Lá pelo início do ano tivemos a ideia de entrevistar o José Falero. Então, o adicionei no Facebook e pedi seu livro Vila Sapo, lançado em 2019, para ler e me preparar para a entrevista. Muito aconteceu desde então: uma pandemia, reorganização da vida e dos trabalhos, mas finalmente agora em junho, conseguimos trocar uma ideia com esse escritor e cronista via áudio de Whatsapp. Foi uma grande conversa em ambos sentidos, no conteúdo e na extensão. 

Seu livro de estreia é uma obra composta por seis contos com uma força narrativa exemplar, do tipo que deixa o leitor sedento em descobrir a próxima palavra que vai vir, e depois o próximo parágrafo e, então, a próxima página. São histórias inspiradas no cotidiano periférico da capital gaúcha, mas é muito mais que isso também, pois vai apresentando toda a complexidade dos personagens e suas ações.  

José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, e além de Vila Sapo (Venas Abiertas 2019) também participou das coletâneas À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019).

Nonada – De que forma a tua escrita mudou desde quando você começou a escrever literatura? Em que momento percebeu que a sua realidade era algo legal de contar?

José Falero – Eu acho que a escrita muda, não tem como permanecer sempre a mesma. Na real, tudo que a gente pratica vai se transformando com o passar dos tempos. Às vezes a gente pode não se dar conta, não perceber, mas eu acho que é constante, eu penso que no dia seguinte eu já não escrevo que nem hoje. No meu caso, uma coisa que eu consigo me lembrar de mudança significativa que aconteceu de uma hora para outra, uma mudança brusca, é o seguinte: quando eu desenvolvi interesse por escrever, eu fui estudar muito gramática e as construções formais da escrita e tal, e eu achava isso do caralho, escrevia muito voltado para isso. Eu tinha até uma visão de escrita bastante preconceituosa, eu achava que esse era o certo e que escrever de uma forma mais próxima do coloquial, da maneira como as pessoas conversam, é o errado. Era assim que eu via as coisas.

Isso mudou devido à tecnologia. Eu desenvolvo projetos no software por hobby e eu ensinei muita gente a programar, e teve uma época em que eu fiquei amigo de um cara da Bahia em um grupo de facebook, ele estava entrando no curso de Ciências da Computação.Esse cara tinha um orientador que era da linguística e ele pensou um projeto para construir um analisador sintático, que precisava unir os dois conhecimentos, tecnologia e gramática. Passou um tempo mesmo e um dia eu estava de bobeira, de noite assim, de madrugada, e vi que o cara estava online. Eu tinha mandado um texto para ele, para ver o que ele achava. Tinha passado tempo, mais de um ano. Perguntei do texto e conversamos a madrugada inteira sobre linguística, até então, repito, que eu tinha essa visão preconceituosa de que as coisas fora do padrão da escrita, da escrita tida como correta, eu via como errado. 

Nessa madrugada de conversa, ele tirou a venda dos meus olhos. Eu pensei, porra, eu vou ter que uma hora escrever dessa forma, vou ter que escrever assim, eu achei muito legal o ponto de vista que ele apresentou e eu não conseguia ter. Eu percebi que a minha visão das coisas era estreita, ele me mostrou uma visão mais ampla e isso aí foi uma virada na minha escrita. 

Eu acho que mesmo que a pessoa evite de falar de sua realidade, ela nem tem como fazer isso. Mesmo que seja essa a intenção dela, a experiência de vida dessa pessoa vai tá na escrita. Mesmo que eu escreva sobre um cara que foi para Marte, para uma colônia especial – eu nunca vivi nada disso, certamente, os meus personagens vão falar como alguém que eu conheça. Os tipos de piadas e de falas vão ser coisas que eu vi aqui, seja dos meus vizinhos seja da minha família. Seja do que eu consumo como arte, livros, filmes. Eu vou tirar de algum lugar e não tem como eu tirar de uma coisa que eu não vivi, sabe? Eu vejo as coisas assim, a gente não tem como evitar de botar a vivência no que a gente produz. 

Nonada – Gostaria que falasse um pouco sobre o teu processo de escrita. Você planeja antes de escrever, já sabe onde quer chegar? O que pode ser considerado um estopim para você começar a fazer um texto?

José Falero – Parece meio clichê dizer isso, mas uma obra nunca é igual a outra, mesmo sendo produzida pela mesma pessoa. Então, hoje em dia eu penso que isso é reflexo do seguinte, eu acho que cada obra tende a funcionar melhor construindo-se ela de uma diferente maneira. Eu já usei roteiro, por exemplo. Antes de começar a escrever o texto propriamente dito, eu escrevia primeiro os pontos fundamentais, início, meio e fim. E depois introduzia alguns pontos não tão elementares assim, mais acessórios, para ir dando uma recheada. Então, tem o início, o meio e o fim, e eu já sei como vai acabar essa história. E aí eu pego e vou lá, capítulo um, pego e desenvolvo isso num capítulo de fato, um capítulo robusto. Hoje em dia, o que eu penso é que em algumas histórias esse sistema vai se adequar melhor. Por outro lado, tem histórias que, por exemplo, eu sei como eu quero começar, mas eu não sei como eu quero terminar. E a própria escrita, a própria produção me suscita ali o caminho a seguir. 

Em outros casos, ainda, eu sei o fim, sei como quero o desfecho da história. E eu começo pelo desfecho. Escrevo ele. E fico pensando no que vem antes disso. Também já construí dessa forma. Dependendo das histórias, eu tenho que sentir isso, sabe? 

Eu sou um cara que gosta de produzir as coisas mais do que consumir. Eu gosto de música, por exemplo, então fui estudar música, aprender a tocar. E eu não consigo escutar música, não consigo ligar um rádio e escutar música. Eu escuto uma ou duas músicas e penso, putz, que foda essa harmonia, vou tentar tocar, vou tentar tirar de ouvido, e se não consigo vou na internet e pego as cifras, tentar tocar e tal. E daqui a pouco me dá vontade de compor e, então, começo a compor. Eu sou fascinado por produzir. Assim é com tudo. 

Por exemplo, cinema não foi uma coisa possível para mim de aprender a fazer. Imagina. Na minha infância, na adolescência, quando eu tinha mais tempo livre, nunca tive uma câmera para usar e tentar, mas se eu tivesse era mais uma coisa que eu ia tentar produzir. Por que eu estou dizendo isso? Porque das coisas que eu gosto de fazer, ao invés de consumir, eu notei uma coisa diferente na escrita, uma coisa que só a escrita me dá. Eu não suportaria trabalhar com desenho. Se tivessem que me dizer o que eu teria que desenhar, isso para mim ia ser um inferno. Eu já trabalhei com isso uma vez, eu ganhei um dinheiro fazendo um storyboard de um curta-metragem e foi horrível. Eu não queria fazer aquelas coisas e tu ter que fazer assim na obriga. Bah, é horrível. Mesma coisa acontece com programação, eu acho da hora programar computador, desde que eu possa pensar o projeto de software que eu quero fazer, o aplicativo que eu quero criar. Daí é uma maravilha. Mas, assim, eu já programei com as pessoas me demandando coisas, e é horrível. Não gosto, não me sentiria em paz ou realizado com isso. 

Considerando essas coisas, eu percebi que a escrita é minha paixão porque ela tem um lance muito louco, que é o gostar de escrever. Eu gosto muito de escrever, não importa. Se tu me falar para me escrever sobre qualquer coisa, para mim vai ser um prazer escrever sobre aquela coisa. Então, qualquer coisa pode virar um texto para mim. Aqueles momentos que eu não quero falar de nada, que não tem nenhum assunto gritando dentro de mim, meu, eu olho para as teias de aranha aqui da minha casa e eu posso escrever um texto. Eu vou achar gostoso de escrever. Vou achar os caminhos. Qualquer coisa mesmo, uma vivência minha, uma piada que a minha mãe me conte. A escrita tem essa característica de me seduzir, e eu vou indo e nem importa o motivo pelo qual eu comecei a fazer aquilo ali. 

Nonada – Sei que está escrevendo o seu primeiro romance agora. Quais os desafios e as principais diferenças em relação à escrita dos contos?

José Falero – Eu não acho que nenhum gênero literário é menor que o outro, essas paradas preconceituosas. Mas olha uma coisa. Eu me considero um romancista, porque eu sempre quis escrever romance – e nisso sempre fui muito consciente, desde a época em que eu era um escritor imaturo, que nem eu mesmo gostava do que eu escrevia  – eu já tinha muito claro que eu queria ser um romancista, escrever narrativas longas. Eu cheguei a essa conclusão de uma maneira bizarra. Outra coisa que eu gosto muito é de jogar e de produzir jogos de videogame. Eu percebi que tem alguns jogos no mundo dos jogos eletrônicos que me davam um prazer imediato. Pega um jogo de futebol, chama os amigos, o juiz apitou, já está sendo divertido jogar. Mas tu jogar um rpg por exemplo, um Final Fantasy, um Zelda, uns jogos que tem uma pegada mais de aventura, aí é o posto. A história começa, tu não sabe sequer o que tem que fazer, fica andando de um lado para o outro tentando descobrir. Não tem prazer. Por isso que algumas pessoas não gostam muito de jogar esses jogos, dependendo do jogo tu leva duas ou três horas para descobrir a primeira coisa a fazer. Aí tu descobre, isso te provoca um pequeno prazer, e assim vai indo. Nesse tipo de jogo, as coisas acontecem de maneira mais pausada. Daqui a pouco o cara está jogando há um mês, já avançou bastante na história, mas quando tu chega em determinado ponto desses jogos, a intensidade do prazer não se compara àquele prazer instantâneo de jogar um futebol, por ser algo que tem que ser construído com o tempo. 

Tenho pra mim que certas intensidades de prazer só se podem construir com tempo. Eu não acho que esse tempo caiba num conto, por exemplo. Eu acho que o conto tem outras particularidades, mas isso que estou falando acho que não é possível conseguir em um conto. Que é a coisa de a pessoa pegar, mesmo que seja aquela leitor ávido, vai ler e vai ser obrigado a continuar depois, e daí daqui a pouco ele já está dentro daquela história há alguns dias. Isso abre espaço para a construção do que considero especial, então sempre me vi como romancista e sempre escrevi romance. Eu escrevia contos só para experimentar coisas, mas a valer eu escrevia romance. Claro, quando eu terminava os romances, na maioria das vezes eu achava que não estava bom e jogava fora. Até que chegou um dia que eu acabei um romance, eu olhei e “porra!”. Gostei, acho que está legal. Então quando eu publiquei o Vila Sapo, que é um livro de contos, eu fiquei pensando nisso, nunca que eu ia imaginar que a minha estreia ia ser com um livro de contos. Gostei do processo e tal, mas fato é que quando eu publiquei esse livro, eu já tinha um romance pronto e outro pela metade. 

Aí tu pergunta quais são os desafios. Para mim, o desafio é escrever contos. Quando eu me vi trabalhando em contos que eu ia publicar, que foi o caso de Vila Sapo, aí eu encontrei dificuldades, justamente de perceber que as coisas não ia caber como eu concebia, justamente por estar familiarizado com este amplo espaço que a narrativa longa abre pra gente. Aí eu tive que fazer esse exercício de podar, que é algo que não estou acostumado a fazer. Vi que se eu colocasse tudo daqui a pouco não seria mais um conto, não só pela questão do tamanho, mas também por perder a linha central, já teria subtramas, perderia a característica de conto. Então tive que exercitar isso, sofrer a tentação de inserir coisas e ter que podar. 

Tem outra coisa, que era algo que eu achava difícil de fazer na construção do romance e na construção do conto eu achei mais tranquilo. Às vezes no romance eu ficava muito ansioso para trazer uma determinada informação, um determinado contexto no interior da história, gastar esse assunto. Aí por exemplo tu está escrevendo um capítulo do romance, e aí tu extrapola tanto, gasta tanto aquele assunto que ele destoa dos outros. E aí com o tempo, amadurecendo a escrita, eu percebi que não preciso fazer isso. É justamente para isso esse espaço amplo do romance, dar uma pincelada no assunto, daqui a pouco tu volta, aí em capítulos mais adiante, pode dar mais uma pincelada naquele assunto que tu deixou pra trás. Teve um tempo que isso para mim era muito difícil, minha ansiedade me levava a botar tudo na primeira oportunidade. No conto, essa é uma questão mais tranquila. Como o espaço que temos para desenvolver é menor, realmente é uma questão de cortar fora. E o que ficar eu me permito ir colocando logo, porque afinal de contas o espaço não é tão amplo. No romance, se tu vomitar tudo que puder na primeira oportunidade, daqui a pouco os outros espaços do romance vão ficar vazios. No conto, esse perigo é menor, porque tu vai colocando as coisas e elas naturalmente vão preenchendo o conto.

Nonada – A seu ver como a literatura feita aqui no Rio Grande do Sul representa pessoas na periferia?

José Falero – Eu não sou a pessoa mais indicada para tu me fazer essa pergunta…Não li um monte de livros, não sou um grande conhecedor da literatura internacional, nem nacional, não sou um grande conhecedor da literatura do Rio Grande do Sul. O que eu conheço são coisas específicas. Eu conheço produção literária daqui que fazem uma retratação bem bacana da periferia, conheço obras nacionais que trazem um retrato, coisas específicas. Agora, a literatura, esse conjunto das obras literárias produzidas em um determinado lugar ela geralmente não representa a periferia, no Brasil todo. Não é só uma questão literária, isso é uma coisa que é refletida na música, no teatro, no cinema, na televisão, em todas as formas de expressões imagináveis, isso acaba sendo refletido. E nas raras ocasiões em que ela aparece representada é de uma maneira extremamente estereotipada. 

Nonada – Como está sendo a recepção dos leitores? Chegou nas escolas? E o que mudou para ti depois da publicação de Vila Sapo? 

José Falero – A recepção está sendo legal, o livro chegou nas escolas, muito professor comprou esse livro, e muitos eu doei para algumas escolas. As pessoas têm gostado do livro, mas o que me chama mais a atenção é que as pessoas que curtem o livro são diversificadas. Teve gente que achou o livro legal e que é muito envolvida com literatura, tipo um acadêmico que é super envolvido com as coisas da literatura e achou legal o meu trabalho. Tem um camarada meu aqui, por exemplo, que ele não tem o hábito da leitura, e a esposa dele tem. Ela comprou o livro e penso que, como é um amigo que escreveu, como as histórias são daqui, pode ser que ele curta e desenvolva o interesse pela leitura. O cara leu e gostou e veio falar comigo. “E aí muito foda os lances que tu escreveu, li tudo bem ligeirinho”. Eu me lembro que até um dos textos do livro, que é o “Otário com sorte”, o último conto. Eu postei ele no Facebook também, e uma das coisas que eu nunca vou esquecer é o comentário de um outro camarada meu: “eu nem sou de ler esses textões, mas comecei a ler esse teu aí e o cara não consegue parar de ler”. 

Muita coisa mudou para mim mesmo. Muitas portas se abriram, eu comecei a trabalhar na Matinal muito relacionado a isso, comecei a escrever para a Parêntese, e não teria chegado a isso sem ter publicado o livro. As próprias visitas a escolas, convites para saraus, que eu participei, que é uma coisa muito foda, convites de editoras para publicar. Eu tive um período (risos), que eu fazia muita merda, mandava email para tudo que era editora. eu ficava sabendo que o cara era editor e mandava mensagem inbox para o cara no Facebook. Desesperado, querendo publicar o livro. Eu gosto muito da ideia de tentativa e erro. Tentar e erro. Até a gente ver o que dá. E eu precisava aprender a entrar em contato com essas pessoas, porque eu era um zero à esquerda nisso. Nunca tinha feito nada disso. 

Essa é uma das coisas que mudou com a publicação do Vila Sapo. As editoras agora me procuram para publicar coisas. Eu sempre fui um cara muito desorganizado, ainda sou. Mas a rotina nova na qual eu entrei, depois que eu publiquei o livro, tá forçando a me organizar, porque senão eu vou ser engolido pelo caos. Eu tenho que ir nos Correios entregar os livros, tenho que atualizar planilha, quem pagou o livro, quem não pagou o livro, tem que ver quais livros voltaram, entrar em contato com a pessoa, pra dizer que voltou, pra avisar que vai demorar um pouco mais. Mandar o código de rastreio para as pessoas. Aí no meio disso tem o texto que eu tenho que escrever para a Parêntese, tu querendo trocar essa ideia. Muita coisa mudou, eu conheci muita gente não só do rolê literário, mas professores, do teatro, eu conheci uma pá de gente. Eu tive contato com uma série de discussões que eu nunca – lá uma vez e outra – eu vi alguém falar sobre aquilo e agora eu às vezes me vejo inserido no meio dessas discussões. Muita coisa mudou. 

Nonada – O que você anda lendo atualmente? O que um livro tem que ter para te motivar a ler? 

José Falero – Eu tenho procurado fazer um resgaste nas coisas que eu leio. Tu tá ligado que existe uma literatura que é silenciada, né? Literatura negra, literatura periférica. Quando comecei a ler e embarquei no mundo dos livros, eu não refletia sobre nada das coisas que eu reflito hoje em dia, eu estava bem alheio a uma série de questões. Os personagens que eu lia não eram parecidos comigo, não falavam como eu, não viviam coisas parecidas com as que eu vivia, não tinham problemas parecidos com o que eu tenho, não tinham anseios parecidos com os que são possíveis para mim. Então, era uma literatura que não me representava de modo algum, sabe. Não contemplava a minha forma de existir no mundo. Hoje em dia, eu fico pensando como é que eu dei conta de gostar de literatura. Inclusive, a gente reclama que no Brasil tem pouco leitor, e acho que passa por essa questão. O que é tido como literatura, a “verdadeira literatura”, pelas pessoas que decidem o que é literatura e o que não é, é totalmente descolado da realidade do povo brasileiro. Como é que tu quer que as pessoas vão ler assim? Eu sempre faço questão de falar sobre isso. Tem os personagens que estão em crise existencial e viajam para Paris e lá acontecem umas tramas absolutamente absurdas. Quando tu compara com o que vive o povo brasileiro, as pessoas não se enxergam nessa literatura, elas não se veem nessa literatura tida como de verdade no Brasil. E felizmente as coisas agora estão mudando. Eu creio que a tendência é de haver uma adesão maior dos brasileiros pelos livros, eles se verem ali. O cara que pega o ônibus e que às vezes não tem o dinheiro para a passagem, o ônibus lotado, que vai para o trabalho, que é cansativo, que o salário não é tão grande assim. Estou procurando ler coisas que tenham a ver comigo, com a minha família, com a minha história, do meu povo, dos meus vizinhos, pessoas que fazem parte da minha realidade. 

Mas eu só não tenho tido muito tempo de ler quanto eu gostaria. Um livro cai na minha mão, às vezes eu tô lendo e considero o livro muito ruim, mas mesmo assim, leio até o fim, porque o ato de ler é muito prazeroso para mim, sabe. Se a construção literária não me agrada é outra questão, mas o ato de ler é uma coisa eu eu gosto muito assim. Então, eu leio de tudo mesmo. E eu nunca abandono uma leitura e é um ato que eu não me arrependo, porque tem coisas que, assim, olha, eu achei muito ruim até um bom pedaço, e que depois de um determinado ponto, sabe, determinados elementos que surgem naquela narrativa acabam deixando tudo fazer sentido. 

Nonada – E o que tu anda escutando? A música te influencia a escrever também?

José Falero – Eu escuto de tudo, mas também como a leitura, eu também não tenho tido tempo de escutar música o tanto quanto eu gostaria. Escutar música para mim é sinônimo de tocar, se eu botar para escutar eu vou tocar junto, não consigo simplesmente escutar, mas eu não tenho tido tempo de fazer esses lances também. Eu vejo músicas que eu escuto no que eu escrevo. Mas tudo me influencia a escrever, filmes, séries que eu assisto, histórias que me contaram por aí, e às vezes eu nem lembro quem me contou. Coisas que eu imaginei no meu dia a dia. Circunstâncias. Eu vejo elas surgirem nos meus textos. Acredito que cada uma das nossas experiências apareçam no nosso texto. Então sim, as músicas influenciam na minha escrita, os filmes, as conversas, as pessoas que eu conheço, o fato de eu ter voltado a estudar, o futebol…

Nonada – Vivemos tempos complicados para a cultura, com discurso conservador no poder em termos de governo, principalmente. Como você vê o papel da literatura e do escritor nesses tempos? 

José Falero – Para mim é complicado dizer coisas tipo a “arte serve para isso ou para aquilo”. Mas, dentre as coisas que são possíveis de se fazer com a arte, eu tenho para mim que a possibilidade mais importante da escrita é o lance da expressão, expressar os seus sentimentos, os teus desejos, as tuas frustrações, as tuas tristezas, as tuas alegrias, a tua visão de mundo. Nesse contexto que a gente está vivendo, do discurso conservador no poder, eu tenho para mim que as pessoas com o mínimo de senso crítico, artistas ou não, têm que estar indignadas com tudo que tá acontecendo. Eu não diria assim que a função da escrita e da arte ou do escritor, ou do artista que for, seja fazer isso ou aquilo, mas é o tipo de coisa que eu espero que aconteça de maneira espontânea. Como resultado de as pessoas expressarem a sua visão de mundo, eu acredito que de uma maneira espontânea deva aparecer essa insatisfação e essa indignação com o estado das coisas. 

Nonada – Como você avalia o ambiente de incentivo a arte feita em periferia, fora dos centros? Os grandes festivais literários, como a FLIP, cada vez mais abrem espaço e trazem autores.

José Falero – A gente tem feito muitos progressos em muitos campos, mesmo quando a gente não fala de arte, claro antes desse pau no cu aí assumir o poder, a gente tinha feito uma série de avanços. Do meu ponto de vista parece ser tudo meio insuficiente, inclusive, no campo das artes, e também mais especificamente nas coisas da escrita. É muito legal que tenha cada vez mais espaço para a galera da periferia, claro que é muito legal, mas está longe de ser o suficiente. Eu acho muito pouco. Isso me faz tomar consciência de que as transformações sociais são mesmo muito vagarosas. Eu não vejo boas perspectivas para mim, talvez para as pessoas que vierem depois. E quando eu digo para mim, não estou falando como indivíduo, mas na coletividade a qual eu pertenço. 

Esses dias eu tava até pensando, o mundo é muito grande, muito grande, eu tô aqui no Pinheiro e eu conheço a rapaziada que mora do outro lado da rua. Daí eu subo a lomba e conheço a rapaziada que mora lá em cima. Avanço mais um pouco, atravesso a estrada que está aqui e já não vejo nenhum rosto conhecido. Eu andei só alguns minutos e já estou vendo pessoas que nunca vi na minha vida, que não sei o nome, que eu não sei nada. Imagina se eu andar pela cidade, se eu andar pelo estado, se eu andar pelo País. Agora que eu estou começando a me me inserir no meio literário e começo a conhecer gente que já foi em evento fora daqui. E o que é muito bizarro é o seguinte: essas pessoas já ouviram falar de mim e eu já ouvi falar delas, a gente tem amigos em comum. Então, tu vai entrando nesse mundo da Literatura e tu vai percebendo que é uma panela, uma bolhinha. Isso é um sintoma de que vão mal as coisas e de que precisaria de transformações radicais. O que eu acharia legal? Acharia chegar num bagulho e ninguém saber quem eu sou, chegar no evento e eu conhecer ninguém, ninguém se conhecer, de tanta gente que produz literatura. Isso passa por ter muito leitor, não ter centralização do poder, passa por questões das livrarias, das editoras, tem que ter várias pequenas, pelo país todo. O mundo é gigantesco, irmão. Ele é muito grande, e tem muita gente aí que a gente não conhece, produzindo coisa foda pra caralho que talvez ninguém nunca tenha ouvido falar. O cara pode guardar os bagulhos na gaveta e até desistiu de publicar, porque tentou e não conseguiu. Isso é triste para caralho. A gente tem potencial, a gente enquanto cidade, estado, país. A gente tem potencial para ter muito mais do que a gente tem agora. A gente tem uma cena muito mais efervescente, muito mais viva, muito mais pulsante, e acho que seria por aí o caminho, descentralizar as paradas. 

Nonada – E aqui no Rio Grande do Sul, há espaço para uma literatura mais independente dentro dos espaços tradicionais?

José Falero – em algumas coisas que eu não me sinto tão confortável pra responder, porque eu não sou conhecedor. O que eu posso dizer é só um palpite de modo geral no país todo não tem muito espaço para literatura independente. Especificando aqui no Rio Grande do Sul, primeiro que é bem difícil para mim falar sobre o RS, porque eu nunca saí de Porto Alegre com intenções e objetivos literários. Eu circulo só aqui. Mesmo aqui em Porto Alegre é difícil opinar porque é tudo muito recente, faz só um ano que eu lancei o livro. O que eu posso te dizer é o seguinte: foi muito difícil para mim, levou muito tempo para eu conseguir publicar meu livro. Eu tentei de tudo, tentei entrar em contato com todo mundo. A primeira oportunidade que eu tive foi da Karine, da editora Venas Abiertas, de Belo Horizonte. Mas mesmo lá eu acredito que não sejam tão abertos os espaços. Mas lá tem essa iniciativa da Karine, que é um puta trabalho, um super trabalho de inclusão, de trazer as pessoas. E eu acabei sendo uma dessas pessoas que foi incluída na cena. Vou ser eternamente grato à Venas Abiertas por ter me jogado na cena. 

Nonada – Para você, o que seria uma literatura antirracista?

José Falero – Não tenho propriedade pra tratar esses temas, essas questões são questões que eu reflito sobre elas, mas não faz muito tempo. Eu tenho entrado em contato com muita gente muito foda, gente que conhece a fundo essas questões. Então eu não me sinto com propriedade, mas eu vou te dar a resposta da minha perspectiva. Ano passado eu fui num evento da Feira do Livro para tratar de práticas pedagógicas antirracistas. A galera que estava lá na maioria era professor e a gente estava lá trocando uma ideia sobre esta questão. E aí eu disse um bagulho que, na época, era um pensamento que fazia sentido para mim, e hoje ainda é. Não sei se vai fazer sentido para ti. Eu falei o seguinte: todo mundo conhece aquela analogia daquela coisa da prática e do discurso. O que tu mais vê na quebrada, na periferia, é criança que não quer saber da escola, que quer sair da escola e que às vezes até sai. Claro, isso passa por uma série de questões, não é um único fator que vai definir isso, mas um deles eu acredito que seja o seguinte (e inclusive já fizeram pesquisas sobre isso): essas crianças que muitas vezes abandonam o colégio, os pais deles dizem que elas tem que ir, mas muitas vezes é só discurso. Essas crianças não cresceram vendo os próprios pais estudarem. Os estudos mostram que em ambientes em que os pais estudam é muito maior a probabilidade de não haver evasão escolar, porque as crianças estão vendo. 

Eu trago essa analogia para falar o seguinte: é claro que o discurso tem toda sua importância, mas de maneira efetiva ele vai contribuir muito pouco para a prática antirracista. E o que seriam essas práticas? É tu ter um professor preto ali. Não é o discurso. Não é ter 30 professores na escola, todos brancos, dizendo que o racismo está errado. Que vergonha isso. Tem que ter professor preto. A sala de aula é uma relação de poder. Quem tem o poder é o professor, e as crianças pretas têm que chegar ali e ver que o professor é preto também. Isso passa por tudo e vai chegar também na literatura, consumo, maquinário, produção. Tu tem que ter editor preto, tem que ter escritor preto. Não é um branco ir lá e dizer isso ou aquilo. As pessoas pretas têm que estar presentes, têm que estar inseridas no contexto, trazer suas vivências, suas experiências de mundo. Não estou negando a importância do discurso, tanto que tem o presidente da Fundação Palmares, que é preto e tem um discurso que não é muito legal. Claro que determinados discursos são mais lúcidos que outros. Mas é fundamental as pessoas ocuparem espaços de poder isso é a produção da literatura antirracista.

Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras. Twitter: @rafaelgloria
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