Créditos das imagens: Reinhard Kleist – do site do artista http://www.reinhard-kleist.de/

Elvis comprando seu primeiro vinil, imagem da capa da graphic novel

Elvis Presley não é uma unanimidade. Foi um intérprete muito talentoso, subiu à fama meteoricamente e cativou milhões de fãs por todo mundo (e os fãs de Elvis estão entre os fãs mais viciados em seu ídolo). Eu, no entanto, não curto. Não vou explicitar aqui meus motivos, são muitos, longos e complexos. Até porque não é esse o objetivo deste texto, e eu já estou tergiversando. O que quero dizer é que, apesar de não gostar de Elvis, achei muito interessante a graphic novel biográfica dele, organizada pelos alemães Reinhard Kleist e Titus Ackermann.

Página da graphic novel, uma história que retrata discussões com o Coronel, a coleção de armas de fogo e o vício em medicamentos

“Elvis” é uma coleção de dez historias curtas e marcantes na vida do cantor. Kleist, já famoso quadrinista na Alemanha, por obras como as biografias gráficas de Johnny Cash e Fidel Castro, reúne outros grandes nomes da arte gráfica alemã e européia como Soren Mosdal, Uli Oesterle, Nic Klein e Isabel Kreitz, para contar cada um um capítulo da vida de Elvis.

E cada desses capítulos é individualmente muito bom. Com cada nova história, através da mudança no traço, percebe-se a mudança no estado de espírito de Elvis em cada fase de sua carreira e de sua vida. Kleist reuniu artistas muito diferentes entre si, todos muito talentosos, de modo que, além de se ter uma biografia de Elvis, temos também um bom panorama dos atuais artistas gráficos europeus. O traço infantil e quase caricato de Mosdal para a infância, o traço mais realista de Thomas Von Kummant contando a ascensão à fama, o desenho triste do próprio Kleist para quando Elvis entra no exército e perde a mãe, o simplismo de Tim Dinter para o divórcio com Priscilla e a sombria representação de Frank Schmolke para a morte do astro.

Um elemento muito inovador é a maneira que a música está representada ao longo das histórias (não sei se Kleist não usou recurso semelhante na biografia de Johnny Cash). As letras de músicas famosas de Elvis aparecem cada vez de maneira diferente, mas sempre de maneira sutil e simples, sem o destaque óbvio do balão de fala. O texto das músicas é mais um recurso imagético do que textual, nós vemos as letras mais do que lemos, e quando nos damos conta, quase subconscientemente, estamos cantarolando em nossas cabeças.

Outro aspecto muito interessante de se observar no livro é a variedade de Elvis retratados. Vemos a relação dele com a mãe, com o Coronel, seu empresário, com a mulher, com os amigos, com os Cadillacs, com as drogas. Temos visões muito diferentes, através do ponto de vista de cada ilustrador, da aparência do cantor ao longo de sua vida. Além das representações do cantor nas histórias, temos diversas ilustrações especiais de Ackermann, retratos de Elvis, que complementam muito bem a obra como um todo.

No entanto, é exatamente a obra como um todo que tem problemas. Apesar de serem todos roteirizados por Kleist e Ackermann, cada capítulo é tão diferente do anterior (não só visualmente, eu digo), que não se tem uma idéia de unidade. A obra parece desconexa e cheia de lacunas. Lendo, descobre-se e imagina-se sobre a vida de Elvis, mas apenas dez histórias isoladas em 42 anos da vida do astro. São como diversos capítulos isolados, como se cada história tivesse sido serializada individualmente e todas depois fossem coletadas no livro (e não é esse o caso). A não-continuidade entre as histórias e seu espaçamento temporal acabam tornando a graphic novel mais um apegado de relatos do que de fato uma biografia.

Retrato de Elvis do site de Reinhard Kleist que não está na obra

“Elvis” foi publicado na Alemanha em 2007, em homenagem aos 30 anos da morte do cantor. Foi publicado no mesmo ano em diversos outros países europeus. A tradução brasileira (de Margit Neumann e Michael Korfmann) foi publicada em 2010 pela editora 8Inverso, uma edição com 128 páginas custando em média 60 reais. Saliento que foi publicado aqui antes da versão estadunidense, terra natal de Elvis Presley, que até onde eu sei ainda não foi feita. Devo citar ainda que o comentário para o prefácio da edição alemã (não cheguei a ver a edição brasileira, pra ver se também está lá) é de Bela B, cantor, compositor e baterista da banda alemã Die Ärzte, aficcionado por Elvis e por quadrinhos.

Termino dizendo que ainda não gosto de Elvis Presley. Mas gostando ou não, não ignoro a sua influência em diversos músicos posteriores nem sua importância para o rock. Exatamente por isso, essa biografia gráfica é interessante. Indispensável para para fãs de Elvis, interessantíssima para quem gosta e para quem não gosta, e importante para quem (se tal pessoa existe) não conhece. Recomendável.

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