Brincar sem excluir: mulheres cis e trans rompem preconceitos com novas histórias no Reisado do Ceará

Entrada de mulheres no Reisado do Cariri possibilitou maior acolhimento de pessoas LGBTQIAP+ nos grupos tradicionais
Mestra Melyssa é a primeira mulher trans a se tornar mestra de um grupo de guerreiro no Ceará. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

Juazeiro do Norte (CE) – Em diferentes épocas e contextos, quatro importantes mulheres da cultura popular do Cariri – região localizada no extremo-sul do Ceará – precisaram enfrentar a invisibilidade imposta a elas numa tradição que por muito tempo foi exclusivamente de homens para homens. Margarida (1935-2025), Mazé (67), Lohaynne (31) e Melyssa (34) subvertem essa ordem na Folia de Reis, também chamada de Reisado em estados do nordeste do Brasil.

Uma delas abriu caminho para que as outras pudessem encontrar o seu lugar na cultura popular. Seu nome era Maria Margarida da Conceição, a Mestra Margarida Guerreira. Falecida no ano passado, aos 90 anos, as mulheres que hoje lideram reisados e guerreiros na região a têm como grande referência. 

Assim como milhares de sertanejos no início dos anos 1900, Mestra Margarida migrou, aos 7 anos de idade, para o Ceará com sua mãe, Cordulina Maria da Conceição. A família viera cumprir a promessa romeira de morar no Juazeiro do Padre Cícero. Quando pôs os pés em solo juazeirense, a menina já tinha na cabeça peças de reisado que aprendera ainda em sua terra natal. De lá, também trouxe a lembrança do guerreiro, tradicional manifestação do ciclo natalino alagoano, que relembra a chegada do Menino Jesus e as andanças dos Três Reis Magos. 

Mestra Margaida (Foto: Mapa Cultural/reprodução)

Foi dela a iniciativa de criar o primeiro grupo de guerreiro composto apenas por mulheres na cidade de Juazeiro do Norte, chamado de Guerreiras de Joana D’Arc. Nome que, segundo a criadora, era uma homenagem à guerreira canonizada pela Igreja. À época, Mestra Margarida ouvia repetidamente que reisado e guerreiro “não são coisas de mulher”.

Em entrevista ao Nonada, o jornalista e pesquisador Ribamar Oliveira reitera que as raízes alagoanas do reisado cearense muito se devem ao legado dela. Além da contribuição com a cultura tradicional, segundo ele, a mestra: “tornou-se rizoma, pois a partir dela veio uma constelação de mulheres na cultura popular do Cariri cearense”.  

Seu grupo foi o responsável por abrir caminhos na tradição marcada por convenções patriarcais. Segundo Ribamar, com as coreografias mais dançantes das Guerreiras de Joana D’Arc, convencionou-se, no Cariri, que esta manifestação estaria reservada às mulheres. “Então, ficou assim, mulheres dançam guerreiro e homens dançam reisado”, explica o pesquisador.  

Se tem rei, pode haver rainha

Para entender como essas mulheres subverteram, e ao mesmo tempo, mantiveram a tradição, é necessário conhecer como se organizaram os postos dentro dessa cultura. Importante manifestação da cultura popular, o reisado chegou ao Brasil no período da colonização europeia, com a formação das irmandades religiosas negras. As irmandades eram compostas por pessoas africanas escravizadas que, ao serem retiradas à força do seu local de origem e do convívio familiar, utilizavam esses grupos para manter suas tradições, cultivar formas ancestrais de organização social e ritualística, como a celebração ao Rei de Congo.

Para o escritor Oswald Barroso (1947-2024), autor de Reis de Congo (Ministério da Cultura), as irmandades cearenses buscavam, para além do culto religioso, a alforria dos escravizados. Essa intenção pode ser percebida nos entremeios do reisado de congo cearense, através dos personagens “mateu” e “catirina”, representações de pessoas que desobedecem ao mestre do grupo e improvisam encenações teatrais para desorganizar e subverter o que sistema. 

No Ceará, o reisado de congo é um espetáculo que reúne dramatizações – denominadas de “entremeios” – e músicas cantadas e dançadas – as chamadas “peças de reisado”. As apresentações são realizadas em grupos, formados por uma mestra ou mestre, uma orquestra de instrumentos – com zabumba, pife, pandeiro, violão, triângulo, dentre outros – e seus brincantes, que se dividem entre uma diversidade de figuras (ou personagens): contra-mestre, embaixador, contra-guia, figurinha, figural, bandeirinha, contra-coice, mateu, catirina, rei, rainha, príncipe e princesa.

Os grupos de reisado se apresentam para o público com seus quilombos, como são chamados os cortejos realizados por ruas, terreiros, praças e casas para onde os convidam. Na cidade de Juazeiro do Norte (CE), os quilombos saem às ruas há, pelo menos, oito décadas, durante o ciclo de reis – período que compreende a véspera de Natal, em 24 de dezembro, até o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro. O quilombo é uma espécie de briga, dentro da cena, em que dois grupos rivalizam para “tomar” um castelo fictício, onde está a figura da rainha. Foi entendendo que as mulheres poderiam assumir posições que não estavam designadas tradicionalmente que a configuração dos grupos passou a mudar. 

A participação e o trabalho de Lohaynne foi essencial para que mais pessoas LGBTQIAP+ pudessem expressar, com segurança, as suas identidades dentro da cultura popular e tradicional. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

Brincar sem excluir 

Era o ano de 1941 quando José Francisco de Luna, aos 8 anos, viu, pela primeira vez, um reisado. Ali, apaixonou-se pela brincadeira de passos coreografados, trajes reluzentes e jogo de espadas. O sonho de entrar num grupo levou ainda alguns anos para se concretizar, pois o pai não aprovava. “Ele casou para se libertar do meu avô”, conta sua filha, Maria José de Oliveira Luna. Ela afirma que o pai sabia que só conseguiria brincar reisado quando saísse de casa, por isso, casar significava também a possibilidade de montar seu próprio grupo.

Foi somente em 1955, aos 22 anos e casado com Maria Celina Oliveira Luna, que José realizou o sonho de menino, tornando-se o Mestre Dedé de Luna do Reisado. Seu grupo era composto totalmente por homens. A formação durou por alguns anos, até que fatores como a desistência de integrantes e condições financeiras resultaram na dissolução do grupo. Mas a trajetória do Mestre Dedé no reisado não finalizaria ali.

Sua filha conta que, anos mais tarde, a paróquia do Muriti, bairro do Crato (CE) onde moravam, promoveu uma gincana e pediu a participação de um grupo de cultura popular. A família enxergou ali a chance de Dedé retomar a mestridade. “Mas ele falou que não ia, porque os meninos e homens da comunidade não queriam dançar. Aí, minha mãe Celina, eu e minhas irmãs falamos: ‘por que a gente não faz [um reisado] de mulher?’”, ao que o Mestre prontamente respondeu: “não dá certo não”.

Maria José lembra que, naquela época, “as mulheres não tinham direito de dançar, às vezes nem de assistir um reisado completo. Nós [ela e as três irmãs] éramos crianças e não podíamos assistir aos reisados de meu pai, não sei porquê. Mas a gente aceitava, né?”, diz. Mas as cinco mulheres – suas filhas, Maria José, Espedita, Maridalva e Penha, e a esposa Celina – convenceram o Mestre. O combinado era de que o grupo feminino de reisado seria montado e ensaiado apenas para a gincana. “Depois desmancha”, repetia Celina.

Ensaio do Reisado Decolores, liderado por Mestra Mazé. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

“ Ele e minha mãe conseguiram as meninas, tinha nós [as filhas] pelo meio, e foi. As meninas dançaram e cantaram muito bem. Meu pai se apaixonou pela formação e aquela força do reisado voltou de novo, sabe?”, lembra Maria José, com um sorriso e olhos marejados. “O grupo foi um sucesso e ficou sendo conhecido como ‘o reisado das mulheres’” – título que não incomodava o Mestre que, há pouco, dizia-se contra a presença feminina na brincadeira.

A filha lembra que ele dizia, empolgado: “pois não é que ficou bonito mesmo? Vamos continuar!”. O “reisado das mulheres” do Mestre Dedé de Luna permaneceu sob seu apito até o ano de 1994, quando ele se sentiu debilitado e decidiu entregar a patente. “E quem ele procurou pra entregar o grupo? Uma mulher!”, exclama Maria José. 

Apesar de ter herdado a paixão do pai pela brincadeira, a Mestra conta que ainda hesitou em receber sua patente: “Eu disse: ‘meu pai, é muita responsabilidade’”. Ao aceitar, Mazé estaria quebrando uma tradição convencionada nos moldes patriarcais: a de que a patente de mestre do reisado só pode ser passada do pai para um filho-homem. Mas o Mestre tinha certeza que a melhor forma de o Reisado continuar seria sob o olhar atento e cuidadoso da filha. “Você não vai deixar meu grupo morrer”, profetizou Mestre Dedé, que faleceu pouco tempo depois, em 2002.

Não deixar a tradição morrer

O Reisado Decolores do Mestre Dedé de Luna segue firme na brincadeira. Em 2024, a Mestra Mazé foi reconhecida pelo Estado do Ceará como Tesouro Vivo da Cultura. O título integra a política cultural da Secretaria da Cultura do Ceará, através da pioneira Lei nº 13.351 de 2003, que destina reconhecimento público, financeiro e acadêmico a quem se dedica a preservar manifestações da cultura popular cearense.  

Aos 67 anos, Mestra Mazé acredita ter feito exatamente como o pai lhe pediu: não deixou a tradição morrer. Mas também afirma usar da patente para promover melhorias. Ela conta que algumas coisas mudaram, como a estética e a estrutura dos trajes. Agora, eles têm “mais brilho” e são “mais leves”, para que as brincantes possam dançar mais confortáveis.

Sobre as mudanças que realizou como Mestra do grupo, ela diz: “Eu aceitei a entrada dos meninos LGBTs. Naquela época do meu pai, ‘Ave Maria!’ Nem pensar! Foi devido à criação da época. Mas como ele me disse que ia me passar a patente e que eu usasse como achasse que devia, sem fugir da tradição, assim fiz”.

Assuntos como identidade de gênero e sexualidade não são tabus no grupo de Mestra Mazé e de outros grupos da região. Além dos ensaios e das apresentações periódicas, os integrantes – de diferentes faixas etárias – reúnem-se para rodas de conversas sobre assuntos e problemáticas sociais, como discriminação de classe, LGBTfobia, segurança pública e saúde. 

“Falamos do que está acontecendo na sociedade. Porque um grupo de reisado é formado pra tirar as pessoas da rua, pra elas não ‘se perderem’. Então, sempre que podemos, a gente faz essas rodas de conversas pra dizer: ‘ó, isso não é certo! Isso é preconceito!’ Pra abrir mais a mente”, explica Lohaynne Rodrigues, brincante do Reisado Decolores há 15 anos.

Para além da função social do grupo, Mestra Mazé explica o principal motivo da diversidade sexual e de gênero não serem mais impeditivos para a participação no seu Reisado: “Como eu fui proibida quando era criança, eu me senti rejeitada, né? Então eu não quero rejeitar ninguém. Eles gostam, se dedicam à brincadeira. Eles se doam. E eu não quero que eles sintam o que eu senti”.

‘Quem ia abrir uma porta pra eu entrar?’

O cheiro de café passado e os retratos da brincadeira na parede dão as boas-vindas a quem entra na casa de Lohaynne. A brincante de 31 anos reside com o esposo no Muriti, bairro no município de Crato, onde também fica a sede do Reisado Decolores. Foi a mudança para lá que possibilitou sua aproximação com o grupo.

“Eu morava numa outra cidade e quando minha mãe resolveu vir morar aqui, minha prima me chamou pra um ensaio do grupo”, diz ela que, desde os 10 anos, nutria o desejo de fazer parte do reisado ao assistir cortejos. Na primeira oportunidade de ver um ensaio do grupo da Mestra Mazé, um brincante ficou doente e ela teve uma chance. “A Mestra me perguntou se eu poderia substituir e eu disse: ‘lógico!’”.

Ela narra o episódio com empolgação, mesmo não tendo sido exatamente como imaginava, já que começou na função de Catirina, figura que não integra diretamente a dança coreografada. “Eu nem sabia o que significava. Só ouvi a Mestra dizendo: ‘esteja aqui, amanhã, 11 horas, pra gente lhe ajeitar’¨ A Catirina é uma personagem negra, que pinta a cara e usa cabelo encaracolado, para falar sobre o que era a escravidão no passado. Foram necessárias duas apresentações, até que resolver dizer: ‘Mestra, não quero mais ser Catirina, não. Eu quero é dançar no meio das meninas!’”. Entretanto, o Reisado Decolores do Mestre Dedé de Luna ainda mantinha a formação inteiramente feminina e, como relata Lohaynne, a ocasião aconteceu antes do seu processo de transição de gênero.

O nome do grupo é uma homenagem ao pai de Mestra Mazé, fundador do reisado. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

“A Mestra não entendia o que eram identidades trans. Mas depois de algumas conversas, inclusive com sua irmã Penha – que trabalhava no CRAS do bairro –, ela autorizou minha participação. Mas disse que eu não ia usar saia igual às meninas, ia usar um shortinho no joelho. O importante era eu dançar, não era sobre roupa”, destaca.

Com a entrada de Lohaynne, o grupo tornou-se um dos precursores na inclusão de pessoas transgênero no reisado do Cariri cearense. “Quem anda pra trás é caranguejo, né? O reisado tem que evoluir”, exclama a brincante, ao afirmar que, desde sua entrada, a presença de pessoas LGBTQIAPN+ no Reisado da Mestra Mazé só aumentou.

“Quando eu entrei, uma menina, que já era brincante, chegou pra mim e disse: ‘mulher, eu achei tão bom tu participar, só assim eu vou ter mais confiança de falar pra Mestra o que eu sou’. Ela era uma mulher lésbica”, relembra.

A presença de Lohaynne deu início a uma nova tradição no Reisado Decolores: a de acolher pessoas interessadas na brincadeira, independente do seu gênero ou orientação sexual.

Lohaynne faz do reisado o seu modo de vida. Ao abrir espaço para si e quem mais quiser brincar, ela constrói sua história ao mesmo tempo em que perpetua o legado das mulheres que vieram antes, como as mestras Mazé e Margarida, que também precisaram quebrar as correntes em suas gerações.

As novas gerações têm subvertido a ordem patriarcal e as posições tradicionais do reisado. Foto: Arquivo pessoal/Reisado Decolores/Nonada

“Antes de entrar no reisado, eu era mais presa, vivia dentro de casa. Quando eu me assumi uma mulher trans, sofri muito preconceito dentro de casa. Mas quando eu vi que pude mudar fora [de casa], eu pensei que poderia mudar dentro também. E ao redor, aonde eu andasse. Em todos os cantos por onde  eu ando, o pouco que eu puder mudar, já valeu muito”, afirma. 

Há quem diga que ela “quer ser a mestra do Reisado”, já que, há cinco anos, vem ocupando uma importante posição: a de rei. “Minha função é conduzir o mestre e o contra-mestre, abrilhantar o grupo e não deixar a tradição ‘cair’, organizando os outros integrantes durante as apresentações. Eu sou rei e vou ser até quando Deus quiser”, diz ela, que acredita ter ainda mais lutas e conquistas pela frente.

Com seu relato, Lohaynne mostra que a tradição popular é algo imbricado na vida de quem a constrói dia a dia. “Continuo lutando para que haja mais mulheres trans na cultura. Enquanto eu estiver aqui, se houver outra pessoa trans querendo participar, eu estendo minha mão: ‘vem, que dá certo! Vamos, vai ser bom!’ Eu poderia não estar no reisado uma hora dessa. Quem ia entrar no reisado e abrir uma porta pra eu entrar? Mulheres trans sofrem bastante, então, enquanto eu puder lutar essa luta, eu vou. Pra mim, cultura popular é uma luta”.

A defesa da participação das mulheres em lugares de protagonismo atravessa as diferentes expressões da cultura popular. Foto: Arquivo pessoal/Melyssa Giselly/Nonada

‘Reisado é uma brincadeira sagrada’

A história da cultura popular do Cariri é escrita nas ruas e praças do João Cabral, bairro mais populoso de Juazeiro do Norte – e também bastante estigmatizado por discriminações de classe e raça. Não é raro ouvir da boca dos juazeirenses conselhos como: “tome cuidado com aquele lugar”.

O jornalista Ribamar Oliveira decidiu não ouvir tais conselhos. Em sua tese de doutorado intitulada “Reisados Transviados: o gênero brincante nas performances de tradição do Ceará”, o João Cabral foi um dos principais campos para sua pesquisa. Ao estudar transidentidades no reisado, o pesquisador concluiu que o bairro, além de abrigar importantes e longevos grupos da cultura popular da região, é também marcado pela presença de brincantes trans, travestis, lésbicas, bissexuais e gays. Foi lá que o pesquisador conheceu Melyssa Giselly, 34 anos, a primeira mulher trans a se tornar mestra de um grupo de guerreiro no Ceará.

“O reisado você brinca como técnica ou como promessa. Mestra Melyssa brinca como promessa”, afirma Ribamar, ao lembrar da ocasião em que ela ensinou-lhe a jogar espadas, encenação presente no reisado de congo, onde duas pessoas simulam um duelo empunhando espadas que se tocam do ar ao chão.

Em sua casa-ateliê no João Cabral, Mestra Melyssa Giselly recebe o Nonada para uma entrevista. Ela pede “desculpas pela bagunça” e explica que está empenhada “nas máquinas [de costura]”. Para além do trabalho à frente do grupo que criou – o Guerreiro Beija-Flor –, a Mestra é estilista e costureira.

Na sala de casa, também seu local de trabalho, há duas máquinas de costura e armários para guardar tecidos e aviamentos; nas paredes, trajes antigos do guerreiro pendurados; em frente à porta de entrada, seu altar religioso. Nele, está estampada a devoção ao Padre Cícero. “Eu sou católica. Nasci e me criei na Igreja Católica”, ressalta.

É também em sua sala onde a Mestra se reúne com as brincantes do grupo para ensaiar e realizar apresentações, estas ocorridas durante o período natalino. “Aqui, eu tiro todas as máquinas, tiro tudo e monto só o presépio”, diz ela apontando para o pequeno espaço.

A história de Mestra Melyssa e de sua família se mistura com a da cultura popular de Juazeiro. “Meu sangue é de brincantes do reisado”, orgulha-se ao contar do bisavô mestre de reisado e da avó brincante de lapinha – manifestação da cultura popular ligada ao ciclo de reis.

Foi a avó Maria José quem a inspirou a montar o grupo Guerreiro Beija-Flor. O desejo da Mestra ganhou força no período em que era a principal cuidadora da matriarca, acometida pelo Alzheimer. “Eu quem dava banho, dava comida, passava a noite acordada. Entreguei dois trajes [do reisado], porque não aguentava conciliar”, conta, sobre a época em que precisou se afastar da brincadeira para se dedicar à avó.

Apesar dos períodos difíceis, Mestra Melyssa relembra com entusiasmo sua trajetória que começou ainda na infância. “Já passei por muitos grupos, como o Reisado da Sagrada Família de Mestre Xexéu e dos Discípulos do Mestre Pedro”. Mas conta que só recebeu uma patente oficial das mãos de outra mulher: a Mestra Lúcia, do Reisado Estrela Guia, que confiou à Melyssa a função de contra-mestre.

Já o gosto pelo guerreiro veio pelo legado da Mestra Margarida: “Ela sempre vai ser uma peça fundamental do guerreiro em Juazeiro do Norte. A única mestra que brincou da forma que aprendeu em Alagoas foi ela. Eu nunca brinquei com ela, mas tive a oportunidade de conhecer, quando era criança, de sentar pra conversar. Quando conheci ela, me encantei”, recorda.

Ao acumular experiências sob o apito de diferentes mestras e mestres, Melyssa ressalta que cada um tem seu próprio jeito de brincar, e foi observando os mais velhos que aprendeu o seu: “Nossa cultura vem de gerações. Reisado não é brinquedo, é uma brincadeira sagrada. Eu não aceito ninguém vestir meu traje e fazer algo de errado. Trajou, respeitou. Reisado é coisa santa. Tanto é que quando o meu padrinho [Padre] Cícero viu, gostou e incentivou, e assim teve mais força”.

Quando perguntada sobre em que momento se sentiu pronta para formar seu grupo, a Mestra confessa: “Eu ainda não estou pronta (risos). Estou aprendendo, eu dou o meu melhor”. Mas se é para falar de sua mestridade, ela faz questão de citar aqueles que vieram antes. Quando decidiu concretizar a ideia, compartilhou primeiro com o Mestre Nena que, aos 75 anos, lidera o grupo Bacamarteiros da Paz: “Ele é o meu mestre, uma pessoa que sempre me incentivou muito. Quando eu estava naquela atribulação de vida, eu ia lá pra casa dele. Um dia, cheguei e disse: ‘vou montar meu próprio grupo’, e ele [respondeu]: ‘já tá na hora, faça valer a pena’”.

Mesmo não se sentindo “pronta”, Mestra Melyssa sabe que teve uma base forte. “O João Cabral é uma faculdade. É um bairro muito discriminado, marginalizado pela sociedade, mas aqui é uma faculdade pra cultura. Na minha infância, aqui era tudo reisado e quadrilha junina”.

Os quilombos são crtejos realizados por ruas, terreiros, praças e casas para onde os grupos convidam o público a participar. Foto: Arquivo pessoal/Melyssa Giselly/ Nonada

Por morar há anos no coração do bairro, considerado um celeiro cultural do Cariri, a Mestra já conheceu e recebeu em sua casa muitas pessoas interessadas no seu trabalho. Mas diz que não aceita todas as propostas. “Tem produtores que chegam até mim, pessoas que fazem projetos, que me ligam ‘do nada’, e eu digo ‘não, não’. Eu levo nome de besta. Mas eu nunca vou mudar pra agradar produtor nem movimento cultural. Podem cancelar todas as minhas apresentações, mas eu nunca vou perder minha essência”, enfatiza.

Como quem vivencia a brincadeira através da fé, Mestra Melyssa adverte que é preciso saber lidar com os fazeres da cultura popular e deixa uma crítica àqueles que não têm o cuidado adequado: “Cultura virou negócio, mas dinheiro não me compra”, diz ela, que guarda histórias do bisavô mestre de reisado, que viveu numa época onde não havia a oportunidade de receber auxílio financeiro ou remuneração para a manutenção dos grupos de tradição popular. 

Apesar de sagrada, a brincadeira de Mestra Melyssa não é só benção. Ao Nonada, ela relata as dificuldades enfrentadas para criar o Guerreiro Beija-Flor, grupo fundado diante de muito trabalho, para o qual ela usou dinheiro do próprio bolso para a confecção dos trajes e acessórios. “Eu digo por mim. Pra criar o Guerreiro eu sofri ‘babado’, eu sofri ‘pencas’, bicha. Pra montar um grupo você tem que ter dinheiro. Foi um sacrifício, eu chorava dia e noite. Mas eu sou grata a Deus por ser a primeira [mulher trans] à frente de um grupo de tradição”, afirma. 

Após acompanhar de perto a Mestra e o grupo de 2019 a 2024, durante sua pesquisa de doutorado, Ribamar Oliveira afirma ser imensurável o significado de Melyssa Giselly para a cultura e a juventude do João Cabral. Através dela e do Guerreiro Beija-Flor, meninos e meninas do bairro que não se sentem pertencentes a um padrão cisheteronormativo passaram a ter um espaço seguro para serem quem são.

Ao ser questionada sobre como é estar na cultura popular sendo referência para pessoas LGBTQIAPN+, Mestra Melyssa é categórica: “No guerreiro eu não levanto bandeira. Eu sou a própria bandeira. Eu quero é viver!”.

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