Cátia Cylene*
Foto: Alass Derivas/Deriva Jornalismo**

“O corpo é a representação do corpo, o corpo tem uma existência performativa dentro dos marcos culturais que o faz visível. Mais que ter um corpo ou ser um corpo, nos tornamos num corpo e o negociamos, num processo reticulado com nosso devir sujeitos, isto é indivíduos, com certeza, mas dentro de umas coordenadas que nos fazem identificáveis, reconhecíveis, ao mesmo tempo que nos sujeitam às suas determinações do ser, estar, parecer ou devir.” (Meri Torras, filóloga, ensaísta, investigadora e professora universitária espanhola. Publicou “El delito del cuerpo”)

O que pode haver em comum entre uma mulher indígena do sul do Brasil e uma mulher campesina do norte? Quais trajetos, sentimentos, sonhos, desejos, memórias, saberes, fazeres, dores e alegrias representam essas cidadãs? Seus corpos em luta dão a resposta. Não uma sentença posta, mas um indicativo de como tantas outras mulheres em diversas culturas defendem seus territórios, já que são as mesmas pautas que as colocam num igual enfrentamento – não de gênero, mas contra o sistema. E isso borra fronteiras, aproxima ideais e perpassa toda a América Latina.

Daí o campo vasto em interesse. Por isso, “corpos das lideranças camponesas são atingidos, agredidos e mortos, como ações exemplificadoras para aquelas que ousam interpelar o poder dos capitais internacionais, dos grupos de poder transnacionais como empresas mineradoras, petroleiras, hidroelétricas, do agronegócio, que operam impondo estratégias de intimidação e medo.” É o que analisa a comunicadora equatoriana Yvets Morales Medina, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em recente artigo publicado na obra Corpo, Comunicação e Espaço – Arranjos Performativos (São Paulo, 2021), Yvets traz à tona o enfoque sobre o corpo na defesa dos territórios de vida. Segundo ela, “a participação das mulheres na defesa do território é cada vez mais sensível e mais estratégica. Eis que a abordagem do corpo como espaço motiva entender a confluência que se estabelece entre os corpos, os outros seres vivos, as instituições disciplinares, os desejos como gesto político que promove o vínculo com seus territórios e o pensar a vida em relação à terra.”

Nessa perspectiva, identificamos movimentos organizados em diversas áreas. Entretanto, os corpos do povo estão na frente de batalha, enquanto as “elites do poder” logram uma organização externa ao território em conflito. Nisso se assemelham os casos da cacica do sul do país e da campesina do norte, referidas no início do texto. Afinal, como aponta Yvets, “os corpos não assumem apenas um valor simbólico, mas assumem sobretudo o risco de enfrentar a repressão. O desejo desborda as possibilidades da existência e a memória se estabelece como a procura da inspiração para alimentar o desejo – seja qual for o horizonte”.

Maria Zelzuita, militante do MST sobrevivente do massacre de Eldorado do Carajás (Foto: acervo pessoal)

É justo sobre esse “desbordar da existência” que fala a campesina assentada Maria Zelzuita, 56 anos, sobrevivente do massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido há 25 anos no estado do Pará. “Teve muito miolo jogado naquela pista quente. Justamente porque rolou tanto sangue, tanta dor, é que eu não desisto da luta”. A declaração é de quem vivenciou todo o terror que acabou com a vida de 19 pessoas e deixou outras 70 gravemente feridas, em um 17 de abril marcado por opressão, violência, tortura e barbárie sem precedentes na história do Movimento Sem Terra (MST) e dos direitos humanos no Brasil. Um caso de repercussão internacional. 

O ano era 1996 e no rol do poder organizado constavam o então governador do Pará, Almir Gabriel, e o presidente Fernando Henrique Cardoso – ambos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), mais os latifundiários. “Já tem 25 anos e ainda é ruim de estar relembrando, mas ao mesmo tempo a gente está falando. Tem aquela palavra de ordem que diz: Se calarmos, as pedras gritarão! Então a gente fala, a gente continua.” 

Maria e seu corpo em luta na defesa do seu direito de ocupar terras improdutivas, como era o caso da Fazenda Macaxeira, somava-se a mais 3 mil trabalhadores sem terra que foram submetidos à verdadeira chacina quando uma tropa da Polícia Militar do Estado do Pará chegou prendendo fogo, atirando e atingindo até mesmo quem não era do movimento, mas estava lá para apoiar com entrega de medicamentos e alimentos.

“Começaram a atirar e nos vimos no meio do fogo cruzado. Minha amiga veio correndo, virei as costas e vi uma moça com a boca cheia de sangue, ela gritou reforma agrária e atiraram”, lembra Maria. No meio do caos, ela saiu correndo, levando consigo quatro crianças perdidas, apavoradas. A visão era de um massacre: “sangue no meio da pista, gente caída pra tudo que é lado, tiros, gritos, choro… Fui levando comigo, mesmo com toda lama, porque tinha chovido muito um dia antes, saímos correndo por dentro do mato e eles seguiram matando nosso povo na curva do S”.

Apesar de toda dor, Maria e seu corpo em luta seguem reafirmando a importância de não se omitir perante as opressões. “Digo para as mulheres que não cruzem os braços. Nós vamos à luta, está muito longe de a gente conseguir, temos que lutar muito mesmo. Temos muitas mulheres sendo estupradas, sendo mortas, então temos que nos unir, muitas têm muito medo, principalmente de passar de novo pelo que já passou, mas temos nossos direitos e precisamos sempre lutar por eles”.

Todos os anos, Maria participa de atividades no acampamento pedagógico, na localidade do massacre, onde construíram o Monumento das Castanheiras, árvores símbolo de resistência, que os latifundiários derrubavam para fazer pasto. “Eu sempre falo e não me canso. Hoje tenho minha casa, filhos e netos, somos do Assentamento 17 de Abril, mas e aqueles mortos? Todos tinham vida pela frente, só buscavam um pedacinho de terra para sobreviver. Eu e muitos outros conseguiram, mas eles não tiveram a sorte de ter criado seus filhos, de ver eles estudando e seguindo a vida”, lamenta.

Nessa tragédia anunciada, é preciso reconhecer o corpo presente das mulheres na linha de frente, defendendo seus direitos em contraponto à constante opressão imposta pelas “instituições de disciplinamento e controle do sistema capitalista, colonial, patriarcal através de instituições como a judicial, policial, midiática, comercial”, segundo Yvets. Em seu artigo, a pesquisadora discorre sobre pensar o corpo como espaço para compreender a “inter-relação que as mulheres camponesas e indígenas estabelecem entre o corpo e o território, as plantas, as sementes, as montanhas, os animais”.

Reintegração de Posse – Retomada Xokleng (Foto: Alass Derivas | Deriva Jornalismo. publicada no site do Amigos da Terra Brasil em 5 de abril de 2021.)

Essa concepção é vivenciada pela cacica Cunllung Vei-Tchá Teie, liderança da comunidade Xokleng-Konglui. Em 12 de dezembro de 2020, Cunllung, junto com as 14 famílias que formam seu povo, retornou ao seu território na localidade onde se estabeleceu a Floresta Nacional (Flona) de São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul. Foi nesse território que, originalmente, seu povo vivia e onde se instalou a retomada Xokleng-Konglui, reivindicando seu direito ancestral sobre as terras. “Eu estive aqui em 2015 com meu pai e ele mostrou onde ele nasceu. Eu sou raiz daqui. Meu pai tem o umbigo dele enterrado aqui. Nossos antepassados andavam nu aqui, bem tradicionais mesmo”, contou a cacica à reportagem do Nonada, que esteve na retomada.

Desde o primeiro dia do ano de 2020, os Xoklengs ocupam uma área às margens da RS-184, depois de saírem voluntariamente da Flona após a Justiça Federal conceder a reintegração de posse ao governo federal. “A coordenadora do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão do governo federal que obteve a liminar de reintegração) não quer ver nós aqui. Ela proíbe nós de entrar na floresta para catar lenha, ela não aceita nós para colher pinhão, de jeito nenhum. Mas nós somos os donos desta terra. A gente colhe, sim. Agora vem uma pessoa, sei lá se veio da Alemanha ou Itália, e quer mandar aqui e retirar nosso direito?! Não aceito e nunca vou aceitar. A convenção 69 dá direito para nós morar”, salienta a cacica, citando a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais em Estados Independentes. O documento é, atualmente, o instrumento internacional mais atualizado e abrangente em respeito às condições de vida e trabalho dos indígenas.

Quando questionada sobre o protagonismo da mulher em seu povo, ela é incisiva: “Não faz diferença ser mulher e ser cacica, meu pai era líder, ele se foi e passou para mim, ele falou que eu seria a líder. A mulher tem força, tem garra, tem peito, tem coragem. O homem tem outro sistema. A mulher fala pura. Homem se amarra ainda para falar alguma coisa. Isso tá no branco e ta no índio.”

Kullung resguarda suas mudas de guiné (Foto: Alass Derivas | Deriva Jornalismo. publicada no site do Amigos da Terra Brasil em 5 de abril de 2021.)

Cunllung foi presidenta do Conselho Nacional de Mulheres Indígenas (Conami) em 2010, atuou junto a Jupira Terena, morta em 2019, dentre outras importantes lideranças indígenas mulheres. Também foi a primeira mulher cacica em 2003, em Santa Catarina. “Minha maior experiência é o direito dos povos indígenas, buscar o que perderam de suas terras e territórios, direitos dos alunos a ter faculdade. Aprendi a lutar contra o governo, falar contra, falar na cara que nós queremos assim. Eu aprendi o meu direito e do meu povo, direito da mulher. A mulher é muito forte, quando uma mulher fala perante juiz, perante governo, perante o presidente da república, parece que apaga um fogo.”

A cacica lembra com orgulho a conquista de direitos às mulheres indígenas. “Quando me sentei na frente do presidente Lula, ele assinou o direito das mulheres indígenas a ter Bolsa Família e apoio na natalidade de crianças. As aldeias conheceram depois que eu conheci os direitos, eu levei os direitos das mulheres indígenas a ocuparem vagas de emprego, em departamentos públicos federal, estadual, municipal. Consegui criar uma rede de associação de mulheres indígenas. Tudo que aprendi eu passei para as mulheres, e hoje elas ocupam cargos de enfermeiras, médicas e outras áreas”.

Com uma trajetória nacional, a líder indígena – e seu corpo em luta – afirma que chegou ao seu território para resistir. “Conheci vários povos do Brasil e do mundo e hoje estou aqui em São Francisco, que é nossa luta de frente com governo do estado e da união. Não dou colher de chá. É meu direito. Como mulher indígena luto pelo direito destas crianças indígenas e seu futuro. To com 62 anos, aqui pode ser o final da minha luta. Aqui eu vou ficar, os meus netos vão assumir esta luta, vão seguir com nossa tradição.”

*Cátia Cylene é jornalista, militante do movimento ecológico, adepta da agroecologia e da economia solidária, produtora teatral do grupo Os Quixotescos. Também é formada em Letras  e pós-graduada em Educação Ambiental.

**Publicada originalmente no site da ONG Amigos da Terra Brasil, por Deriva Jornalismo

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