• Entrevista Rafael Gloria
    Fotos André Furtado/CCMQ

A Casa de Cultura Mario Quintana é o espaço cultural mais reconhecido de Porto Alegre. Em 2020, no dia 25 de setembro, completam-se 30 anos desde que a Casa se transformou em centro cultural, mas as atividades de comemorações acontecem ao longo do ano todo –  uma delas é o novo site que a instituição promete ainda para o mês de janeiro. Além disso, há planos para o Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndios ainda no primeiro semestre deste ano, o primeiro passo para o processo de restauro que começará a acontecer.

Quem informa é o diretor da Casa, Jessé Oliveira, em uma conversa que tivemos sobre a sua gestão, as mudanças que realizou e as ideias para o futuro. Fundador do Grupo Caixa Preta, com experiência de gestão na Alemanha e mestrando em Artes Cênicas na UFRGS, Oliveira está na Casa desde o final de 2016. O artista é o primeiro negro a dirigir a Casa, mas alerta para as armadilhas dos “primeirismos”: “Assim parece que estamos sempre começando. Espero que a minha experiência aqui seja de uma abertura, de uma continuação, que outra pessoa venha, e não só porque ela é negra como também muito capaz”, diz. O gestor também contou que a Casa só está funcionando hoje porque existe incentivo anual do Banrisul.

Confira a íntegra da entrevista:

Nonada – Qual balanço que você faz desses quase quatro anos de gestão? 

Jessé Oliveira – É sempre difícil fazer um balanço sobre seu próprio trabalho, mas a gente também não pode ter falsa modéstia. Não posso perder de vista qual era a situação quando eu assumi a direção da Casa. Se a gente não tomar medidas, institucionalizar programas, a tendência é as coisas irem se desorganizando, como estavam. Bom, quando eu peguei a Casa, os teatros estavam absolutamente sucateados, acho que há mais de dez anos não entravam equipamentos para os teatros, nem compra de refletores. E se tu for ver, hoje todos os equipamentos estão atualizados, modernos, com qualidade. Fizemos uma revisão da cenotecnia de todos os teatros, de toda estrutura do Teatro Bruno Kiefer, porque eles utilizam maquinário especializado. Tudo foi refeito e foram colocadas varas de luz no proscênio. Parece pouco, mas é muito emblemático. E é o mote para eu começar a te responder agora.

Eu fiz, ano passado, trinta anos de teatro e a casa está fazendo trinta anos. Durante toda minha trajetória como diretor e como ator, existia uma área do Teatro Bruno Kiefer que não era possível ser usada na sua plenitude, que era o proscênio, porque foi construída sem vara de luz, sem vara de luz laterais, e depois, pra solucionar, construíram uma passarela no meio, porque a iluminação frontal era feita quase da cabine. E hoje em dia o teatro mudou e se usa muita projeção de imagens, não pode ter luz frontal, a luz tem que ser melhor distribuída.

Falo porque tudo isso pautou a minha gestão na Casa. A minha gestão é feita para uma pessoa: “para mim”. Para mim como artista, ou seja, eu tentei rememorar todas as dificuldades que eu tive como artista, como diretor, como usuário de algum outro espaço cultural e tentei trazer essas respostas sobre a minha perspectiva de estar do outro lado do balcão. Eu não acredito nessa conversa de ao mudar o lado do balcão, mudar o comprometimento. Pode mudar o ponto de vista, a perspectiva, mas não pode mudar o comprometimento. E é, para mim também, como espectador, porque eu sou espectador desde o primeiro dia que a Casa abriu. Sei que é uma resposta com uma charada, quando eu digo que é “para mim” pode parecer uma coisa egoísta. Mas não, é uma gestão que eu tento fazer solucionando tudo aquilo que eu vi como problema e também tornar a Casa mais atualizada com o século XXI. Se perceber, houve toda uma mudança de diversos espaços da Casa.

Nonada – Como quais, por exemplo? 

Jessé Oliveira – Desde a entrada, no saguão. Quando eu cheguei ali era um vazio, só tinham os guardas. Hoje é um espaço de convívio. Eu resolvi fazer uma coisa mais de época, tipos bancos de praça, instalar um videowall que informa sobre a programação da Casa. A gente não precisa ficar fazendo tanto panfleto, o que tá acontecendo de programação aparece ali. Tem toda uma composição com objetos de época, remetendo à portaria de um hotel.

E isso foi uma coisa que eu fui fazendo em diversos andares. Um dos problemas identificados antes de eu entrar aqui é que o quinto andar tinha se tornado um local inóspito. A antiga direção tinha tirado todas as mesas lá de cima, porque as pessoas faziam lanche, refeições.  A gente recompôs aquele espaço, até criou um lounge, com poltronas para que as pessoas ficassem bem confortáveis fazendo sua leitura. Passamos quase seis meses fazendo diariamente um trabalho pedagógico, educativo, para as pessoas entenderem que ali não era um lugar de fazer refeição. E hoje é um espaço autogestionário, a gente não precisa ter intervenção de guarda ou de funcionário, porque ali é um dos lugares mais habitados da casa.

Nonada – A Casa de Cultura é ligada à Secretaria de Estado da Cultura. Como funciona o diálogo com artistas e grupos também do interior?

Jessé Oliveira – Tudo deve ser observado como um microcosmo inserido em um contexto mais amplo. A Casa de Cultura é um equipamento cultural do Estado e não somente de Porto Alegre. Se tu observares a programação aqui da casa, especialmente depois que eu entrei, vais ver que existem muitos programas atendendo o interior. Por exemplo, o FESTE – Festival Estadual de Teatro, que começou a acontecer exatamente quando eu assumi aqui na Casa e vem sendo potencializado ao longo dos anos. É um momento quando todos os vencedores de Festivais do interior vêm para capital e são recebidos com todas as condições de produção profissionais. Instalamos todos os participantes que são do interior do Estado em um bom hotel e eles ocupam os teatros com todas as condições de infraestrutura que eles normalmente não têm. Eu vejo que isso está respaldando as ações deles no interior, passam a ser mais exigentes com os outros festivais, porque reconhecem os avanços. Tem outro projeto que é o Interior na Casa, em que uma vez por mês, quando a gente tem recurso, traz um grupo de teatro ou dança, do interior. Tem outro projeto que é o Universidade na Casa, que a gente traz trabalhos dos cursos de artes cênicas das universidades do interior como a Ufpel, Ufsm, a Uergs.

Outra coisa: faz dez anos que não tinha edital de ocupação nos nossos teatros. Eles eram sempre pautas exclusivas da direção. E agora passou a ter um regramento: sempre no final de dezembro abre o edital de ocupação do primeiro semestre e depois tem outro para julho a dezembro. Neste edital, favorecemos todas as linguagens e também essa ideia de acesso para todo Estado. Na comissão de avaliação, além de chamar os Colegiados Setoriais, o Sated, o IEACEN, sempre, no mínimo, trazemos uma pessoa do interior. E, felizmente, todos os editais sempre tiveram espetáculos do interior. O que significa que a gente está dando condições de acesso para o interior do Estado utilizar a casa.

Uma das prioridades da gestão é a modernização de equipamentos, diz Jessé Oliveira (Foto – André Furtado/CCMQ)

Nonada – E a ideia de espetáculos a preço popular de um real continuou? 

Jessé Oliveira – Não, porque quando eu pensei, eles estavam associados ao passe livre nos ônibus, que não existe mais. Era para pegar essa massa que às vezes vinha para o centro e para os espaços culturais e não tinha acesso à programação. Mas perdeu um pouco de sentido quando acabou o passe livre, e ele não estava voltado para o público já frequentador de teatro, era para trazer gente que não tinha condições.

Nonada – Em termos de diversidade e de acessibilidade cultural, foram desenvolvidos programas? 

Jessé Oliveira – Eu posso dizer que, talvez, pela primeira vez, a Casa de Cultura tem uma programação continuada, os produtos culturais da Casa se repetem todo ano. E eles têm alguns eixos de ações, além da pluralidade de linguagens, atendemos a todas as linguagens artísticas. Eu, como um artista de teatro e também como um ativista de arte, por muito tempo dirigi um grupo de teatro negro, um dos precursores aqui da cidade. Isso sempre foi, para mim, uma coisa muito essencial. Então, criei programas que são de acessibilidade e de diversidade. Por exemplo: tem um programa que se chama Cenas Diversas, que sempre acontece em três edições anuais. E cada uma delas dedicada a uma área. Tem o Cena Negra, em que a gente traz espetáculos de teatro e de dança negros, sempre são dois grupos daqui e um de fora do estado. E a gente também tem tratado muito dessa questão intercambiável.

Nonada – Só um parêntese, como faz para trazer artistas de fora do Estado? 

Jessé Oliveira – No primeiro ano eu fiz com o mesmo recurso que a Casa sempre teve. Depois que sedimentou a programação, eu passei a fazer um plano anual da Casa através da Lei Rouanet, captando uma parte dos recursos que tem garantido fazer isso tudo em condições. Em todos os programas próprios da Casa, os artistas sempre são remunerados. Não é a remuneração ideal, mas há uma dignidade nesse trato. Nisso, eu também me coloco na perspectiva do artista, porque eu também odeio quando me chamam para participar de uma coisa e que não têm recursos. Toda a programação oficial da Casa é remunerada.

Nonada – Bom, e voltando aos programas sobre diversidade…

Jessé Oliveira – Bom, o programa atende a diversidade étnico-racial, o teatro negro, e tem outro módulo do Cenas Diversa que é o Cena LGBT. Sempre com, pelo menos, dois espetáculos daqui e um de fora. São espetáculos que estão discutindo uma estética LGBT, uma estética gay. O outro módulo é Cena Acessível, com espetáculos que pensam a questão da acessibilidade, não somente em relação ao acesso ao lugar por pessoas com deficiência, mas o que essas pessoas estão propondo, o que estão pensando e o que estão criando. Não é pegar um espetáculo qualquer e colocar com LIBRAS ou com áudio-descrição. É pegar quem está fazendo espetáculos com essas pessoas como sujeitos. Veio a Estela Lapponi, que é uma atriz e bailarina paulista, que há vinte e poucos anos teve um AVC, e não deixou de fazer o seu trabalho, mas mudou o contexto. Veio o grupo de dança de Florianópolis Lápis de Seda, com bailarinos autistas, bailarinos com síndrome de down, dançando com artistas sem nenhuma deficiência.

Fora isso, sempre quando acontece o nosso edital, as grandes temporadas ganham um dia com LIBRAS. Já vem acoplado, já está dentro do edital. A Casa se responsabiliza pelos custos, porque como os governos e os programas de financiamento começaram a cobrar isto, e começaram a simplesmente passar essa tarefa para nós artistas. O dinheiro cada vez ficava menor, tínhamos que colocar a preços populares e, quando via, o espetáculo ficava mais caro do que estávamos recebendo. Acho que cabe ao Estado pensar nessa solução. Tem um outro projeto que é o Fashion Black, que é, hoje, o maior evento de moda negra do País e, através dele, vieram os maiores nomes da moda e design negros e pessoas com currículo internacional, como a Carol Barreto, Issac Silva, Luiza Brasil. Já foram três edições. Posso dizer que foram pouquíssimos os programas que eu criei aqui na casa e que não tiveram continuidade. E eu tenho certo toque, porque eles sempre tem que acontecer no mesmo período. (risos)

Se tu me perguntar o que eu vou fazer no Dia da Consciência Negra eu respondo: eu não vou fazer nada, eu faço o ano inteiro. O que vai fazer no Dia da Visibilidade Gay ou Lésbica? Eu não vou fazer nada, a gente tá fazendo isso o ano inteiro. Sem contar que nós temos programas de formação interna com os nossos servidores, para que tenham um olhar sobre o que significa essa mudança de paradigma.

Nonada – Sua gestão homenageou personalidades como o Oliveira Silveira e o Sérgio Napp. Qual a importância de lembrar esses legados? 

Jessé Oliveira – Todos nós que dirigimos a Casa, sempre temos que olhar para o Sérgio Napp, porque ele foi a pessoa que acompanhou as obras e inaugurou a Casa. Eu já tinha, há bastante tempo, essa ideia de fazer uma homenagem a ele, eu o conheci rapidamente, tínhamos um tratamento respeitoso e carinhoso. E aí eu queria fazer uma bela homenagem para ele e era um espaço que estava bastante degradado, acho que até no próprio nome já significava um certo abandono: salas A2, B2 e C2, fadadas ao esquecimento. A primeira vez que eu tive contato e conversei com ele foi em num evento que aconteceu na Casa, exatamente nestas salas e que agora se chamam Sala Sérgio Napp 1 e Sérgio Napp 2. Trata-se de um centro de convenções. Inclusive, hoje, esse espaço nem está subordinado à Casa, está subordinada ao Hub Criativa Birô. Mas como temos também utilizado a sala, fizemos toda uma remodelação, são salas com mais tecnologia e conforto. Com o Oliveira, tive uma relação muito próxima, de amizade, de carinho. Eu conheci ele tardiamente, no final dos anos 90, e, de uma certa forma, era alguém a quem eu sempre recorria para pensar as questões raciais com um aprofundamento teórico e de ação.

Fundador do grupo Caixa Preta falou sobre a importância de mais pessoas negras em espaços de poder (Foto André Furtado/CCMQ)

Nonada – Quais mudanças necessárias, agora que a Casa de Cultura vai chegar aos 30 anos?

Jessé Oliveira – A gente vai encontrando alternativas, porque a Casa também tem que recuperar um protagonismo de quando ela foi inaugurada, só que pensando nos dias atuais. Quando colocarmos o novo site no ar, já vai ser apresentado o selo de comemoração dos trinta anos, que vai durar o ano de 2020 inteiro. Todo mês nós vamos lançar um produto novo e que vai estar disponível na loja. As pessoas vão em qualquer centro cultural, Masp, Louvre, tem uma loja. A gente tem uma loja que é linda, mas não tinha oferta de produtos próprios da Casa.

Uma das ações mais importantes é o restauro da Casa, vamos começar finalmente a etapa de restauro interno. Em outra vez, foi feito o restauro da fachada, que também era importante, tinha capitéis que estavam bem deteriorados. Isso foi em 2013 ou 2014, foi na gestão do secretário Assis Brasil e do governo Tarso. Mas ficou todo um passivo aqui, passivo interno, os elevadores, por exemplo. Toda a casa tem mais tempo que trinta anos, é um prédio antigo e já com deterioração.

O restauro do teatro não foi só botar equipamento, foram equipamentos de última geração, bem potente e em quantidade. Na Sala Carlos Carvalho tinha uma mesa analógica, há mais de vinte anos não se usa equipamento analógico. Quando eu cheguei, a Casa alugava uma mesa de luz sem muitos recursos e hoje tem uma mesa de alta qualidade, de alto nível. Foi um investimento que gastamos em torno de 200 mil, possível porque  fizemos diversas parcerias com empresas como a Harmann JBL,  que possibilitaram a aquisição de equipamento de som novos, caixas originais, amplificadores. Também parcerias com a OpenStage para aquisição de mesas de som digitais para os dois teatros. São parcerias que a gente fez com muitas empresas que algumas vezes nem o valor de custo cobraram.

Nonada – E essa parceria veio em troca de quê? 

Jessé Oliveira – É o choro da casa (risos), claro que a gente divulgou na época, fizemos uma abertura solene referenciando os parceiros que foram muitos e muitos generosos com a Casa. É importante dizer que tudo que acontece na Casa é fruto de uma boa relação que temos com a nossa Associação dos Amigos. Isto é muito importante, existe uma relação de harmonia e cooperação. Assim como nas duas gestões em que eu estive, tanto na do secretário Victor Hugo, como na da Secretária Beatriz Araujo, eu tenho todo o respaldo para fazer essa atualização da Casa, buscar parcerias. Hoje, nós temos trabalhado muito a questão da transversalidade aqui dentro, porque a Casa sempre foi um condomínio que abriga instituições públicas estaduais das mais diferentes naturezas culturais e agora buscam ações convergentes.

Nonada – Como é essa relação entre as diversas instituições, como o MAC, a Cinemateca, o Ieacen, entre outras?

Jessé Oliveira – É muito positiva. Nós damos uma contribuição para o Museu de Arte Contemporânea (MAC), sempre ajudamos a realizar parte das reformas das galerias, que foi uma ideia fantástica do André Venzon. Ele criou um espaço pedagógico lá dentro da Galeria Sotero Cosme e fez toda uma reforma daquele lugar. Colaboramos com recursos que a Casa tem, ainda que seja para uma outra instituição, pois todos os avanços positivos que acontecem nas instituições daqui da Casa a respaldam como um todo…Por exemplo, as pessoas não dizem “os cinemas da Cinemateca Paulo Amorim”, elas dizem que vão ao “cinema da Casa”. Então existe uma co-responsabilidade e a gente tem essa compreensão. O Zeca Brito, que recentemente assumiu o IECINE e a Cinemateca, é uma pessoa muito pró-ativa e muito integradora.  Então, entre as instituições, sem perder a autonomia, temos pensado em muitas coisas com esse recorte de transversalidade, ou seja, pensando que se consegue alavancar as coisas melhor quando há uma conjunção de interesses públicos.

Nonada – Qual a situação do projeto de restauro que está previsto para a casa?

Jessé Oliveira – O projeto estava parado quando cheguei na casa, por uma questão de não entendimento entre a direção da casa e os seus pares, Associação dos Amigos e a própria Secretaria. Então, em nome de uma unidade, a gente retomou essa ideia do projeto. Eu assumi no final de 2016. Em abril de 2017, já estávamos com o projeto de restauro aprovado no MinC. Eu me envolvi muito em buscar a chefia do MinC aqui no Sul, a gente respondia as diligências de forma muito rápida, mas aí veio a falta de verba. Foi um ano em que houve queda na receita das empresas. É importante falar, a Casa está aberta porque existe a parceria com o Banrisul. Isso é um mérito histórico, a Casa sempre entrou no programa de incentivo direto do Banco e sempre tem sido financiada em sua programação artístico-cultural.

E queria que eles aumentassem os recursos e se fosse através da Lei Rouanet seria possível, então tratei de fazer um projeto de Plano Anual de Atividades na Lei Rouanet para a programação. Aprovamos o projeto do restauro, que é caro, é um projeto de R$ 4.937.000,00. Isso nos valores de 2016, 2017, quando foi feito o projeto. Ele envolve PPCI, que é nossa urgência agora, acessibilidade, o restauro dos elevadores, cinalética e reforma nos banheiros. Ainda precisamos reformar o telhado, que não está no projeto, mas vamos ter que encontrar uma maneira de incluir. No primeiro momento, vai ser PPCI, no primeiro semestre. Agora já deverá ser feito o primeiro depósito do Banrisul, que vai financiar. Há uma deterioração do espaço, tanto predial quanto dos equipamentos dos teatros, das salas e isto nos impõe desafios a serem superados.

Há também o projeto de programação artística, que acho que está consolidado. Eu não preciso mais inovar, acho que tenho que trabalhar muito em cima da consolidação dessas coisas, porque além de garantir respaldo, trazem outras qualificações através de serviços administrativos e outros serviços que entram no Plano Anual. A Casa é uma das poucas instituições culturais que tem bombeiro civil. A gente tem, pelo Plano, um contrato para ter a limpeza adicional. O plano anual nos favorece nesse sentido.

Nonada – Como a sua trajetória nas artes cênicas influencia o seu trabalho aqui?

Jessé Oliveira – Influencia muito. Algumas experiências foram muito fundamentais. Em 2015, eu dirigi uma companhia de teatro estatal na Alemanha a Theater Krefeld Und Mönchengladbach, onde dirigi o espetáculo Das Pferd Des Heiligen – O Cavalo de Santo, com texto de Viviane Juguero. Essa proposta do anuário me vem muito de uma ideia que eles têm. Mas lá, é o Anuário não do que foi feito, mas do que ainda será feito, a programação do semestre seguinte. Planejamento é a grande questão. Isso fez com que eu reestruturasse todo o organograma da Casa para racionalizar os recursos humanos e financeiros. Criei o Núcleo Artístico que antes era Núcleo de Projetos Especiais, o que já dava uma ideia de sazonalidade. Tem o Núcleo dos Teatros, porque os teatros têm toda uma questão muito própria, uma programação específica que precisa de uma especialização.

Eu entendo que, nós diretores, somos passageiros, não posso ter apego ao cargo, por ser transitório. Mas todas essas transformações precisam ter corpo de funcionários e servidores comprometidos com isso. Conseguimos recuperar, em parte, a defasagem que tínhamos de servidores, realocando desde a gestão anterior. Essa casa é um microcosmo, porque é um resumo de todas as coisas e atividades desenvolvidas pela Secretaria e um catalisador da arte do Estado. Aqui tem tudo. Aqui é o lugar do teatro, da dança, do circo, da música, das artes visuais, do cinema. Fora isso, tem as correlações com outras instituições públicas, então, para tudo isto, precisamos ter um staff qualificado e comprometido. Hoje, o time de servidores da Casa é uma seleção.

Nonada – Vocês fazem acompanhamento de público?

Jessé Oliveira – Ainda não conseguimos fazer este levantamento. Vamos lançar o novo site e vamos ter uma nova ferramenta de acesso à Casa. Através dela, vamos conseguir quantificar público, faixa etária, social e outros recortes importantes para entendermos a Instituição em sua plenitude. Hoje usamos planilhas no Google para monitorar nossas agendas, recursos e equipamentos. Os dois teatros, por exemplo, devem ser administrados de forma independente.  Equipamento de um não pode ir para outro, porque, às vezes, é assim que os perdemos. Em uma instituição grande como esta, é preciso ter muito controle sobre todos os recursos. Os equipamentos dos teatros são divididos por cores para monitorarmos visualmente.

Criamos uma reserva técnica, que antes chamavam de depósito. Tinha tudo lá dentro, desde obra de arte até resto de cano, coisas para ser jogadas fora. Estas coisas não podem estar dentro do mesmo lugar, questão de logística. Então a gente fez uma reorganização desse espaço, local do equipamento que está em uso, local de equipamento que tá para conserto e local de equipamento que não tem mais uso e vai ser descartado seguindo todo o procedimento administrativo para poder ser descartado. A gente usa tudo isso para ter um controle. Então a minha digressão foi para falar da nova ferramenta que vai vir junto com o site e as solicitações não vão ser mais feitas através do email, tu vai entrar direto no site, vai preencher e quando preencher já vai ter a planilha. São ferramentas que a gente vai observando que em alguns lugares funcionam. E não é só lá fora, essa ferramenta, por exemplo, o (Teatro) São Pedro passou a usar na gestão do Dilmar Messias. É uma ferramenta que vai ser muito útil para conseguirmos dar mais celeridade e transparência para o público que solicita espaços na casa e termos um dimensionamento de quantidade e tipos de públicos frequentadores.

Nonada – Como você observa o papel da cultura em um governo nacional que ataca a liberdade de expressão?

Jessé Oliveira – Eu acho que seria incongruente ser gestor de cultura e ser minimamente conivente com qualquer tipo de censura. Eu não censuro nem aquilo que eu não gosto. Tenho direito de não gostar de determinadas manifestações artísticas. Ferreira Gullar não gostava de certas coisas da arte contemporânea, mas nunca cerceou. No dia em que eu estiver no dilema entre ter que ser conivente com qualquer tipo de cerceamento artístico eu volto para o lugar de onde eu nunca saí, que é o papel de criador artístico, onde eu não admito que alguém me diga o que devo fazer. Sou um artista que, na minha época de universidade, 25 anos atrás, às vezes era taxado de ser excessivamente ativista. Eu acho que há um comprometimento do artista que não é natural como às vezes pensamos do tipo: “Eu sou artista, logo sou libertário”. O artista pode ser libertário, a arte não necessariamente. A arte não é uma ciência autônoma, não existe arte neutra e não existe ciência neutra. Agora, eu tenho que entender onde está meu papel de exercício de liberdade e o meu comprometimento com isso, seja na ciência seja na arte. Felizmente – e isso tem sido dito muito claramente – a secretária Bia Araujo falou muito abertamente sobre isso, que aqui não vai se admitir cerceamento de liberdade, e a gente sabe que ela tem uma relação muito próxima com o governador, logo, é um posicionamento de Governo.

Nonada – Você é a primeira pessoa negra a ocupar o cargo de diretor aqui da Casa de Cultura. Como avalia a importância aqui no estado?

Jessé Oliveira – Há uma importância simbólica muito fundamental, que muda o olhar tanto das pessoas que trabalham na Casa, como mudam as correlações dentro da esfera diretiva, porque se a gente observar, ao longo da história, não é só na Casa de Cultura que não teve. Não lembro no Margs, não lembro no São Pedro. Isso é estrutural e histórico, perpassa todas as gestões, e eu fico feliz que agora o diretor da Casa de Cultura é negro, o diretor do Museu Hipólito da Costa, é negro, a Assessora Especial de Diversidade é negra. Em primeiro lugar, não é uma benesse de um governante, é porque pessoas negras tem se capacitado e tem se apresentado para estarem no primeiro time das decisões – e tem muita gente que ainda está esperando sua vez. Quando a gente tem um olhar comprometido com a luta antirracista, tudo que a gente faz, mesmo que não esteja fazendo um programa específico voltado para a questão racial ou para as outras identidades e diversidades, estamos sempre muito atentos para as armadilhas. Como aquela velha frase “não basta eu não ser racista, tenho que ser antirracista”. Não basta eu não ser homofóbico, tenho que ser contra a homofobia. Então acho que esses comprometimentos vão nos afirmando nesses lugares. Depois que a gente passa, é difícil voltar. Não acredito em nenhuma luta social sem recorte racial.

Acho que esse é o grande legado, essa transformação que produzimos nos lugares. Basta observar, por exemplo, a Pinacoteca do Estado de São Paulo (1992-2002), quando passou pela gestão do Emanoel Araújo, artista plástico baiano que criou o Museu AfroBrasil (2004), em São Paulo, que muda a visão de Brasil e afirma, sobretudo, as nossas potencialidades.

Agora, isso não pode ficar restrito a esses avanços circunstanciais para o currículo individual. Como artista e como pesquisador, acho que há uma imensa armadilha em “primeirismos”. É provável que não tenhamos notado, porque a política do racismo é muito esperta e a armadilha que ela cria é a invisibilização e esquecimento. Isso é uma prática tanto daqueles que têm boas intenções quanto de quem quer preservar o racismo, quase todos caem nesta armadilha. Parece que nós estamos sempre começando.

Recentemente vi uma entrevista de um ativista falando que nunca teve grupo de teatro negro aqui no Sul. Perguntaram sobre Caixa Preta e ele com certo desdém responde: “ah, verdade, teve o Caixa Preta, parece que eles lançaram um livro agora”. Em primeiro lugar, qualquer grupo de teatro, às vezes, passa quatro, cinco anos sem produzir um espetáculo novo.  Nós, entre 2002 e 2015, realizamos 7 espetáculos, alguns com repercussão internacional. Lançamos em 2019 o livro Hamlet Sincrético – Em Busca de Um Teatro Negro, remontamos uma parte da peça, e foi um grande sucesso dentro do Porto Alegre em Cena, e a pessoa acha que isso é pouco? É porque está introjetado um certo olhar colonizado que só conseguimos enxergar as coisas assim. Parece que o racismo nos cega, porque estamos sempre tendo que ser o primeiro. Quando a gente é o primeiro, a gente também se encarrega de fechar a porta para ninguém mais entrar. Espero que a minha experiência aqui seja de uma abertura, de uma continuidade, que outra pessoa venha, e não só porque ela é negra como, também, muito capaz. Por que, quando eu entrei aqui, a Casa passou a ter um staff de pessoas negras, de circular produções negras? É por uma questão muito simples, porque estou vendo qualidade, tanto quanto o sujeito branco. Mas a questão é que ele só se relaciona com pessoas brancas, então ele só consegue identificar potencialidades em pessoas brancas. Compreende?

Nonada – O que poderia ser feito em termos de políticas públicas para não se perder esse avanço?

Jessé Oliveira – Tem que ter políticas específicas, políticas afirmativas continuadas. E isso precisa ser levado a sério, porque até agora não foi. Hoje eu li a frase “para cada cotista, tem 10 negros na vala”. É uma fala muito poderosa, porque, às vezes, a gente acha que já deu conta de toda a situação, mas foi paliativa. Precisa ser uma política pensada, continuada, de dividir o poder. Eu não acredito em governo que fala em cota e não divide o poder comigo. Eu só tenho comprometimento hoje, politicamente, com uma questão: racial. Eu não acredito em nenhuma luta sem recorte racial, repito. Feminismo sem recorte racial não dá conta das minhas questões, porque as mulheres brancas são, hierarquicamente, opressoras dos homens e mulheres negros. O poder, na sua hierarquia, são homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras.  Estou falando aqui como artista e alguém que tenta pensar o seu país, não como diretor da Casa.

Nonada – E tem a questão das masculinidades também.

Jessé Oliveira – É, precisamos rever as masculinidades tóxicas, mas não podemos substituir os paradigmas. Eu não quero substituir o opressor. Às vezes, tu precisa falar da branquitude, e não é uma mera substituição da expressão, é repensar muito, repensar como essa estratégia de uma aparência de avanços para os “subalternos” continua privilegiando muito mais os que já tem privilégios garantidos. Então não adianta se o Congresso continuar sendo branco, não adianta ter um governante branco, por mais caridoso que ele seja, ele vai continuar sendo branco. As masculinidades estão em litígio, mas eu penso a questão da masculinidade também sob um panorama racial, as masculinidades negras foram condicionadas pelo olhar de uma sociedade branca, que formulou papeis colonizados para os homens e mulheres negras e não será pela orientação política de uma sociedade racializada que vamos reconfigurar as masculinidades negras.

Lembrando que eu não caio na armadilha do “primeiro”. Nós já tivemos um presidente negro no Brasil, sabia? Nilo Peçanha. Ele é um cara que desce do morro, da favela, começa a ganhar ascensão política e ele casa com uma jovem branca da aristocracia. Se for pegar todas as manifestações nos jornais sobre o casamento dele, foi um escândalo. Anos depois ele se torna presidente e aí, pelo fato de ser negro, precisa ser invisibilizado, assim como foi invisibilizado Machado de Assis, Chiquinha Gonzaga e Castro Alves. Estamos sempre dando voltas em torno da árvore do esquecimento. E isso é algo cientificamente pensado. Quando falamos em Juliano Moreira, as pessoas só lembram da Colônia Penal, mas ele foi um dos mais importantes cientistas brasileiros na área da psiquiatria, formado na faculdade de Medicina de Salvador e o primeiro professor negro desta instituição. Mas ele caiu no esquecimento, e o esquecimento é falar apenas no nome dele como o nome de uma colônia penal. E o legado dele? E tantos que o sucederam e seguimos perseguindo um permanente reinício numa espécie de epistemicídio.

O Grupo Caixa-Preta não foi o primeiro grupo de teatro do Sul, apesar de sua importância para o moderno Teatro Negro brasileiro. Somos herdeiros de uma história que veio antes de nós, havia experiências desde o século XIX, com o Artur Rocha, depois todo o século passado, o Teatro Marciliense, o Floresta Aurora e o próprio Solano Trindade que dirigiu um grupo de teatro em Rio Grande e Pelotas e que perdeu seus arquivos numa enchente.

 

Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras. Twitter: @rafaelgloria
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