaga Frederico. Caminhos Operários se expandiu em 2019, sendo transformado em curso de extensão na Faculdade de Arquitetura da UFRGS e abrangendo outras regiões da cidade, sempre no intuito de localizar as trabalhadoras e trabalhadores de cada espaço.

Por fim, Teresinha Carvalho da Silva apresentou o Museu das Ilhas, um museu a céu aberto constituído por percursos e painéis distribuídos pelas ilhas da Pintada, das Flores e a Ilha Grande dos Marinheiros. O objetivo do Museu é resgatar as histórias dos moradores de uma região da cidade frequentemente esquecida pelo poder público e que possui um longo histórico de lutas e organizações sociais comunitárias em prol de melhorias das condições de vida.

Além das iniciativas presentes no lançamento, também assinam a Carta o projeto Territórios Negros (que em 2017 foi matéria do Nonada) e o Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais.

Todas as iniciativas têm em comum a vontade de popularizar e difundir o conhecimento histórico e a memória de moradores de Porto Alegre, numa perspectiva da história pública, que pretende concretizar o direito à memória como um direito humano. Assim, a criação da Rede Trajetos da Memória e a publicação da Carta pelo Direito à História, à Memória e à Cidade são o ponto de partida para somar forças entre os projetos, elaborar calendários conjuntos e enriquecer o debate sobre o acesso à cidade, à história e à memória.

Constituem a Rede Trajetos da Memória os projetos: Caminhos Operários, Territórios Negros, Histórias da Ponta Grossa, Caminhos da Ditadura em Porto Alegre, Museu das Ilhas de Porto Alegre, Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais, Pedal pela Memória e Laboratório de Ensino de História e Educação.

Foto: Vagner Eifler

Leia a Carta pelo Direito à História, à Memória e à Cidade na íntegra:

Porto Alegre, 4 de dezembro de 2019.

Ao longo da última década vários projetos têm sido organizados em Porto Alegre visando abrir espaço para uma memória e uma história alternativas às narrativas hegemônicas, chamando atenção para o papel de negros/as, indígenas, mulheres, LGBTs, trabalhadores/as e moradores/as da periferia na história da cidade, ou seja, as memórias dos excluídos da História oficial. Além disso, tem crescido a preocupação com a defesa do patrimônio cultural, vítima do descaso das políticas governamentais e sob o risco de desaparecer com o avanço da especulação imobiliária e do grande Capital sobre os espaços públicos.

Diante disso acreditamos ser necessário que aqueles que defendem histórias, memórias e uma cidade mais democrática se juntem na defesa desses bens culturais. Esta Carta visa especialmente alertar para a necessidade da preservação das histórias e das memórias daqueles grupos cujo papel na História de nossa cidade foi apagado ao longo do tempo. Muitos de seus locais de memória se encontram em situação mais precária e não são levados em conta nas políticas oficiais de preservação. Sabemos que é uma situação difícil, mas trata-se de um esforço conjunto para manter vivas essas memórias e impedir o desaparecimento de lugares que ajudam a contar essas histórias.

A defesa dessa memória e desses bens culturais se insere em uma luta mais ampla pelo DIREITO À CIDADE. É necessário que a população se aproprie das ruas, das praças, dos locais de convívio em Porto Alegre; também é preciso que a população se identifique com a cidade, a qual não pode ser hostil aos seus moradores, nem reproduzir uma lógica de exclusão social. Por isso, defendemos que a preservação dos bens culturais seja acompanhada da criação de espaços de convívio, de aprendizado, de construção e recriação da história de Porto Alegre por parte de seu próprio povo.

Mesmo que existam projetos, organizados por coletivos, com o objetivo de divulgar uma memória alternativa da cidade, sabemos que a proteção desses bens culturais e a criação de lugares para a divulgação da memória dependem, em última instância, de políticas públicas específicas. Neste sentido, defendemos algumas ações que são de responsabilidade dos poderes públicos, que deveriam ser realizadas para proteger os bens culturais desses diferentes grupos sociais da destruição e sua memória do esquecimento:

1) Impedir a destruição de edificações que sejam significativas para a história e a memória de negros/as, indígenas, mulheres, LGBTs, trabalhadores/as e moradores/as da periferia de Porto Alegre;

2) Proteger estes lugares de memória e instalar marcações no espaço urbano que promovam a memória viva destes locais;

3) Promover a criação de instituições dedicadas a estas memórias em diferentes bairros, incentivando o conhecimento das histórias locais na formação da cidade;

4) Incentivar a nomeação de novas ruas, avenidas, praças e viadutos com figuras significativas para a memória dos excluídos da História oficial;

5) Valorizar e apoiar os programas já existentes nas escolas e espaços de memória da cidade com objetivo de conhecer a história dos bairros da cidade a partir de uma perspectiva popular, crítica e inclusiva, promovendo sua multiplicação;

6) Fornecer meios de transporte para escolas, centros comunitários, sindicatos e outros movimentos sociais para facilitar o conhecimento e a apropriação da cidade e de seus espaços de cultura, lazer, luta e história;

7) Fortalecer ações de economia solidária e circuitos de turismo comunitário.

%d blogueiros gostam disto: