Thaís Seganfredo

A aspereza dos traços de giz riscando o quadro negro prenuncia a reconstituição que se dá ao longo de um dos mais importantes documentários lançados recentemente no Brasil. Presas políticas durante a ditadura militar, mulheres como a fotógrafa Nair Benedicto e a presidenta Dilma Rouseff tentam ilustrar no quadro como era a Torre das Donzelas, como era chamado o prédio do presídio Tiradentes para onde eram levadas as mulheres, que também dá nome ao filme.

Neste documentário idealizado por Susanna Lira, a reconstrução da memória gera reflexões ao mesmo tempo em que vai formando a narrativa. A questão central é a história coletiva daquelas mulheres (sem nunca desconsiderar a individualidade) e como é essencial reconstruí-la para que os fatos absurdos da ditadura não se repitam. Nesse sentido, como se conta a história vivida em um prédio que já foi destruído? Susanna reuniu algumas das militantes presas em um cenário simples a la Dogville, mas com a reconstituição de mobiliário, escadaria, celas e recursos sonoros que remetem às vivências das mulheres.

As entrevistas resgatam elementos centrais que vão sendo contados na narrativa em ordem cronológica: primeiro o momento em que são encontradas pelos militares, seguido do período de tortura, o fichamento no Dops e a vida no presídio Tiradentes. É a força da história oral que sustenta o filme, embora artifícios como breves cenas de reconstituição com atrizes também sejam utilizadas. Enquanto as ouvimos, também refletimos sobre como cada mulher se protege das dores do passado e do silenciamento pelo qual passaram voluntária ou involuntariamente depois do período de encarceramento. O que faz com que elas sorriem enquanto revivem na memória o período?

Militantes que lutavam por ideal, seja na luta armada ou prestando apoio a grupos de resistência, elas relembram nas entrevistas como o fato de serem mulheres era visto como uma degradação pelos agentes da tortura. Como aponta Dilma no filme, a nudez e o uso de terminologia machista e de cunho sexual eram parte da violência que sofriam. Por outro lado, foi por meio da tão banalizada sororidade que muitas delas descobriram o feminismo e quebraram tabus sexuais.

Foto – reproduçao

Assim, o roteiro vai desenhando o eixo dessa história: o fato das mulheres se estruturarem na coletividade para construir uma fortaleza, um bunker emocional que não as deixava sucumbir à desumanização. A convivência coletiva era importante já quando elas chegavam ao Tiradentes, depois do período solitário do interrogatório e de tortura. Além do reconhecimento conjunto da condição de presa política, essa coletividade marca também a essência do ideal político da esquerda e portanto, dos grupos que constituíam a luta armada. 

As forças e fraquezas de cada uma, as nuances das amizades e das divergências ideológicas na cela (mulher revolucionária podia ou não chorar pelo companheiro?) e as atitudes e posicionamentos em relação à luta são algumas das questões que perpassam as entrevistas, além da rotina arquitetada pelas militantes, que chegavam a ficar até quatro anos no presídio. Como se manter humana e como se manter mulher no confinamento?  O problema vale tanto para as presas políticas como para as outras mulheres detidas por crimes comuns, que até hoje vivem em condições de extrema insalubridade, muitas vezes condenadas por fatos para os quais foram empurradas.

No caso das militantes, que viviam separadas das presas comuns, foi a leitura e a troca de saberes que também ajudaram a dar sentido àquela existência. Com grupos de estudos e livros de autores revolucionários, que elas mantinham escondidos nas celas, e com trabalhos manuais feitos para somar à renda das famílias dos militantes, elas se mantiveram ativas na luta pelo ideal libertário mesmo dentro da cadeia.

Torre das Donzelas, enquanto manifestação cultural, marca uma urgência causada pelas feridas abertas que a ditadura deixou no país: a quebra do silenciamento. Ainda que as entrevistadas já tenham reconstituído os fatos na Comissão da Verdade, a sociedade civil, a imprensa e os artistas, enquanto seres políticos e cidadãos brasileiros, precisam também contribuir para que o passado do Brasil não caia no esquecimento, para que a narrativa distorcida representada por Jair Bolsonaro não saia dos porões para se tornar a história oficial. 

Como diz uma das mulheres ouvidas, “fala é ação, ela concretiza aquele fato”. O trauma e a Lei da Anistia forçada à sociedade acabaram provocando um silêncio coletivo que faz um país inteiro esquecer, menosprezar ou até mesmo distorcer o que aconteceu no período. Que nunca mais se repita.