Rafael Gloria

Foto: Carlos Macedo/divulgação

O escritor Jeferson Tenório está lançando o “O Avesso da Pele”, seu mais novo romance pela editora Companhia das Letras. Trata-se de uma história de um filho reconstituindo a vida do pai, mas a partir desta aparentemente simples sinopse diversas discussões sobre identidade, afetividades,  relações raciais, violência e negritude são abordadas.

Autor também de outros dois grandes livros, “O Beijo na Parede” (Sulina) e “Estela Sem Deus” (Zouk), Tenório concedeu uma entrevista para falar sobre o processo de sua escrita, a cidade de Porto Alegre e questões relativas à literatura. Confira a entrevista e a seguir leia uma resenha sobre a obra. 

Nonada – Como foi o trabalho de construção narrador? Eu achei muito interessante a escolha da segunda pessoa, do vocativo, o que suscita talvez uma maior empatia, e reforça uma ideia de narrativa de memória também

Jeferson – O livro todo começou com essa ideia de fazer ele em segunda pessoa, mas aí eu vi que poderia cair em uma estrutura muito repetitiva, porque esse pronome “você” tem que ser dosado para que o leitor não fique incomodado com excesso. E o “você” ele também pede um tipo de estrutura frasal, que é uma estrutura que tu não tem como fugir muito do tipo de frase  que tu vai colocar. E aí para fugir dessa repetição eu acabei então fazendo um narrador em primeira pessoa, então, é o Pedro que narra. E em alguns momentos, na verdade em grande parte do livro, ele vai usar esse “você” para contar a história do pai. E quando ele está contando a história dele mesmo ele usa a primeira pessoa, já quando está contando a história da mãe ele se distancia um pouco e lembra um narrador em terceira pessoa. Então a ideia foi essa: diversificar o narrador para que o leitor não ficasse cansado de ver uma narração apenas em uma pessoa. E também para causar essa empatia, convocando o leitor a participar da história 

Nonada – Como foi a construção da Porto Alegre que aparece no romance?  É uma cidade que aparece desconfortável, insegura…Penso um pouco também no romance do Paulo Scott, Marrom e Amarelo, que também discute a questão do racismo e os espaços da cidade. 

Jeferson – Acho que tanto o meu romance como o romance do Scott eles evidenciam uma Porto Alegre que não é muito conhecida, justamente porque se tem uma visão de um personagem negro. E isso faz toda a diferença na hora de fazer uma representação dessa cidade. E no caso do meu romance é a representação de um personagem negro que se sente estrangeiro dentro de Porto Alegre, mesmo a gente sabendo que a população aqui é de 40% ou 50% de pessoas negras, ainda assim é uma cidade que é bastante preconceituosa, um racismo explícito, ainda mais escancarado. E se a gente for levar isso para o interior do Rio Grande do Sul é pior ainda essa situação de se sentir um estrangeiro. Então a ideia era essa, sair um pouco dessa Porto Alegre que o Brasil imagina, estereotipada, e tentar mostrar uma cidade que não consegue lidar com a diferença. E esse personagem, o Henrique, ele acaba evidenciando isso. 

Nonada – Por que a escolha de homenagear Oliveira Silveira entre os tantos ícones da intelectualidade negra?

Jeferson – Eu acho que ele foi um autor mal lido, foi um autor mal conhecido. E eu me lembro que quando eu tive acesso a obra dele foi uma iluminação para mim, de ele ser também professor e ser poeta, poeta negro. E eu tive poucos contatos com ele. Um dos últimos contatos que eu tive com ele, eu me lembro direitinho, ele tava no Shopping Rua da Praia, em uma Lan House, tendo uma certa dificuldade para acessar alguma coisa no computador, algo desse gênero. E eu sentei ao lado dele sem querer. E ninguém sabia que era ele ali, o Oliveira Silveira. Eu tinha vontade de dizer “gente, o Oliveira Silveira está aqui na Lan House”. E aí ele acabou morrendo sem de fato ser homenageado, sei que aconteceu algumas tentativas principalmente do Ronald Augusto, ele fez uma obra muito interessante também reunindo toda a história do Oliveira Silveira, mas nacionalmente ainda é pouco conhecido. Então, foi uma tentativa de fazer com que as pessoas se perguntassem quem é esse Oliveira e de alguma forma também fazer uma homenagem a ele. 

Nonada – Você também está no doutorado e estuda, pelo que pesquisei, a representação do pai nas literaturas luso-africanas. Sobre a concepção do Henrique, o pai, era uma tese em que você já estava trabalhando, ou surgiu depois com a pesquisa? O quanto isso influenciou? 

Jeferson – Fazer o Henrique é um desejo que eu tenho há muito tempo: escrever um personagem que fosse esse pai ausente, esse pai fantasma – e como os filhos acabam lidando com essa ausência. Isso porque eu li o Hamlet e foi um dos primeiros livros que me marcaram muito, até porque eu também vivi sem pai, e então me identifico muito com o Hamlet, no sentido de ter um pai fantasma. Então, acho que é uma espécie de acerto de contas com a minha infância, com a adolescência sem pai, reproduzir um personagem e um livro em que isso fosse o foco. Mas quando eu entrei no doutorado, e isso já tem dois anos, e comecei a pesquisa eu comecei a perceber que a representação ocidental do pai é sempre trágica, sempre opressiva, causa traumas nos filhos. E eu quis fugir disso, quis fazer uma representação mais africana, que é justamente um pai mais horizontal, mais coletivo, que não tem toda essa centralidade. Então busquei uma personagem que ficasse mais nesse meio termo, tanto ocidental, quanto africano. O Henrique, embora ele não seja um pai opressor, ele é um pai que não sabe ser muito pai. Ele vai tentando, então, sem heroísmo, sem glorificar, mas também não transformar esse pai em um opressor e que causa traumas. 

Nonada – Ao narrar, o Pedro está restituindo a “história do pai a partir de  subjetividade que foi apagada pelo processo violento do estado e da polícia”, te citando aqui em uma das entrevistas suas que li. Nesse sentido, você enxerga o papel político da literatura e como isso transfigura em sua escrita? 

Jeferson – Sim, a literatura não tem como não ser política, e o que o narrador faz é restituir uma subjetividade que nem o Estado e nem a Polícia vão ter acesso. Quando ele refaz os passos do pai, ele tá conferindo uma humanidade que a polícia não viu. Ela viu apenas uma mancha negra que é uma ameaça. Então, o Henrique vai propor isso: que se devolva essa humanidade que não é reconhecida pelo Estado. E nesse sentido, acho que sim, que a literatura ela é muito política, ela é muito conscientizadora. Os meus personagens vão se conscientizando ao longo da narrativa, que foi o que aconteceu com o Henrique. E se dando conta da gravidade que é ser negro no Brasil, e às vezes essa consciência é uma questão de sobrevivência. Não é uma questão meramente política, mas também de conseguir sobreviver. É a grande obra do homem negro numa sociedade racista: preservar a própria vida, manter-se vivo, infelizmente. Para mais adiante conseguir fazer alguma coisa. 

Nonada – Também nessa questão do livro, o seu primeiro livro, o “Beijo na Parede” foi adotado em diversas escolas, e você também sendo professor de literatura, como vê essa questão da proposta de taxação dos livros? 

Jeferson – Faz parte da visão deste governo, que tem um plano de destruição mesmo da educação, da cultura, a própria visão que eles têm da cultura, de achar que o livro é para privilegiados, que é para classe média. Mal sabem eles que a classe média não lê. Acho que é um plano de destruição que vai ter um efeito infelizmente devastador, juntando ainda a pandemia…Vamos demorar muitos anos para nos recuperar, tanto desse governo, quanto dessa situação da pandemia. Então, é um momento muito difícil, mas eu torço que com mobilização a gente consiga fazer alguma coisa para que o livro se torne cada vez mais acessível para as escolas. 

Nonada – Considerando que não é todo dia que se vê um escritor negro gaúcho, ou radicado no Rio Grande do Sul como é o seu caso, sendo publicado por uma grande editora do centro do país, você vê esse contexto com otimismo, com cada vez mais espaço, ou acha que foi uma exceção ?

Jeferson – Acho que é um caminho sem volta, tudo está apontando para que isso seja mais comum. Talvez não na velocidade que a gente ache, que a gente queira, mas acredito que as grandes editoras já perceberam que existe uma demanda por autores e autoras negras, por histórias que sejam atravessadas pela realidade negra. Então, é uma questão de mercado também, não é só uma questão ideológica, política. Mas é uma demanda bastante significativa de pessoas pedindo literaturas que sejam diferentes do tradicional, do cânone. Então, eu vejo com otimismo sim, sempre com ceticismo também, para a gente não cair na ideia de que está tudo resolvido. Não quero ser o primeiro, nem o último. Quero ser a continuidade de pessoas negras que estão sendo inseridas neste mercado nacional. Mas eu espero que cada vez a gente tenha mais escritoras e escritores negros em grandes editoras. 

Nonada – Na Flip está ocorrendo um debate sobre a curadoria e da presença negra. Como tu avalia esse debate nas feiras aqui no Rio Grande do Sul? Está ocorrendo? 

Jeferson – Isso é uma coisa que, enfim, já debati isso, venho debatendo um tempo. Já escrevi vários artigos, textos, entrevistas, dizendo que a Feira do Livro está ultrapassada. Uma estrutura que não dá mais. E aí parece que esse ano está havendo alguma mudança. Parece que colocaram a Lú Thomé como curadora, parece que há uma preocupação nas montagens das mesas, das discussões. Não é simplesmente montar uma lista e jogar as pessoas porque estão fazendo sucesso no momento. Me parece, então, que há uma preocupação maior. Mas quanto ao recorte racial, acho que está meio longe ainda. Houve uma tentativa em outros anos, de colocar mais autores negros, mas acho que ainda está longe. Há um delay teórico e político aqui no Rio Grande do Sul que impede que a gente possa ser mais vanguarda. Mas também acho que a pandemia deu uma lição em todo mundo, tanto na Flip, quanto na Feira do Livro. E mostrou que o mundo mudou, que a gente mudou, e não tem mais volta. 

Nonada – Há algumas referências musicais bem legais no livro, como o Luiz Melodia, o Jards Macalé…Faz parte do teu processo trabalhar sempre com música? 

Jeferson – Sim, faz parte e principalmente quando eu estou criando. A criação de cena, eu preciso estar com alguma música, seja instrumental ou não. Mas eu preciso estar com alguma música. Fico imaginando o personagem com aquela música. Ou uma cena, como se fosse de um filme mesmo. Eu preciso visualizar aquela cena com a música, e depois na hora da reescritura, daí é silêncio total. E eu escolhi justamente esses compositores porque fazem parte da minha playlist, fazem parte da minha vida. E dizem alguma coisa também sobre o personagem. O Luiz Melodia, com a “Abundantemente Morte”, então já vai dando alguma dica, que “ninguém morreu, ninguém morreu”, acho que é isso que o Pedro, o narrador, tenta dizer para o leitor. Ele está tentando manter o pai vivo. “No dia seguinte, o seguinte falhou”, mas ninguém morreu.

E o Jard Macalé é justamente quando o Henrique morre, e tem aquele versinho, “A Lua É Gema Do Ovo No Copo Azul Lá Do Céu”, que é para dar uma amenizada em uma situação tão brutal e tão violenta. E colocar a música assim, não poetizando a morte dele, mas tentando amenizar um pouco essa vida que se vai de uma maneira tão violenta. Tem o Itamar Assunção também, tem o Miles Davis, Racionais MC…Eu tentei colocar as coisas que foram significativas na minha vida e que de certa forma dialogassem com o personagem. Saharienne, interesse amoroso do Pedro, é referência uma música do Chico César, eu já pensava há muito tempo em ter uma personagem com esse nome.

Nonada – Apesar de o Henrique ser o protagonista, eu fiquei também com a Martha na cabeça depois da leitura, e como tu falou dos narradores diferentes, o Pedro, quando fala dela está em terceira pessoa, mais distante, então, evidencia que ele não tem uma proximidade tão grande com ela quanto com o pai…

Jeferson – Essa é uma observação importante, pois logo quando os originais começaram a ser lidos, meus amigos aqui por perto, um deles me questionou que o leitor sabe pouco do Pedro, da vida dele. E eu não tinha essa preocupação de falar do Pedro, pois o modo como ele narra já diz sobre ele, sobre o quanto é próximo ou não, já se sabe a personalidade. Sabemos que tem uma certa frieza para contar as tragédias do pai, principalmente no início do livro, ele vai contando como uma sucessão de tragédias, e não põe juízo de valores, vai simplesmente contando. Então, está sendo dito coisas sobre o Pedro, mas não de modo aparente. 

E quando ele vai falar da mãe ele precisa se distanciar até devido ao relacionamento que eles têm. Pedro quer se distanciar dela, pois ela parece uma pessoa muito protetora, uma pessoa que precisa dele para todo momento. E ele quer fugir disso. Ao mesmo tempo, ele também entra na vida íntima da mãe. Então para ficar verossímil eu não poderia colocar um filho dando pitaco na vida sexual da mãe, eu precisava distanciar esse narrador para que ele ficasse mais verossímil, e eu pudesse narrar a história da mãe. 

Na verdade, eu estiquei a história da Martha, mas na hora da edição foi cortada, e com razão, porque eu estava perdendo o foco, que era o Henrique. E eu queria contar a história dele. Mas para contar a história do pai, a gente tem que contar a história da mãe e do filho, não tem essa de só contar a história do pai. O núcleo familiar, esse que a gente conhece, tradicional e tal, ele tem esse perfil. Então, falar da mãe é também falar do pai e falar do filho. Foi essa a minha preocupação, de ter a tríade, mas sempre ter o foco na relação paterna. 

Resenha: Um corpo negro que levanta

(Companhia das Letras)

Há muitos momentos marcantes na prosa de “O Avesso da Pele”, novo romance do escritor Jeferson Tenório. Nele, Pedro, o narrador, faz uma espécie de rememoração da vida do pai, uma investigação, entrando em intimidades e momentos que o definiram como, antes de tudo em Porto Alegre, uma pessoa negra, como homem negro. Ao fazer essa História a partir das recordações, Pedro estabelece com o leitor uma espécie de contrato: estamos lendo as suas impressões sobre a vida do pai, mas também estamos lendo sobre o valor dessa vida e como ela influenciou as pessoas próximas a ele – e o próprio Pedro. 

Ao apresentar os diversos fios que montam o emaranhado da tessitura da vida de Henrique, a condição de homem negro que ele também descobre e se conscientiza ao longo de sua trajetória é o que mais se evidencia e sobressai em diversos momentos descritos por Tenório. Henrique também é um professor o que, em tese, poderia lhe configurar uma espécie de poder, pelo menos no imaginário coletivo. Entretanto, não é o que acontece na maioria da trama, pois há uma relação complicada com o estar em aula, com o protagonista se perguntando diversas vezes sempre se o que faz realmente importa. 

Em uma passagem marcante, Tenório lista uma série de abordagens violentas pela polícia que Henrique passou ao longo de sua vida. Uma pista para o que acontece, de forma trágica, com o protagonista rememorado pelo filho. Trágico, porque no momento em que o professor descobria um modo de se aproximar dos alunos novamente, trazendo um livro clássico (Crime e Castigo, de Dostoiévski, provando assim que a boa literatura é também universal), ele é morto em uma última truculenta e racista intervenção do Estado sobre um corpo negro. 

Um corpo negro que cai e entraria para mais uma estatística violenta e brutal, de números e gráficos, que provavelmente ninguém falaria, ou a mídia abordaria em alguns segundos de tela de televisão. Mas não. Graças à criação da memória a partir das lembranças e dos relatos e de suas próprios impressões, Pedro nos dá de presente a narrativa de vida de seu pai, que não era um herói, não era perfeito, mas que carrega todos os signos de uma trajetória que é abafada e suprimida por um estado racista. 

Ao narrar sua morte, Tenório não espetaculariza a violência gráfica. Vivemos em uma época em que as informações são muitas e que nos joga a todo momento imagens, muitas delas de violência. Mas, mais do que isso, o livro todo já nos apresenta a vida de Henrique que, por fim, foi a sua grande obra. Agora, Pedro, depois de usar o vocativo “você” e “pai”, criando assim uma maior intimidade ainda e nos “obrigando” a assumir, de certa forma, um papel nessa narrativa (culpa? assombramento? consciência?) parece no fim assumir que é seu momento de enfrentar a vida. 

Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras. Twitter: @rafaelgloria
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