Foto – Renato Parada/Companhia das Letras

A entrevista da série Ouvidoria dessa semana é com a escritora Carol Bensimon. A autora nasceu em Porto Alegre, em 1982. Estreou na ficção em 2008. Seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (2009), foi finalista do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura. É autora de Todos nós adorávamos caubóis (2013) e O Clube dos Jardineiros de Fumaça (2017), esse último vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Os livros de Bensimon foram traduzidos nos Estados Unidos, na Espanha e na Argentina. Ela é mestre em Escrita Criativa pela PUCRS e uma das integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros da revista inglesa Granta. Atualmente, vive em Mendocino, Califórnia.

Leia aqui outras entrevistas da série Ouvidoria.

Quando começou tua carreira? Em 2008, com o lançamento de Pó de parede.

Livros publicados: Pó de parede (2008), Sinuca embaixo d’água (2009), Todos nós adorávamos caubóis (2013), Uma estranha na cidade (2016) e O Clube dos Jardineiros de Fumaça (2017).

Como você descreveria sua essência enquanto artista? Depois de lançar alguns livros, a gente vai percebendo que tem algumas obsessões. Acho que tenho uma preocupação em criar narrativas que sejam diferentes entre si, que tragam sempre algo novo em relação ao livro anterior. A essência é tudo que se repete e que eu não consigo disfarçar.

O que mais irrita na cena cultural? Quando a arte fica em segundo plano e as boas relações assumem o protagonismo.

Que qualidades são imprescindíveis a um artista? Desconforto, muitas dúvidas, obstinação. E leitura, o tempo todo.

Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira? Quando uma das crônicas que escrevi para a Zero Hora gerou uma polêmica imprevista, exatamente no mesmo dia em que eu estava lançando meu segundo romance, Todos nós adorávamos caubóis, em São Paulo. Eu não estava preparada para lidar com as mensagens de ódio que chegavam pelas redes sociais.

E de maior felicidade? Quando ouvi o anúncio de que O Clube dos Jardineiros de Fumaça tinha ganhado o Jabuti de melhor romance. Não tenho dúvidas de que esse é meu livro mais maduro, e me incomodava que, até aquele momento, ele tivesse recebido menos atenção do que meus livros anteriores.

Um artista não deve… colocar mais energia em sua persona das redes sociais do que na própria arte que produz.

5 coisas que mais te inspiram a criar (vale tudo): caminhadas por lugares vazios, arquitetura, outros livros, ouvir música ao ar livre, imaginar quem são as pessoas que passam por mim.

Acredita em arte sem política? Toda a arte é uma tentativa de compreender o mundo (e, em certo sentido, é também a admissão da impossibilidade de comprendê-lo). A política faz parte disso, inevitavelmente.

Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte? Acho que não sou a melhor pessoa para opinar sobre isso. O ofício do escritor é bastante solitário, e não estamos muito próximos da gestão cultural, diferentemente de outros tipos de arte. Além disso, lançar um livro não é uma coisa cara, se compararmos com a produção de um longa metragem ou de um espetáculo de dança.

O modelo ideal seria: você começa a escrever um livro, ganha um adiantamento nada desprezível de uma editora, o livro é publicado, você vende muitos exemplares e pode viver disso. O modelo real é: você escreve um livro por pura insistência e paixão, ganha um adiantamento que não cobre nem dois meses de trabalho, seu livro é publicado e você não vende o suficiente para viver disso.

Existe cultura gaúcha? Não acredito muito nesses conceitos. Acho que existe algo – um espaço, cheiros, costumes, sons –, e essas coisas influenciam, de muitas formas imagináveis, a arte de alguém que nasceu no Rio Grande do Sul. Mas cada experiência é única, e cada registro artístico também será individual.

Que conselho você daria a Jair Bolsonaro? Não conseguiria nem estar no mesmo lugar que esse sujeito sem sentir um asco avassalador e paralisante.

Todo artista tem de ir aonde o povo está? É sempre um equilíbrio delicado. O artista tem que ir, sim, aonde o povo está, mas, no momento da criação – falo isso por mim –, não é aconselhável colocar o público em primeiro plano. Querer agradar a todos prejudica a arte.

Ser brasileiro é… a certeza de que, de tédio, não se morre.

O que você mudaria no jornalismo cultural? Gostaria de ver textos mais longos e um pouco mais soltos, opinativos.

Um livro: Austerlitz, W. G. Sebald

Um espetáculo: Como moro em uma cidade muito pequena, faz bastante tempo que não vou ao teatro ou a um show.

Um álbum: Gentle Spirit, Jonathan Wilson

Um filme: Copacabana, Marc Fitoussi