Andressa Marques
Foto: Pretana (@_pretana) recitando poesia em Slam RS (Foto: Andressa Marques)

São 18h de um domingo. Aos poucos, uma roda de pessoas se forma e, a céu aberto, ecoa um grito: “Poesia salva vidas!”

E foi entre becos e vielas

Viaturas e celas

Que vi vários Nelson morrer sem ter a oportunidade de se tornar Mandela

Então nos meus, ninguém rela

Porque eu posso ter a graça do Carlos de Nóbrega mas não queiram me ver Carlos Marighella”

E com o poema de Barth, se inicia mais um Slam, uma competição de poesia falada que traz questões raciais, sociais e políticas para debate. Cada poeta, com sua singularidade, faz da roda o palco, da voz, o microfone e recita pelas ruas aquilo que já não cabe mais na folha de caderno ou no bloco de notas do celular.

Se engana quem diz que a poesia no Rio Grande do Sul é marcada apenas por Mario Quintana, Caio Fernando Abreu ou Luiz Fernando Verissimo. Poesia Marginal ou Literatura Periférica são termos usados à poesia que ressoa tanto no centro quanto nos becos e vielas de Porto Alegre. Entretanto, é preciso legitimar essas novas vozes.

“A gente tem uma idealização da poesia e do poeta de algo como se fosse tudo bonitinho nas suas estrofes, a idealização do Mario Quintana. Agora a gente meio que tá construindo uma nova geração pra poesia”, diz Zé Cruz, poeta e organizador do Slam do Trago e do Slam da Beira. O primeiro acontece no Bar da Carla, local reconhecido por ser de resistência negra, e o segundo, na Beira de ipanema, na zona sul de Porto Alegre.

A desvalorização da poesia marginal no Rio Grande do Sul fez com que os coletivos só fossem criados a partir de 2017, enquanto, em outros estados, os Slams foram estruturados por volta de 2010. Uma vez que a periferia passa a reivindicar seu espaço, a busca por autonomia e reconhecimento como qualquer outro poeta, escritor ou artista cresce. “Não adianta só algumas pessoas terem esse acesso e conseguir isso e não ser algo mais coletivo de tá proporcionando a abertura de novos pontos de vista”, diz Bruno Negrão, poeta e organizador.

A poeta Cristal Rocha, que em 2017, foi campeã da Final Regional de Slam — Rio Grande do Sul com apenas 17 anos, e fez sua poesia presente no programa Manos e Minas, da TVE e no TEDxLaçador — pontua que, ser poeta preto é difícil, porque o trabalho não é nem reconhecido nos estados sulistas, ainda mais quando se faz alguma coisa para revidar e simplesmente existir. “A gente não tem nada registrado, tudo o que é nosso e o que a gente vive é apagado, a gente é apagado”, completa Cristal.

A alternativa que os coletivos encontraram de registrar o que é feito nesses eventos é a de divulgação própria em redes como Facebook, InstagramYoutube e com a venda de zines, camisetas e cartazes.

Poesia salva vidas! Slam da Tinga!

Um estudo da Universidade de Brasília (UNB) sobre Saúde Mental e Racismo Contra Negros, comprova que a depressão é um dos efeitos colaterais mais presentes na população negra por ser diretamente afetada pelo racismo estrutural. “Além de morrer com 80 tiros ‘enganado’, a gente tá morrendo de depressão”, afirma Barth, que ressalta a questão de que salvar vidas não é só tirar do crime, mas também levantar a autoestima do preto.

“A gente tem que criar uma estratégia pra se autoproteger. Quando a gente recita, a gente vira um para-choque de negatividade. Ser poeta aqui é difícil, mas é o nosso único refúgio”, diz Dickel, poeta e MC. Slam RS, Slam das Minas, Slam do Trago, Slam da Beira, Slam Peleia, Slam do Gozo, Slam Chamego e Slams específicos de bairros são onde poetas e o público podem encontrar seu refúgio.

Largo Zumbi dos Palmares

Aqui resisti

Fazendo emboscada

A aqueles que só traziam os males

Hoje (r)existo

Com poesia

Poesia armada” — Nego Zé

A pesquisadora Cynthia Agra de Brito Neves, formada em Letras e Doutora em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em seu artigo Linha D’água, diz que o slam é um grito que traz uma atitude de “reexistência”, termo criado com a fusão das palavras existência e resistência. “Slam é uma expressão inglesa cujo significado se assemelha ao som de uma batida, algo próximo ao nosso ‘pá!’, na língua portuguesa”, afirma.

Que em meio a luta difícil é esquecer a dor

Em 3 minutos não caberia o que um preto passa na vida

Se eu incomodo

Tá dando certo,

É pra nossa dor não passa batida

Prazer,

Da Rocha, um Cristal que veio tocar na sua ferida” — Cristal Rocha

Abaixa a guarda e abre o peito! Slam Chamego!

Em meio a tantas falas que revidam o sistema, um Slam em especial tem a proposta de levar amor, afetividade e cuidado para rua em forma de poesia. Nascido em 2017, o Slam Chamego, que frequentemente ocorre no Largo Zumbi dos Palmares, tem o objetivo de falar sobre amor, desamor e erotismo. Poeta, fotógrafo, artista e organizador do coletivo Afrovulto explica a importância de falar disso no contexto atual“Pessoas negras sempre são vistas como um corpo fetichizado e nunca como um corpo que sabe amar e isso que é importante no Slam Chamego, ver corpos pretos falando de afetividade”, afirma.

E qual a propósito de fazer os eventos? Para alguns, é atingir o número maior de pessoas. “Quero que o máximo de pessoas fique sabendo que a poesia marginal tá rolando. Não importa se tu vai mandar um papo lá da quebrada ou um papo de amor, tudo é importante”, diz Nego Zé. Para Barth, a intenção ao recitar é de ensinamento para quem não teve oportunidades. “Mostrar pro pobre, preto e periférico que existe outro caminho, que não precisa tá no tráfico pra ter uma corrente de ouro, pra ter um tênis legal”, afirma.

Bruna, poeta e organizadora do Slam RS, conta que, inicialmente, a intenção era de trazer poetas e dar voz para as pessoas e para as ruas. E, consequentemente, isso também tomou outras proporções: “Deu super certo, a gente já conseguiu levar o Slam pra outros lugares, levamos em escolas e pra Fase”.

O objetivo final dos Slams é minimamente, se fazer ouvir. “A nossa palavra nada mais é que a arma mais eficiente que a gente tem, eu tive noção do que é a palavra através da poesia”, diz Dickel. Bruno Negrão, que já representou o Rio Grande do Sul na Feira Literária das Periferias (FLUP), campeão do Slam Peleia e Slam RS, participou do programa Manos e Minas, da TVE com o poema E Se Jesus Fosse Preto, que hoje conta com mais de 100 mil visualizações no Youtube. Com 2000 cópias vendidas, seu livro de mesmo nome, defende que os eventos têm a intenção de fazer um encontro literário que valorize uma poesia periférica, não só geograficamente, mas de reconhecer uma literatura que sequer tem uma editora independente para uma forma de escrita comercial.

Afrovulto também é organizador do Encontro Literário nas Periferias (Elipa), um coletivo independente e autônomo que procura dar assistência para as crianças e pessoas de periferia, gerando debates e criando uma nova narrativa pra poesia imposta no currículo escolar. Levar esse contraponto faz com que crianças desde cedo pratiquem o exercício da reflexão e da autocrítica. “É botar as pessoas da quebrada em contato com algo que talvez elas não teriam contato porque não é dado tão cedo, não chega na periferia”, afirma Afrovulto.

Além de um acontecimento poético, um movimento social, cultural e artístico surge no Rio Grande do Sul, Mario Quintana pode até estar nas paredes de uma Casa de Cultura, mas o que ressoa hoje no local é a poesia marginal.

E se Jesus fosse preto?
Desses que não tem medo
Que querem que todos escutem sua voz
Mesmo que isso gere algum algoz
E a sina desses muleke tipo nóiz,
É morrer
Cedo.

Ei meu, ei meu
Mas será que Jesus não era mesmo preto? Eu tô achando…
Preto igual o rock, igual Machado de Assis, Luiz Gama e outros tantos
Bom, aí mesmo se ele fosse preto,
Pra vender a sua imagem e ser aceito
Iam ter que dizer que ele era Branco. — Bruno Negrão.

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