por Guilherme Mautone*
Fotos: Kevin Nicolai

Na manhã do dia 25 de janeiro de 2021, um tipo muito peculiar de oração dedicada aos mortos pela covid-19 no Brasil foi iniciada quando, às 08h00, Diego Groisman e Patricia Rangel, em lados opostos do Atlântico, enunciaram o número 1. A contagem, começada por eles em live pelo perfil Quase-Oração, disparou uma ação onde mais de 50 pessoas alternadamente se dedicam a contar sem interrupções pelo menos até 200.000. Agora, no instante em que escrevo, três dias depois de iniciada Quase-Oração, acompanho a contagem feita por duas pessoas que se revezam e, acabo de notar, uma delas acaba de enunciar o número 90.752. Depois enunciará o número 90.753, e depois 90.754, e 90.755, e assim sucessivamente. Até que parem, encerrando um turno de duas horas e que transmite, noutro revezamento, para a próxima dupla a diligente responsabilidade pelo encaminhamento da contagem.

A regra básica de qualquer contagem se expressa na ideia matemática de soma, sob a equação do n + 1; onde n é um número natural qualquer. Uma calculadora corriqueira, das mais usuais, é sempre capaz sob condições perfeitas dessa operação muito simples. Basta que pressionemos o 1, depois o sinal de adição e, por fim, o de igualdade. E, assim, com o auxílio desse aparato banal, a contagem continuará indefinidamente até, pelo menos, que também continuemos a pressionar o sinal de igualdade indefinidamente. Há, nas calculadoras — assim se espera delas — uma regularidade, um grau de confiabilidade, uma exatidão.

Uma certeza de que todo o número ao qual se adiciona 1, gerará um próximo mediante uma rigorosa regra da lógica. Calculadoras nos transmitem uma certa impressão de que o processo de somar, em uma contagem, é algo simples, fácil, instantâneo. Essa impressão, suposta imagem sobre a facilidade do ato de contar, requer, contudo, problematização dentro da ação.

A questão imprescindível a ser considerada é que, diferentemente dos humanos, calculadoras não estão repletas de pensamentos, afetos, lembranças, planos ou desejos e tudo aquilo que, num simples ato de calcular, antepara-nos diante do n + 1. E nos detém. Embora contemos através de uma operação muito parecida com aquela realizada pelas calculadoras, a nossa equação é diferente; posto que inclui na soma, ao contrabandear na lógica, à revelia do rigor analítico, uma consciência fria, sem nome, mas ainda assim uma consciência, de que se está a somar mais uma morte: <n + 1 [morte]>.

Quando a ação foi planejada há algumas semanas, a expectativa era a de que 120 horas ininterruptas seriam suficientes para chegar até 200.000; ou seja, nosso nefasto marco auriverde. Agora, no entanto, sabemos com certeza que 120 horas não serão suficientes. E sabemos disso através de um saber do corpo, difícil de explicar e ainda mais difícil de atravessar. Alguns, em vigília, varam a madrugada, mantendo a sequência viva; outros, à tarde, combatem o tédio natural, a tristeza crepuscular, a dor de garganta, a nova estafa, de novo, de novo. O corpo pede silêncio depois de duas horas; mas a soma segue aberta, então os números não param, precisam ser contados, pedem enunciação, consideração, um dizer só deles. Por essa razão é que a ação é coletiva: para que não seja interrompida até que se conte tudo e para que esse trabalho lento e árduo continue.

(Para quem se interessa por arte, eis aqui um ponto crucial; pois eis aqui a arte contemporânea. Não se trata de um quadro, de uma escultura em homenagem aos mortos, ou de um poema. Embora essas coisas todas sejam também importantes. Trata-se, agora, contudo, de uma contagem, segundo certas regras, feita por dezenas de pessoas organizadas coletivamente. Não há ‘suporte’; mas há experiência, há registro, há uma história sendo contada, um novo desenho sendo feito na cartografia — já — banal das mídias sociais, num dos esquisitos écrans que rolamos pra baixo sob a impressão de que o jogamos quando, em verdade, eles é que jogam conosco. Há, aqui, uma quebra, uma ruptura, um deslocamento, uma abertura: um entre. Há a demonstração de possibilidade de usos diferentes para coisas banais. Há a demonstração de que é preciso prestar mais atenção, falar mais baixo, olhar no olho, notar certas sutilezas contextuais, ritmos, gestos, entonações. Há um conceito, um pensamento acontecendo, desde aí poetizado: um modo de fazer que se aproveita do corriqueiro e, como no virar de uma luva, reorienta o espaço, abrindo outra topologia. É uma atividade, um jogo sério, são pessoas contando seus mortos. É o mundo da arte e o mundo da vida eclipsando um ao outro. É problema, familiaridade inquietante e incerteza.)

Nesse cálculo que calculadora alguma poderá realizar, o número silencia algo da sua cristalina impessoalidade e universalidade (quatro livros sempre serão o mesmo quatro que quatro cadeiras ou o mesmo quatro que quatro janelas e assim por diante) e passa, finalmente, a dizer da morte que assola o mundo e em especial o nosso país; passa a dizer do nosso descalabro sanitário, do desamparo que parece crescer em nós, da solidão, da aspereza, das dúvidas inconstantes para quem sobrevive. E, desse modo, numa mera contagem é que a pergunta — filosófica — sobre a morte se recoloca, faz-se incontornável. A morte, esse objeto que, ao pensamento humano, é ao mesmo tempo necessário (pois inescapável) e impossível (pois inexplicável).

Projeção de Quase-Oração no Centro de Porto Alegre (RS) na CCMQ (Foto: Kevin Nicolai)

Por um lado, as 120 horas não serão suficientes porque enquanto contamos, enquanto eu escrevo, enquanto você me lê, as mortes — tema e, sobretudo, pensamento dessa ação — continuam a crescer. E isto, consequentemente, faz com que a contagem permaneça acontecendo, faz com que a soma não feche, a estatística final não seja gerada e, muito menos, que se determine o ocaso de um momento da história recente da humanidade. O fim de outra peste, um novo Renascimento. Quem, um ano depois, ainda mantém preservada sua capacidade singular de se espantar diante da morte do outro, certamente terá dificuldades em contar assim, como propomos, os números todos. (Calculadoras não se espantam). Embora difícil, insistimos em fazê-la. A insistência em contar é, portanto, essencial; tematizar o contar também, pois só assim se poderá denunciar um dos lados desse processo ainda maior de banalização da vida com o qual a humanidade, volta e meia, em desvario, se emporcalha em sua história. Com a nossa insistência em contar se poderá questionar, talvez, o outro lado: a indiferença em contar. A soma em aberto é um motivo externo à Quase-Oração. E é um dos problemas que ela suscita: até quando continuaremos contando? Por que estamos contando tanto? Por que não contaremos menos? Como teríamos contado menos? O que fizemos de errado? Como evitar o erro no futuro?

Por outro lado, há um fato novo que descobrimos só agora — sobretudo através do corpo — e que sequer imaginávamos antes, embora ele seja um fato intrínseco à própria ação. Contar muito, muitas dezenas, várias centenas, longos milhares, é uma das coisas mais difíceis de se fazer, pois não é natural. Não porque existem certos números que parecem exigir das nossas línguas e gargantas toda uma destreza de enunciação; mas, sobretudo, porque, não fomos feitos para ficar contando tanto e, sobretudo, contando tantos mortos. Para além disso, cada número representa de algum modo ainda não completamente compreensível para nós a existência de uma pessoa que andou por aí, riu, chorou, trabalhou, dormiu, festejou, e que morreu num país onde, surpreendentemente, diante da sua morte, ousam dizer “E daí?” ou “Não há nada a fazer”.

O número enunciado, recitado, contado, nos permite dizer sobre essas coisas todas não-dizendo, ou dizendo de outro modo: um modo deslocado, cifrado, simbólico. E é isso, em certo sentido, o que torna a contagem exasperante e ao mesmo tempo comovente, pois o número supostamente impessoal, para quem está a contar, passa a ingressar a cada enunciação em uma tensão com a consciência do enunciador de que ele está precisamente a contar (de) alguém que morreu. Conto uma morte, conto outra, depois outra, e mais outra. Isso tudo faz parte de um doloroso processo, uma espécie de rito secular pelo qual tentamos, juntos, enunciar as mortes, falar delas, encontrar para elas um lugar, dar-lhes um destino mais digno e menos cruel que a insignificância ou a indiferença da nossa propaganda nacional oficial.

Não é o caso que se faça, em ‘Quase-Oração’, uma celebração da morte, um nefasto espetáculo. O que se pretende é, justamente, poder dizê-la de um modo mais cuidadoso, encaminhando-a juntos, não esquecendo-se dela, muito menos dando-lhe as costas. É curioso pensar que, na tragédia grega, sobretudo em Édipo Rei e Antígona, encontramos a história ancestral de um conflito que mantém com o nosso certas semelhanças. Há, nessas tragédias, quem se importe com os mortos, quem queira dar a eles um destino honrado e um lugar possível. Mas há nelas, também, um tirano que nega esse desejo e intento, deixando a morte à céu aberto, descuidada. Em Sófocles, é esse descuidar da morte, essa indiferença a ela, que alastra a peste, gerando o miasma que ronda a cidade. Em nosso caso, no entanto, muitos anos depois, não há mais sequer uma tensão entre direitos, entre diferentes imperativos. O trágico na situação brasileira contemporânea talvez repouse no fato de que o tirano, aqui e agora, fez da peste sua traiçoeira e mais perversa arma de negligência capaz de, a cada dia que passa, matar cada vez mais gente. A peste, aqui e agora, granjeou um estatuto especial de mais uma das muitas tecnologias do descaso.

Em nosso cenário onde se desenrola a trama e a intriga de uma tragédia brasileira que as gerações futuras levarão anos para dimensionar e outros tantos para sanar, sobretudo, ao nível ético, nós seguiremos contando quem morre, fazendo nosso coro ruidoso, contínuo, diligente: triste e perturbador. Um lamento matemático, cuja aritmética não fecha, mas fica aberta para além do impessoal do número, equacionando a morte de pais, mães, avós, filhos, amigos, vizinhos, conhecidos. Que ela nos canse (ao tangenciar a enunciação impossível, ou ao suscitar até mesmo a beira do incontável ou o erro que arromba a trama de n+1) não há, na verdade, problema. Haverá certamente em alguns de nós aquela insistência que Beckett resumiu tão bem em seu Worstward Ho!, de 1983, onde disse sobre uma tristeza solene de se estar vivo e de se encarregar do viver: “Tentar. Falhar. Não importa. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor. Primeiro o corpo. Não. Primeiro o espaço. Não. Primeiro ambos.”

Participam de ‘Quase-Oração’
Ali Khodr, Ana Albornoz, Ana Bertoldi, Ana dos Santos, Ana Laura Malmaceda, Andrei Moura, Andressa Schröder, Camila Leichter, Camila Proto, Carmen Riquelme, Caroline Schmidt, Chana de Moura, Chico Fernandes, Clara Marques, Clarisse Tarran, Claudia Schroeder, Cristina Ribas, Daniela Prates, Daniele Barbosa, Davi Pereira, Diego Groisman, Diego Vacchi, Diovany Coutt, Eduardo Montelli, Erick Peres, Gabriela Loss, Gabriela Luz, Gabriela Motta, Guilherme Dable, Guilherme Lemos, Guilherme Leon, Guilherme Mautone, Henrique Fagundes, Isabella Barpp, Izis Abreu, Joana Burd, Juliana Proenço, Karina Nery, Katiane Silva, Kevin Nicolai, Laura Cattani, Laura Pujol, Lucas Icó, Luise Malmaceda, Luiza Reginatto, Marcelo Chardosim, Manoela Cavalinho, Marta Nehring, Mel Ferrari, Munir Klamt, Patricia Rangel, Paula Ramos, Paula Trusz, Rafael Pagatini, Renata Sampaio, Santiago Pooter, Taline Frantz, Vera Junqueira.

*Professor, doutorando em Filosofia pela UFRGS, membro do Colegiado Setorial de Artes Visuais da Secretaria da Cultura do Estado do RS, editor da Revista PHILIA e docente da Casamundi Cultura. Medium.

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