O Nonada inaugura nesta segunda-feira (27) a seção Ouvidoria, uma série de entrevistas com 20 perguntas ou tópicos fixos sobre cultura e o fazer artístico. A estreia é com Marcelo Silva, natural de Porto Alegre (RS), poeta e professor de Literatura e Língua Portuguesa. Mantém o blog Desalinhado, publica poesia e alguns contos em diversos sites e revistas dedicadas ao gênero. Criou a oficina “A poesia é um atentado celeste” na qual estimula o fazer poético por meio de exercícios que envolvem canções, imagens e trabalho coletivo. Em maio de 2019 lançou o livro O que carrego no ventre, editado pela Figura de Linguagem.

1. Data de início da carreira:

Não sei como precisar uma data, um início. Não sei se é quando se lança um livro, se é desde que se escreve ou se eu acho mesmo que tenho uma carreira. Poderia dizer que algo importante aconteceu em 2009, que posso considerar um marco.

2. Livros publicados:

“Cantos Seletos”, coletânea de poesia publicada pela Editora Literacidade, em 2015.

“O que carrego no ventre”, poesia, pela Editora Figura de Linguagem, em 2019.

3. Como você descreveria sua essência enquanto artista?

Tenho dificuldades de falar sobre isso – essência, me parece um tanto fixo, rígido. Posso dizer que gosto de olhar o simples, a rua, as pequenas coisas, de olhar a beleza, mas a violência também, a tristeza. Penso que a vida é essa disputa de coisas, de sentimentos antagônicos.

4. O que mais irrita na cena cultural?

Ficar em função de si mesma, falando para os seus. Ficar nesse exercício de pequenos poderes, ainda mais em Porto Alegre. Deveríamos ser mais generosos, sair dos nossos quintais.

5. Que qualidades são imprescindíveis a um artista?

O compromisso com aquilo que ele faz, uma certa fidelidade, não que isso resulte em engessamento, pelo contrário, é por esse compromisso que ele deve arriscar, mudar. Ah! E ser crítico consigo mesmo.

6. Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira?

Escrever e publicar poesia é sempre uma dificuldade. Acho que a maior dificuldade foi publicar mesmo. Em algum momento ficar só com os escritos na gaveta não é o suficiente. O processo de publicação, cujos critérios diferem de Editora para Editora e nem sempre são muito claros, faz a gente desanimar. Muita gente boa fica de fora desse jogo e perdemos nós, leitores.

7. E de maior felicidade?

Foi na Festipoa Literária de 2019. Além do lançamento, dei uma oficina de poesia e fiz uma atividade em uma escola municipal. Foi demais, sobretudo o contato com os alunos. A gurizada é esperta e se interessa, sim, por literatura.

8. Um artista não deve…

Não deve sucumbir ao seu próprio ego, suas vaidades, e nos dias de hoje, e sempre, se associar ao fascismo, à opressão, justificar as injustiças. Um artista não pode deixar de se indignar, não pode perder sua humanidade. E não pode ter medo do erro, de arriscar.

9. Cinco coisas que mais te inspiram a criar (vale tudo):

Música

Olhar

A rua

O Mar

Tomar café

10. Acredita em arte sem política?

No poema “Filhos da época”, da Wislawa Szymborska – maravilhosa, ela diz o seguinte:

Somos filhos da época

e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas

diurnas e noturnas,

são coisas políticas. (…)

Na continuidade do poema completa:” Versos apolíticos também são políticos”. Não existe nada apolítico. O termo política, a ideia de política foi encapsulada pela noção de poltítica partidária e, por conssguinte, seus processos eleitorais. Porém é bem mais amplo, mais vivo também, dinâmico. A política correnas ruas. Não acredito em nada sem política.

11. Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte?

Não é uma questão que eu pense muito, mas com certeza o investimento do Estado em Cultura não pode deixar de existir, pois é uma de suas atribuições, é obrigação, sim. Pago impostos para isso também. Essa distorção, diria que demonização da cultura, sobre as leis de fomento à cultura, é grosseira.

12. Existe cultura gaúcha?

Sim, sim. Existe uma cultura produzida aqui, existe uma cultura negra produzida aqui que faz parte dessa cultura gaúcha, se pensarmos no que é feito aqui nesse espaço geográfico que chamamos Rio Grande do Sul. Esse seria o meu critério pra pensar uma cultura gaúcha.

13. Que conselho você daria a Jair Bolsonaro?

Ler. Leia os livros que você não teve tempo para ler. Diria muitas outras coisas, mas fiquemos com essa.

14. Todo artista tem de ir aonde o povo está?

O artista é o povo. Eu só consigo escrever, pensar, existir a partir desse lugar.

15. Ser brasileiro é…

Uma incógnita, uma imposição, um desafio, um processo de colonização, uma invenção.

16. O que você mudaria no jornalismo cultural?

Um jornalismo cultural menos estilo agenda, que dê visibilidade a uma cultura que não está no hype, que está enraizada em outros espaços, que conte outras narrativas.

17. Um livro:

Essa é uma pergunta quase desonesta. Mas escolho “ A Metamorfose”, do Kafka, pelo impacto que teve na minha vida de leitor, da minha percepção sobre a Literatura. Foi um divisor de águas.

18. Um espetáculo:

Pensei em teatro, na verdade vou pouco ao teatro. Umas das melhores peças que vi ano passado foi Mierhold, do pessoal do Ói Nóis Aqui Traveiz. Necessária, absolutamente política, atual.

19. Um álbum:

Eu amo o Abbey Road, dos Beatles. Meu pai tinha esse disco em casa.

20. Um filme:

Já fui mais cinéfilo, agora tenho ido pouco ao cinema, fui cooptado pela Netflix. Então recomendo “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, que aborda os efeitos do modelo econômico neoliberal, a lógica meritocrática e a resistência, das pequenas resistências cotidianas que nos fazem seguir existindo, mais do que sobrevivendo.

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