Foto: Josemar Afrovulto/Bloco da Laje

Na série de entrevistas Ouvidoria desta semana, entrevistamos Martina Fröhlich, do Grupo Cerco e do Bloco da Laje. Com 35 anos de idade, Martina é Bacharel em Interpretação Teatral pelo Departamento de Arte Dramática da UFRGS e formada pela Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Cursou os Métodos Viewpoints e Suzuki na SITI Company, em Nova Iorque – EUA. É atriz do Grupo Cerco, pelo qual recebeu diversas indicações a prêmio por suas interpretações. Também é performer e cantora do Bloco da Laje e trabalha em diversos projetos de cinema e música. É uma das administradoras do Espaço Cerco Cultural, onde também ministra cursos de teatro.

Leia aqui todas as entrevistas da série.

Início da carreira:

Difícil mensurar, mas informalmente começou em um coral infantil, passando por apresentações teatrais em festas de família e grupo de danças folclóricas alemãs (risos). Mas meu primeiro cachê foi no espetáculo “Aborrecentes?”, origem do atual espetáculo “Adolescer”, quando tinha uns 16 anos, na escola.

Principais trabalhos: 

Atualmente com o Grupo Cerco de teatro, que além de produzir espetáculos, gerencia o Espaço Cerco Cultural. Também faço parte, desde sua origem, do coletivo carnavalesco Bloco da Laje, onde sou cantora e brincante, como costumamos chamar. Já passei também por grupos como o vocal Expresso 25, Maracatu Truvão, além de trabalhos com outros grupos de teatro e música, bem como produções de cinema e televisão e aulas de teatro que ministro.

Como você descreveria sua essência enquanto artista?

Pessoalmente, me vejo muito em um impulso de despertar a celebração e a união das pessoas. Isso é o que me mais me realiza na vida. Mas também há o compromisso em provocar reflexões pra que possamos construir uma sociedade melhor. Me vejo sempre como uma ferramenta, tentando desenvolver habilidades para melhor comunicar uma ideia ou ideal.

O que mais irrita na cena cultural?

Trabalhar na cena cultural é sempre difícil e estamos cada vez mais sem incentivos e perdendo nossos direitos, pelos quais devemos sempre lutar. Mas não gosto quando há um certo “coitadismo”, uma espera inerte por incentivos. Precisamos ser proativos e criativos.

Que qualidades são imprescindíveis a um artista? 

A capacidade de observação do mundo ao redor. Partindo disso, o comprometimento e a dedicação com o que está comunicando.

Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira?

Tive um criação privilegiada, com acesso ao que precisava pra desenvolver minha carreira. Tive boas oportunidades na vida. Então apesar de ter alguns problemas, trabalhar duro, com muita dedicação, não creio que passei por uma dificuldade tão grande como muitos colegas de profissão passam. Tenho reconhecido os meus privilégios.

E de maior glória?

Os momentos de maior glória são os momentos em que as pessoas dão um retorno positivo ao meu trabalho. Pessoas que agradecem, que elogiam a performance, que dizem se emocionar, se inspirar, me ter como referência…me lembro que um jovem ator uma vez disse que me ver em cena mudou o rumo dos caminhos dele. E quando esse retorno vem de mestres, de pessoas experientes, também é muito gratificante.

Um artista não deve…

Ser egocêntrico. Fazer sua arte como troféu pra si mesmo.

5 coisas que mais te inspiram a criar (vale tudo):

Anseios

Questionamentos

Energias

Celebração

Linguagem: gosto de criar todas as camadas de um trabalho, desde a performance, a criação visual, a criação sonora, a criação textual…adoro exercitar a criatividade na totalidade da obra.

Acredita em arte sem política?

A arte é política em si. É a comunicação de uma ideia, de uma interpretação da realidade, de uma visão de mundo. Creio que essa comunicação é uma forma de política, seja engajada ou não.

Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte?

Creio que seria um equilíbrio entre incentivo do estado, investimento pessoal e, principalmente, consumo pelo público.

Existe cultura gaúcha? 

Existe, está aí em volta de nós! Tudo o que se faz ligado à territorialidade daqui é cultura gaúcha. O que acho equivocado são os rótulos, a oficialização do que é cultura gaúcha. O “gauchismo” ou o “tradicionalismo” são engessamentos de algumas estéticas e folclores, alguns até artificiais, que acabam por excluir o restante da riqueza e da diversidade da cultura produzida por aqui.

Que conselho você daria a Jair Bolsonaro?

Diria pra desistir da carreira política e descontar suas frustrações no seu travesseiro. Quem sabe também indicaria a experimentar sofrer as violências que tem aplicado na população que vem prejudicando, pra ver se cria um mínimo de empatia ao próximo.

Todo artista tem de ir aonde o povo está?

Sem dúvida, se não a arte não se materializa.

Ser brasileiro é…

Um carrossel de emoções. Ser alegre e, ao mesmo tempo, indignado.

O que você mudaria no jornalismo Cultural?

Acho que o jornalismo cultural deve acompanhar o que é produzido artisticamente e não ser mero divulgador de eventos.

Um livro: Difícil! Mas fico com um dos últimos, “Sapiens”, de Yuval Hahari.

Um espetáculo: Mais difícil ainda. Mas fico com o que talvez tenha me marcado mais e me feito estudar teatro: “Kassandra In Process”, do Ói Nóis Aqui Traveiz. A Tânia Farias é gigante em cena.

Um álbum: Ah, sempre difícil! Fico com um atual: “Recomeçar” do Tim Bernardes. É uma mistura de um violão intimista com uma apoteose orquestral, tudo arranjado pelo Tim, que canta lindamente.

Um filme: tem um filme que poucas pessoas conhecem que mexeu comigo há tempos atrás, que se chama Koyaanisqatsi. São registros visuais da civilização ocidental nas décadas de 70 e 80 com uma trilha maluca do Philip Glass. Preciso ver de novo, pra ver se ainda mexe comigo.