Ester Caetano
Fotos: divulgação

“Os pretos é chave, abrem os portões” 

Embora o cinema brasileiro, ao longo de décadas, seja capitaneado pelas elites – o que por muito tempo nos impediu de enxergar a outros olhares no audiovisual brasileiro para além da branquitude – aos poucos, esse cenário começa a mudar. Em tempos de cinema movido a algoritmos, processo do qual a Netflix é mestre, boa parte do leque do catálogo disponível é composto por elementos previsíveis, que ditam como os episódios devem ser feitos, a direção ideal, o roteiro passível a agradar os espectadores, entre outros elementos que ordenam um arranjo tecnicista cada vez mais excludente. M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, de Jeferson De, é uma das chaves que contribui para a quebra desses padrões e figura no rol de exceções dos filmes da gigante do streaming.

A construção narrativa enquadra a rotina de Maurício (Juan Paiva), jovem negro de periferia que atráves do sistema de cotas entra para a renomada e concorrida faculdade de Medicina. Gradativamente, vão se tornando perceptíveis as várias atividades que acontecem em torno dele, envolvendo a discriminação racial que a população negra sofre diariamente. Perseguido por um colega de classe que acha que Maurício não deveria esta ali (“você não trabalha aqui na facul?”), o protagonista olha em volta e se percebe como o único negro estudante do curso. O filme traz à tona o quão difícil é chegar na área da Medicina e o quanto ela é exclusiva e dominada pela branquitude. 

Um eixo central na narrativa é quando a turma inicia as aulas de anatomia, e Maurício nota que os cadáveres utilizados para o aprendizado são todos negros. Um breve panorama mostra como o personagem percebe que ninguém se importa com o fato de que é a população negra a que mais morre e está servindo de estudo para aquelas pessoas. Toda uma camada é acrescentada ao roteiro com o dom da mediunidade de Maurício, uma vez que o corpo que a turma começa a estudar, catalogado como “M8”,entra em contato com ele, fazendo o jovem estudante se questionar. De onde vem esses corpos? O que aconteceu com eles?

Cena de M8 (Foto: divulgação)

Desta forma, Maurício começa a busca pela história daquele corpo que pertence a uma pessoa que não conhece, mas que está referenciada como M8 (papel de Raphael Logam). Com sensibilidade, o roteiro se conecta também ao enredo de mães negras que se revoltam pelas vidas de seus filhos mortos e desaparecidos. Nesse sentido, uma das personagens mais singelas, mas com muito a dizer, é a mãe do Maurício, Cida (Mariana Nunes), que protagoniza uma cena emocionante.

Envolvido pelos beats de Rincon Sapiência e inspirado no livro de mesmo nome do Salomão Polakiewicz,  M8 desenrola uma trama fiel da desigualdade social e do racismo estrutural no Brasil. Mesmo com curtos espaços entre uma cena e outra, a crítica social apresentada cria uma leque de contestações sobre espiritualidade, necropolítica, preconceito, abuso policial e o racismo sistêmico apresentado às vezes de forma sutil, quase chegando a parecer “inofensivo” no dia a dia. 

M8 é um filme que instiga e faz pensar sobre as estruturas sociais brasileiras, captando os privilégios de alguns e reconhecendo quem não tem as mesmas oportunidades, e passa por dificuldade para chegar no mesmo “patamar”. Para tecer essas críticas, Jeferson De, autor do premiado Bróder, faz alusão ao gênero de horror social (conhecido em filmes como Get Out, de Jordan Peele, por exemplo), porém com o pé no drama denunciativo,  com o qual o Brasil é familiar. O longa denota a necessidade da causa antirracista e alerta sobre o genocídio da população negra, afinal, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.    

Esta resenha crítica é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative.

Jornalista engajada nas causas sociais e na política. Gosta de escrever sobre identidade cultural, representatividade e tudo aquilo que engloba diversidade.
Tags: ,
%d blogueiros gostam disto: