Lucas Tillwitz*
Foto – Itaú Cultural/divulgação

Bristol, Inglaterra, 7 de junho de 2020. Em meio a diversos punhos erguidos, uma estátua de bronze tingida de vermelho vai ao chão, para gozo de seus detratores. No entanto, a figura apenas encontraria um fim à sua malhação ao ser mergulhada nas águas do principal rio da cidade inglesa, longe de qualquer olhar ou de qualquer reverência.

Na esteira dos recentes protestos mundiais antirracistas seguintes ao assassinato do estadunidense George Floyd, em Mineápolis, a derrubada de uma estátua do mercador, filantropo e escravocrata inglês Edward Colston, em Bristol, fez ressurgir o debate acerca das manifestações sobre monumentos, sobretudo aqueles que celebram personalidades racistas.

Porém, se a deposição da estátua é novidade, a controvérsia em torno dela não é. Segundo a geógrafa Christine Chivallon, os primeiros protestos em relação à obra datam de 1998, após vir a público a principal origem da fortuna que financiou a construção de hospitais e escolas em Bristol. Alguns estudos apontam que quase 85 mil africanos foram raptados durante o período de doze anos (1680–1692) em que Colston ficou à frente da Royal African Company, principal companhia de tráfico de pessoas escravizadas do emergente Império Britânico do século XVII. Desses, cerca de 20 mil morreram durante as viagens pelo Atlântico.

No Brasil, são diversas as obras controversas. Possivelmente a mais conhecida seja o Monumento às Bandeiras, na cidade de São Paulo, por alguns considerada uma alienação à violência infligida pelos bandeirantes a negros e indígenas durante o período colonial.

Em 2019, a animosidade em torno da obra em tributo aos sertanistas se tornou assunto nacional quando a Sapucaí recebeu uma Mangueira crítica a figuras consideradas heróis brasileiros. Um dos carros alegóricos da “verde e rosa” desfilou pelo sambódromo uma réplica dourada do monumento, e sob ela uma estrutura avermelhada composta por representações de corpos indígenas e placas com palavras como “mulheres”, “tamoios” e “tupinambás”. Nos corpos dos dourados bandeirantes, em letras também rubras, “ladrões” e “assassinos”.

Fato é que as intervenções em monumentos nos mobilizam. Nos fazem pensar acerca da utilização do espaço público, a respeito da influência dos monumentos na formação da memória, quanto à centralidade dessas obras na construção de simbologias. 

Para refletir sobre esses e outros aspectos, conversamos com Renata Felinto, doutora em Artes Visuais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e professora de Teoria da Arte na Universidade Regional do Cariri (Urca). A pesquisadora e artista visual também está presente na Bienal 12, que acontece exclusivamente online devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Nonada – Renata, qual é a importância dos monumentos na formação da memória?

Renata Felinto – No Brasil, fantasiamos parte da história, porque as informações nos livros escolares muitas vezes são manipuladas de forma que o opressor seja entendido como herói, caso dos bandeirantes. Os monumentos auxiliam na formação do nosso sentimento de coletividade por estarmos conectados a uma história comum. São eles que também imprimem parte das identidades de uma cidade, de um estado, de um país, nos informando sobre a história, cultura e “personalidade” de um povo. Dessa forma, quando temos tantos monumentos históricos que enaltecem acontecimentos e personagens que hoje sabemos que devem ser lidos pela chave da dominação, do genocídio e da opressão, entendemos porque instituições como a Polícia Militar de São Paulo, continuam tão aceitas pelo Estado, ainda que diversos órgãos internacionais, como a ONU, tenham recomendado sua extinção. No caso brasileiro, muitos monumentos históricos representam a memória e as conquistas, ainda que usurpadas, de uma determinada classe social que está nos lugares de poder por força bélica.

Nonada – É possível excluir o aspecto celebratório de uma estátua que reverencia algo ou alguém?

Renata Felinto – Um monumento que remeta a um acontecimento ou a um personagem possui caráter de marco e está propositalmente inserido na paisagem pública para ser visto. Assim, o caráter celebratório de um objeto de arte ou construção só pode ser modificado a partir da anexação de muita informação a esse monumento ou estátua. A partir do revisionismo em curso é possível que novos elementos confiram outras compreensões.

Nonada – Mas muitos afirmam que as intervenções não têm praticidade pois agiriam sobre um passado imutável…

Renata Felinto – O passado é imutável, mas é de nossa responsabilidade as significações que atribuímos a esses monumentos em espaço público. Se o espaço é público, então deveria haver consenso entre os cidadãos de que aquele momento histórico ou aquela personalidade é referencial para a nossa sociedade a ponto de ser lembrada e reverenciada. Do contrário, no caso de um monumento cujos motivos de edificação não são mais aceitáveis devido a um revisionismo, podemos ressignificá-lo no sentido de informar quem o vê a que ele se refere. Um exemplo é o Memorial da Resistência de São Paulo, que antigamente fez parte do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, um local onde ocorreram prisões arbitrárias, torturas e assassinatos.

Eu divirjo da opinião de que todos esses monumentos ou construções devam ser destruídos, como foi o caso do Carandiru. À época, a decisão foi destruir os pavilhões e transformar a região em um grande parque. Hoje, quem passa por ali não imagina que o Presídio Carandiru esteve naquela região. Gerações atuais, mais jovens, não têm nenhuma referência de que houve uma rebelião, de que tantas pessoas foram mortas ou de que o presídio foi demolido. Os erros do Estado acabam sendo omitidos dessa forma. A permanência de alguns monumentos ou de algumas construções é fundamental.

Nonada – O espaço público é expressão de um pensamento hegemônico? Como as artes visuais pensam o espaço público?

Renata Felinto – O espaço público como lugar de apresentação de monumentos históricos e de arte é sim um espaço de exercício de poder. Quem pode erigir uma estátua de 10 metros homenageando alguém? No entanto, nas artes visuais, existe também a subversão do uso desse espaço, por meio do grafite, do pixo, dos stickers, dos lambes, de performances e de diversas outras formas, que acabam por realizar uma crítica à memória seletiva. Quantas homenagens nas ruas vemos a personalidades que estão fora dos livros de história? Inúmeras.

Nonada – As estátuas intervidas devem ser restauradas? São elas, as intervenções, também história?

Renata Felinto – As estátuas que sofreram intervenções assim devem permanecer. Há registros dessas obras antes de serem interferidas. Poucas vezes se consulta a população para despender recursos públicos na edificação de um monumento, então se a população interfere nesse objeto de forma a dizer que não coaduna com essa homenagem, que essa personalidade não representa a luta do povo, assim essa obra deve permanecer. É preciso, para isso, investir em educação patrimonial também, para se entender que a cidade não pode ser abandonada como ela é, de que o espaço público é nosso. Se a população decide que a intervenção é uma demarcação significativa, isso precisa ser respeitado. 

Nonada – As intervenções são a única maneira de lidar com esses monumentos?

Renata Felinto – Elaborar placas informativas duráveis e visíveis com as informações sobre os monumentos é fundamental. Não basta o nome, temos que saber quem foi aquela pessoa, o que representa aquele conjunto. São medidas de educação patrimonial inclusive conectadas ao turismo. Mas é preciso vontade política para discutir como esses monumentos podem ser preservados para serem ressignificados. Se uma população não participa das decisões políticas, ela não tem como decidir sobre os monumentos que considera fundamentais de existirem.

Nonada – É importante que mais pessoas negras sejam celebradas ou rememoradas através de monumentos?

Renata Felinto – Sim, são precisos muitos monumentos que reverenciem a história brasileira considerando a participação dos povos originários e africanos e afrodescendentes. 

No caso do Monumento às Bandeiras, é importante frisar o jogo dual que o Estado faz, de mostrar um lado da história e não mostrar outros. Ao mesmo tempo que os bandeirantes são considerados importantes sob a perspectiva da dominação de territórios, é preciso também informar a partir de quais meios esses bandeirantes conseguiram expandir esses territórios. Esses mesmos bandeirantes foram responsáveis pela destruição de empreendimentos importantes, que são marcos para a população africana e afrodescendente, como é o caso do Quilombo dos Palmares, o maior das Américas. O Quilombo tem um memorial na Serra da Barriga, em Alagoas, no entanto, poderia haver vários outros memoriais e monumentos espalhados pelo Brasil tamanha a sua magnitude.

É preciso contar a história a partir de outros pontos de vista. O grande problema é que os monumentos usualmente representam apenas uma única história, como diz a escritora Chimamanda Ngozi Adichie. É uma história de uma voz eurocêntrica, branca e heteronormativa, que não permite que outras vozes discordem de sua narrativa e mostrem outras formas de escrita da história do Brasil.

Iconoclastia contemporânea 

Ainda que emblemática, a deposição da estátua de Colston é apenas um episódio em uma série de disputas por passados ainda presentes. Naquele mesmo domingo, em Bruxelas, na Bélgica, manifestantes bradaram “reparação” diante de um monumento do Rei Leopoldo II da Bélgica, soberano de 1865 até sua morte, em 1909. Nas mãos dos ativistas, uma bandeira da República Democrática do Congo. A região, hoje um país semipresidencialista, já foi parte de um reino particular do monarca, cuja administração foi responsável pela morte e mutilação de milhões das pessoas daquele território entre 1885 e 1908.

Anteriormente, no dia 4 de junho, na cidade belga de Antuérpia, uma estátua do antigo governante foi pichada e queimada por milhares de manifestantes. O prefeito da cidade, Bart De Wever, afirmou que a renomeação de ruas e prédios e a mudança de monumentos para museus “são opções legítimas se a pessoa homenageada agiu de forma questionável”.

Nos Estados Unidos, o mais famoso dos casos recentes de monumentos que reverenciam personagens racistas é uma homenagem em Charlottesville, Virgínia, ao militar Robert E. Lee, um dos principais comandantes do lado confederado da Guerra Civil Americana, ocorrida no século XIX. Em 2017, a pequena cidade ganhou notoriedade mundial ao ser palco de uma infame marcha de supremacistas brancos, cujo marco inicial foi a recusa à remoção da estátua de Lee. No dia 4 deste mês, o governador do estado, Ralph Northam, anunciou a remoção do monumento.

“O legado do racismo não continua apenas em instâncias isoladas, como vimos em Mineápolis, alguns dias atrás. O legado do racismo também continua como parte de um sistema que inclui todas as pessoas e todos os aspectos de nossas vidas, quer saibamos ou não”, disse o governador, em coletiva à imprensa.

“Símbolos também importam, e o estado nunca quis lidar com os seus. Até agora. Hoje, a Virgínia abriga mais comemorações confederadas do que qualquer outro estado. Isso porque, gerações atrás, a Virgínia escolheu advogar pela divisão ao invés de celebrar a unidade. Você verá isso se der uma volta pelo estado e por nossa capital. A estátua de Robert E. Lee é o mais proeminente (desses símbolos)”, continuou.

Em 2017, poucos dias após o auge da tensão em Charlottesville, o presidente Donald Trump se manifestou sobre as tentativas de remoção dos monumentos confederados. “Triste ver a história e a cultura de nosso incrível país serem rasgadas com a remoção de nossas belas estátuas e monumentos. Você não pode mudar a história, mas você pode aprender a partir dela. Robert E. Lee, Stonewall Jackson — quem é o próximo, Washington, Jefferson? Quanta tolice! Além disso, a beleza que está sendo tomada de nossas cidades, vilas e parques será enormemente sentida e jamais preenchida à altura!”

 

*Lucas Tillwitz é estudante de Jornalismo na UFRGS. Suas palavras ninguém lhe tira. Linkedin. Medium.