Ester Caetano
Foto: Eduarda Silva/coletivo imagens faladas

Conforme a pandemia de Covid-19 se estende, com altas taxas de contágio, novas variantes e recordes em mortalidade, a dificuldade para os pontos de cultura e as instituições culturais nas periferias do Rio Grande do Sul seguem se agravando. Para resistir ao período, foi necessário criar novas alternativas para  subsidiar os locais, programar ações de combate e se adaptar ao virtual. Com vaquinhas online, arrecadação de dinheiro com os apoiadores e apoio da Lei Aldir Blanc, os pontos tentam permanecer cultivando a comunidade de cultura de alguma forma, ao mesmo tempo em que alertam sobre a prevenção ao contágio. 

A Central Única das Favelas do Rio Grande do Sul (CUFA-RS) tem trabalhado mapeando e resgatando o aporte histórico dentro das comunidades e os impactos da pandemia. Dinorá Rodrigues, que trabalha na gestão da CUFA-RS, exemplificou a fragilidade financeira e os altos números de contágios nas comunidades, onde estão os trabalhadores da base. “Lá está quem cozinha, quem entrega, quem dirige, quem limpa. As favelas não pararam e como todos na pandemia, a situação financeira está prejudicada, fragilizada. Por isso, a criação da Lei Aldir Blanc vem fortalecer esse artista que precisa de suporte nesse momento, em que muitas vezes, não tem como divulgar seu trabalho, vender seus artesanatos e propagar a cultura para todos os cantos do país”, declara a gestora. A entidade foi co-responsável por executar um edital da LAB voltado exclusivamente a agentes culturais com atuação nas comunidades gaúchas. 

Assim como toda a cadeia cultural no Brasil, os pontos de cultura foram impactados logo no início da pandemia. Coletivos culturais subsidiados e reconhecidos através da Política Nacional da Cultura Viva (Lei 12.343/2010), os pontos de cultura têm como área de atuaçao a cultura popular de base comunitária, mas os recursos pararam de ser repassados ainda durante o governo de Dilma Rousseff.

POnto de Cultura teve que interromper as atividades, que eram quase que exclusivamente presenciais. (Foto: divulgação)

No Rio Grande do Sul, há um programa estadual para os pontos, mas os subsídios também foram interrompidos. “Não existe mais nenhum convênio no Rio Grande do Sul, não tem mais nenhum ponto que receba ajuda de recursos públicos. E isso se deu justamente no período em que a pandemia se estabeleceu”, conta Mestre Guto, coordenador do ponto de cultura Africanamente. 

Com o agravamento da pandemia nas últimas semanas, os planos de retomada para este ano foram adiados. “A gente fica sem perspectiva de como manter o espaço no ano de 2021. A Lei Aldir Blanc nos ajudou, mas o auxílio emergencial foi cortado, não se prevê nenhum outro incentivo à cultura a partir de políticas públicas tanto no âmbito municipal, estadual e federal. Os pontos de cultura acabam caindo nesse mesmo impasse,” lamenta Mestre Guto.

Localizado no bairro Floresta, o Africanamente mobiliza a comunidade com encontros e oficinas práticas de capoeira, samba de roda, jongo e dança afro. Além de projetos também na área da música, o espaço possui uma biblioteca temática que inclui livros sobre antirracismo e cultura afro. Na pandemia, foi através do virtual que o ponto de cultura conseguiu manter os laços com a comunidade. “O ponto continua mantendo uma relação com a comunidade através de  atividades online do youtube, saraus de poesias e aula pelo google meeting”, relata o coordenador.

Já o Varanda Cultural, fundado em 2006 em Porto Alegre, hoje lida com a ansiedade dessa encruzilhada histórica. Sobrevivendo apenas da renda pontual decorrente da LAB, os artistas do espaço se veem futuramente sem outro subsídio. “Não temos previsão de caixa a partir de maio. Embora ainda tenhamos como manter a instituição hoje, que gera gastos fixos de contador, luz, telefone, não sabemos como será em poucos meses. O que temos agora é um lindo sonho na memória coletiva do nosso Ponto de Cultura. E, muita luta como sempre”, expõe a coordenadora  cultural e co-fundadora do ponto, Cris Freitas.  

Um projeto criado nessa nova realidade traz conscientização e reflexão sobre a pandemia através do teatro de bonecos. Com vídeos com a temática da relevância do uso de máscara, álcool gel e pensamentos sobre o isolamento social,  “Bonecos em confinamentos: as aventuras de Polentine e Rosado” é uma série transmitida virtualmente através das redes sociais do ponto. Ainda assim, os artistas do ponto avaliam que o impacto nas comunidades não é o mesmo do que ocorre com ações culturais presenciais.  “Agora estamos tentando usar as redes para desenvolver nossas ações, ocorre que nosso país é muito desigual e ações virtuais nem sempre chegam nas comunidades”, lamenta o co-fundador do Varanda Cultural César Augusto. 

Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo adaptou as atividades para seguir gerando arte na comunidade do bairro Cristal (Foto: Eduarda Silva/coletivo imagens faladas)

Da junção das batidas do tambor de sopapo e o diálogo com as gerações, surgiu o Quilombo do Sopapo, outro grupo que sofre com os impactos da pandemia e que teve que transformar todas as atividades no bairro Cristal, zona sul da cidade. Leandro Anton, integrante do grupo, conta: “com a pandemia nos reinventamos e buscamos outros campos, como a fotografia. O trabalho em rede que temos construído nos deu a condição de termos parceiros para encarar o momento.”

Mesmo assim, a dificuldade no acesso à internet foi uma barreira tanto para o público como também para os próprios integrantes da equipe. “Nem todos têm a condição de poder participar de atividades virtuais, seja nossas atividades rotineiras ou mesmo voltar a estudar, por não ter acesso a uma internet cabeada ou a equipamentos”, avalia Anton. Depois de estabelecer protocolos de segurança da equipe e do atendimento ao público, o Quilombo do Sopapo se envolveu também com ações comunitárias. “A União de Vilas estava fazendo a entrega de cestas básicas e também de kits com máscaras e álcool gel. Então, nós passamos também a contribuir, indicando pessoas que precisavam de apoio”. O espaço atualmente executa um projeto selecionado por um dos editais da LAB, co o projeto Na Trilha das Andrarilhas.

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative.

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