João Gordo e o guitarrista Jão no palco: parceiros de Ratos de Porão desde os anos 80

Fotos: Fernando Halal

Quem hoje vê o quase cinquentão João Gordo como uma espécie de popstar às avessas, um ícone mezzo underground, mezzo mainstream, até pode repetir o (constrangedor) equívoco cometido pelo pseudo ator Dado Dolabella, que chamou o vocalista do Ratos de Porão de “traidor do movimento” – um movimento que Dado provavelmente sequer supunha que existia ao mencioná-lo. Mas quem acompanha o principal nome do hardcore nacional sabe que, a despeito da carreira de seu frontman na TV e da paternidade, o cara continua o mesmo de sempre. O jeito desbocado, as composições agressivas, as críticas ao sistema; 30 anos depois, nada disso mudou, o que garante ao Ratos uma credibilidade que poucas bandas nacionais da década de 80 ainda podem desfrutar hoje em dia.

 Uma pequena prova disso foi a apresentação do grupo paulista no dia 17 de setembro, durante o projeto Segunda Maluca, no bar Opinião, em Porto Alegre, que recebeu um bom público, mesmo com o temporal que tomou conta da cidade no início da semana. Ao lado do guitarrista e membro-fundador Jão (outro “herói da resistência” underground), do também veterano baterista Boka e do “novato” baixista Juninho, Gordo mostrou que os trabalhos na televisão e a idade não o amaciaram. Nem na energia em cima do palco, nem na postura contestadora da banda, que sabe muito bem como mesclar a velocidade do punk com a técnica do metal.

C.J. Ramone (à direita) deu uma canja em "Commando", um clássico de sua ex-banda

Antes, rolou a abertura da banda local Jay Adams, que não se intimidou e mandou ver com seu hardcore ultraveloz (redundância?) e os agudos ininteligíveis do vocalista Luís. Nervosismo? Um pouco; afinal, não tem como ficar incólume ao fato de tocar no mesmo palco de uma lenda do HC.

 Os mais velhos lembram bem do disco R.D.P. ao Vivo, gravado em 1992, marcando uma década de carreira da banda paulista. Pois ainda agora, duas décadas depois, o show do Ratos lembra muito aquele registrado na extinta casa de shows Aeroanta: quase 30 músicas em ritmo aceleradíssimo, alguns covers matadores e breves e hilários discursos do vocalista.

 O antológico Anarkophobia (1990) é representado por várias faixas, como “Contando os Mortos”, “Morte ao Rei”e “Sofrer”, uma das mais bem recebidas pelo público. Desse disco também vale mencionar o cover de “Commando”, do Ramones, inclusive porque contou com a participação de C.J., baixista que integrou a última formação do grupo nova-iorquino. Memorável, assim como o discurso emocionado de Gordo lembrando os tempos em que a banda abriu para uma de suas principais influências.

Apesar do dia chuvoso, bar Opinião recebeu um bom público na segunda-feira passada

Outras versões merecem destaque, em um belo tributo ao punk brasileiro, como “Medo de Morrer”, do Inocentes, e “Olho de Gato”, do Olho Seco. Mas a que mais levantou a plateia – um pouco pelo bairrismo, é verdade –, foi “O Dotadão Deve Morrer”. “Mas bah, como vir a Porto Alegre e não tocar Cascavelletes?”, debochou o vocalista. Vale registrar também a excepcional versão de “Work for Never”, do Extreme Noise Terror, tal qual à registrada no Ao Vivo.

 A mais recente “Testemunhas do Apocalipse” foi dedicada aos filhos de Gordo, Victoria e Pietro, e cuja temática casou com a clássica “Crianças sem Futuro”, de Brasil (1988). E os clássicos não foram esquecidos: “Aids, Pop, Repressão”, “Beber até Morrer”, “Herança”, “Morrer”, “Crocodila”, “Crucificados pelo Sistema”, “Agressão/Repressão”, “Velhus Decréptus”, “Suposicollor”, “Caos”… Na boa, tem que ser muito chato pra reclamar de um repertório desses.

 Um show impecável, de uma banda que, se não está em seu auge, ainda mostra bastante tesão pelo que faz. E que já cansou de picuinhas e segmentações musicais, como fez questão de ressaltar João Gordo: “Aqui não tem punk nem metal, aqui é o clube recreativo Ratos de Porão”. E desta forma punks e headbangers saíram felizes do Opinião, com a alma lavada não pela chuva, mas por uma noite fantástica de hardcore.

 

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