Fotos Mariana Gil

Aos 94 anos, Maria ajuda a reescrever a trajetória de Iberê Camargo

Um transeunte distraído que passar pela frente da casa branca, localizada numa das partes altas da zona sul de Porto Alegre, nem imagina que ela abriga um acervo invejável de obras de Iberê Camargo. Pudera, trata-se da residência em que ele morou de 1989 até a sua morte, e da primeira sede da fundação que leva o seu nome.

Entre as paredes cheias de quadros não vive apenas parte do legado artístico de Iberê. Mora ali a senhora de fala tranquila e cheia de memórias recortadas – Maria Coussirat Camargo, ou dona Maria, como todos a chamam. Presidente de honra da Fundação Iberê Camargo, ela se casou com Iberê em 1939, e guardou, durante o tempo em que viveu ao seu lado, todo o tipo de material documental relacionado ao artista.

Com um ar vivaz e um lenço colorido em volta do pescoço, Maria responde à pergunta sobre a sua idade sem rodeios: 94 anos. “Mas eu tenho a idade que eu aparento. Se vocês acharem que eu tenho 25, acredito”, comenta bem humorada. Hoje, o material que ela guardou está disponível ao público, inclusive no site da Fundação – só o acervo documental conta com mais de 20 mil itens. Eduardo Haesbaert, da Fundação Iberê Camargo, considera que sua atitude foi pioneira: “Ela fez um trabalho que se faz muito hoje, que é o de museógrafa, ou seja, ela guardou, ela anotou tudo”.

A idéia de memória sempre foi recorrente na obra de Iberê Camargo. O próprio título do seu livro, mais recentemente relançado pela editora Cosac&Naify, Gaveta dos guardados, remete ao passado. “A memória é a gaveta dos guardados. Nós somos o que somos, não o que virtualmente seríamos capazes de ser”, diz um dos trechos. Parte do material que hoje evidencia aquilo que Iberê foi passou pelas mãos da dona Maria.

Cartas, fotos, recortes de jornais, tudo o que rodeava a vida artística dele era devidamente recolhido por ela. “Eu guardava mais que o Iberê. Às vezes ele chegava aqui e rasgava tudo que era papel”, recorda olhando em volta para o ambiente que foi o ateliê do marido. Até mesmo a previsão das compras de tintas e papéis, anotados em cadernos, estão arquivados na fundação.

A iniciativa partiu de uma orientação de sua mãe que Maria lembra bem: “Quando ela conheceu o Iberê, e viu como ele era, disse assim: guarda tudo o que o Iberê faz, nem que seja um pedacinho de papel, mas guarda que aquilo é muito autêntico, é uma coisa que é forte”. A força da obra e a eficiência são as qualidades que ela mais reforça dos trabalhos do marido.

O papel de Maria, entretanto, vai além do de guardar memórias. Sua opinião era relevante no processo criativo do artista. Ela mesma formou-se em Belas Artes, trabalhando com desenhos, em especial de Arquitetura. Na época em que o casal viveu no Rio de Janeiro, por Iberê ter ganhado uma bolsa de estudos, ela trabalhou na Companhia Pederneiras, desenhando projetos como plantas de casas.

Pode-se dizer que a sua formação complementava de alguma forma as concepções de Iberê: “Eu tinha muita capacidade de fazer críticas. Ele, quando fazia alguma coisa, logo me chamava para dar opinião e saber como é que estava”, relembra. Eduardo reforça essa influência. “A Dona Maria dava palpite sobre as cores, para dizer o que estava faltando na composição”.

Quando questionada se existia, portanto, a sua ‘mão’ na produção de Iberê, ela se remete entre risos à personalidade forte do marido. “Embora aceitasse o que eu dizia, ele fazia o que queria. Quando eu pensava que ele estava acertando, de acordo com as minhas opiniões, eu chegava lá e ele tinha acabado com tudo. É, o artista, ele não vai atrás do que os outros dizem, nem nada. É dele, aquilo”, relata.

A  intensidade do trabalho de Iberê traspassa a história da esposa. Ela conta com bom humor que ele lhe pedia que ficasse ao seu lado durante as horas e horas de pinturas, mesmo de madrugada. E quando dava por terminado o trabalho do marido, enganava-se: “Quando eu via, ele já estava fora da cama, pintando”.

Em compensação, em termos de guardar a própria produção artística, Maria nunca foi tão zelosa. Ela conta com naturalidade que Iberê rasgou muitos dos seus desenhos. “Podia rasgar, eu não gostava do que eu fazia, achava tudo errado”. Quando nos mostrou dois de seus quadros, já alterados pelo efeito do tempo, ela, com um ar risonho, disparou: “vou decepcionar as meninas!”. As pinturas retratam uma paisagem campestre e o retrato de um velho. Pinceladas delicadas e precisas.

Se a sua realização não derivou de sua formação enquanto artista, o trabalho de guardiã de memórias concede-lhe uma relevância inegável no meio artístico. Toda a coleção de Iberê, que leva o nome de Maria, foi por ela doada à Fundação Iberê Camargo.  Aliás, Maria não consegue definir o que mais gosta dentre as atividades que exerce da Fundação, mas Eduardo arrisca-se a responder em seu lugar: “No fim, acho que do que a Dona Maria mais gosta é disso, da função de guarda das obras, das pinturas, dos desenhos, guaches, jornais, fotos. E isso tudo é a base da Fundação”.

Portanto, de abrir a Gaveta de guardados de Iberê e reavivar a sua memória para o público, Maria entende. Sua obra preferida do marido está no livro que leva tal nome. Não é uma pintura, nem uma gravura, nem um guache. É um breve texto datado de 1940 que carrega uma dedicatória simples e específica. “Chama-se Depois”, ela comenta com o tom de voz baixo.

Depois (À Maria)

“Quando eu estiver deitado na planície, indiferente às cores e às formas, tu deves te lembrar de mim. Aí, onde a planície ondula, a terra é mais fértil. Abre com a concha da tua mão uma pequenina cova e esconde nela a semente de uma árvore. Eu quero nascer nesta árvore, quero subir com os seus galhos até  o beijo da luz. Depois, nos dias abrasados, tu virás procurar a sua sombra, que será fresca para ti. Então no murmúrio das folhas eu te direi o que meu pobre coração de homem não soube dizer”.

Iberê Camargo

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