Thaís Seganfredo

A partir de excelentes filmes lançados no últimos anos, o cinema brasileiro tem caminhado na direção contrária ao exotismo que tanto marcou a visão de realizadores brancos sobre os povos indígenas no passado. A Febre, primeiro longa de ficção da diretora Maya Da-Rin, se insere nesta safra ao trazer um roteiro, feito em colaboração com atores indígenas, que funciona em diferentes camadas narrativas ao multidimensionar as experiências dos indígenas urbanos. 

O filme tem como foco o cotidiano de Justino e (parte de) sua família, indígenas moradores da periferia de Manaus, que estão em um momento de transição de sua rotina, uma vez que a filha de Justino, Vanessa, está de mudança para Brasília para estudar Medicina. Já o protagonista Justino, pai solteiro, vigilante na zona portuária da cidade, passa por turbulências no trabalho e é acometido por uma febre sem diagnóstico aparente. 

Antes do andamento da trama, porém, o filme dedica vários minutos à introdução dos personagens e da cidade, primeiramente focando em ambientar Manaus – com suas ruas movimentadas de carros e pessoas e sua sensação de abafamento característica. Um certo didatismo perpassa a apresentação da família de protagonistas, como que para explicar para os brancos que, mesmo urbanizados, os indígenas continuam mantendo sua cultura, seus costumes, seu idioma – no caso, o tukano, bastante falado no filme, com legendas em português.

Foto – reprodução

Ainda que as culturas indígenas sejam bastante presentes em Manaus, o preconceito e o conflito sócio-cultural causado pelos brancos é constante. Um exemplo do roteiro é a chegada do novo vigilante, que a empresa contratou para substituir Justino ao tentar forçar sua demissão por justa causa, um ex-capataz que diz ao protagonista já ter visto “índio de verdade” ao explicar por que tem familiaridade com armas de fogo. 

Nesse sentido, grande parte da força do filme está nas diversas camadas discursivas que buscam inspiração justamente nas cosmovisões indígenas. Enquanto aborda a tensão social entre os brancos e indígenas, a obra traz em primeiro plano o drama pessoal de Justino (em uma atuação comovente de Regis Myrupu, e premiada no Festival de Locarno). O indígena sofre com a febre e ao mesmo tempo persegue e é perseguido por um animal desconhecido que ronda as matas inseridas nas áreas urbanas. Está posta aí uma reflexão reflete sobre território e pertencimento que tem na cultura dos Tukano seu alicerce.

Além do idioma tukano, dois elementos relacionados às culturas indígenas são âncoras no roteiro, utilizados de forma criativa e respeitosa, já que foram inseridas com participação direta dos atores. Um deles é a oralidade, que aparece, por exemplo, em um belo momento no qual Justino conta uma história de sua aldeia ao neto. No plano, a câmera fixa no avô e no menino e depois na floresta Amazônica, deixando o foco totalmente na história contada que, aliás, reflete no impasse que Justino vive.

Foto – reprodução

O outro eixo narrativo é o universo onírico, cujos elementos, em geral, podem ser interpretados como avisos e mensagens espirituais em algumas culturas indígenas. Neste ponto, Maya faz um trabalho primoroso, uma vez que utiliza o recurso sem cair no clichê, gerando tensão e ao mesmo tempo respeitando a filosofia de seus personagens. “Eu e Regis passamos uma semana lendo e conversando sobre o roteiro. Durante essas leituras, entendemos o que fazia ou não sentido manter, reformulamos algumas cenas e diálogos”, contou a diretora ao site Cine Set. 

Com desenho de som e direção de arte que nos transportam para Manaus – cidade tão estereotipada no imaginário do brasileiro -, A Febre já acumulou mais de 30 prêmios, entre eles o de melhor ator no Festival de Locarno e 5 prêmios no Festival de Brasília 2019, incluindo melhor filme. Importante ressaltar também queo deslocamento de Justino na cidade não é a experiência única dos indígenas urbanos, como bem coloca o roteiro, ao mostrar como seu filho formou uma família na cidade e como Vanessa parte para conquistar seu espaço em Brasília.

Sem nunca olhar a cultura indígena com exotismo ou prepotência, A Febre eleva com criatividade o cinema brasileiro, principalmente com o uso do idioma tukano, que enriquece a narrativa. Que nosso cinema possa aprender com essa experiência e incluir cada vez mais os 274 idiomas indígenas do país. 

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