Cyndi Lauper mostra que entende também de blues

Texto:

Paulo Finatto Jr. (paulofinattojr@hotmail.com)

Fotos:

Liny Rocks (http://www.flickr.com/linyrocks)

Para muitos, a segunda apresentação de Cyndi Lauper na capital gaúcha seria a grande oportunidade para conferir todos os sucessos da cantora que fez história na década de oitenta. No entanto, os desavisados se surpreenderam com os rumos que o show tomou desde o seu início. A noite foi, sobretudo, dedicada ao blues do mais recente e surpreendente álbum, intitulado “Memphis Blues”.

Com a mesma pontualidade que contorna todos os espetáculos produzidos pela Opus, às 21h Cyndi Lauper subiu ao palco do Teatro do Bourbon Country para encerrar a sua mais recente turnê brasileira, que já havia passado por Recife, Rio de Janeiro, São Paulo (duas datas), Goiânia, Cuiabá e Brasília. Despida de qualquer formalidade, Cyndi entrou em cena como quem não queria nada, sem nenhum estardalhaço típico das grandes estrelas da música. A banda, formada por competentes músicos de blues, proporcionou uma das noites mais agradáveis possíveis. Aliás, o público gaúcho esgotou diversos setores da casa com dias de antecedência.

A abertura da noite ficou por conta de “Just Your Fool”, uma faixa de muita representatividade dentro do seu novo repertório. Do mesmo modo, “Shattered Dreams” apareceu na sequência e surpreendeu uma boa parte dos expectadores, que certamente não aguardavam um set extremamente dedicado à nova empreitada da cantora, muito diferente do pop característico de trinta anos atrás. No entanto, é inegável a qualidade de “Memphis Blues”. Para comprovar isso com números, Cyndi Lauper atingiu com o disco o Top 30 das paradas norte-americanas, o que não acontecia desde o sucesso de “True Colors” (1986).

No fim de 2009, Cyndi anunciou através do seu Twitter que iria gravar um inesperado disco de blues. O décimo primeiro registro de estúdio da cantora sucedeu o mediano “Bring Ya to the Brink” (2008) e rapidamente conquistou o reconhecimento da crítica e dos fãs. De um lado, o New York Post o elegeu como o sétimo melhor disco de 2010. De outro, estreou na 26ª posição da parada da Billboard e vendeu mais de quinze mil cópias somente na sua semana de lançamento, em março do ano passado. O disco, que é considerado um sucesso para o gênero, atingiu pouco tempo depois a primeira posição no segmento blues da Billboard e é recheado de participações especiais. O renomado pianista de R&B Allen Toussaint e ninguém menos que B.B. King são apenas dois dos oito convidados que aparecem na obra.

Na sequência do espetáculo, um pequeno incidente com a imprensa motivou o pedido de Cyndi Lauper para que todos os fotógrafos que estavam na frente do palco deixassem o lugar. A cantora, que descia para cantar junto à grade, se incomodou com as lentes extremamente próximas dos profissionais. O público, que sem nenhum sentido aplaudiu a atitude de Cyndi, cantou junto com ela “She Bop”, uma das mais famosas composições do disco “She’s So Unsual” (1983), que projetou a carreira da vocalista norte-americana para o mundo inteiro. Entretanto, o blues “Early in the Mornin’” comprovou o impacto positivo que o novo disco possui. As clássicas “All Throught the Night” e “The Goonies ‘R’ Good Enough” vieram em seguida e foram muito aplaudidas pelos gaúchos.

Cynthia Ann Stephanie Lauper Thornton estreou no cenário da música pop no início da década de oitenta com o disco “She’s So Unsual” (1983). A cantora, que ganhou notoriedade com as músicas “Girls Just Want to Have Fun” e “Time After Time” na época em que a MTV determinava o sonho de consumo norte-americano, se tornou em pouquíssimo tempo uma das pop stars mais influentes da sua geração. Pelo seu jeito rebelde e visualmente mutante, Cyndi serviu como inspiração para o sentimento de ousadia que viria a ser inserido em nossa sociedade, sobretudo relacionados àqueles que buscavam a liberdade sexual na época. Com uma carreira consolidada inclusive como atriz, a vocalista venceu o Grammy e o BMI Millionaire Award, pela marca de cinco milhões de execuções da faixa “Time After Time” em rádios dos Estados Unidos.

Depois da baladinha “Lead Me On”, a execução de “Crossroads” surpreendeu muita gente. A música, escrita por Robert Johnson e imortalizada na voz de Eric Clapton, mostrou a versatilidade de Cyndi Lauper em um gênero desacreditado pelos fãs apenas de pop. Nessa altura do show, a banda que acompanhava a cantora proporcionava um espetáculo à parte, com direito a uma série de solos – de bateria à guitarra. No entanto, a percussionista baiana Lan Lan, que ficou famosa por tocar ao lado de Cássia Eller, é quem verdadeiramente se sobressaía. Embora tenha se desgastado um pouco quando despachou os fotógrafos no início da apresentação, Cyndi mostrou bom-humor e carisma ao puxar um “parabéns a você” para uma fã que fazia aniversário, isso antes de “Don’t Cry No More”. O público, que razoavelmente se mostrava envolvido com o show, acompanhou um outro sucesso das antigas, “Change of Heart”, antes do encerramento da primeira parte com o blues “Rollin’ and Tumblin’”.

Poucos minutos depois, Cyndi Lauper retornou para o bis. A sonoridade mais íntima do blues dada a “Girls Just Want to Have Fun” pode ter descaracterizado esse que é considerado um hino na opinião das mulheres da década oitenta. De qualquer modo, o público se envolveu com a música que foi nitidamente estendida, ao mesmo tempo em que cantou e dançou junto com a estrela da noite. Em seguida, a romântica “Time After Time” praticamente encerrou o repertório dedicado aos clássicos eternos da vocalista. A exata metade da apresentação dedicada ao blues ainda contou com “Mother Earth” – sem o mesmo pique do início do show – antes do encerramento em definitivo com “True Colors”, em uma versão à capela com apenas Cyndi Lauper no palco.

No ano em que completa 58 anos, Cyndi Lauper mostrou um show de 1h40 suficientemente interessante para o público gaúcho que possuía, em média, trinta e cinco anos de idade. Embora muitos tenham se decepcionado pela ausência de um repertório que abordasse exclusivamente os dois primeiros discos da cantora, não há como não mencionar como a banda e como o blues tornam a apresentação cativante. A voz da cantora, por mais que atinja todo volume que fez sucesso no passado, não é mais a mesma. No fundo, pouco importou porque praticamente tudo que os fãs queriam ouvir não foi deixado para trás na última data da Memphis Blues Brazil Tour.

Set-list:

01.  Just Your Fool
02.  Shattered Dreams
03.  She Bop
04.  Early in the Mornin’
05.  All Through the Night
06.  The Goonies ‘R’ Good Enough
07.  Lead Me On
08.  Crossroads
09.  Down Don’t Bother Me
10.  Don’t Cry No More
11.  Change of Heart
12.  Rollin’ and Tumblin’
13.  Girls Just Want to Have Fun
14.  Time After Time
15.  Mother Earth
16.  True Colors

Comentários

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2 comentários em “Cindy Lauper: a noite em que o blues se sobrepôs ao pop dos anos oitenta”

  1. Em 1º lugar o set list correto é este e ela não cantou Rollin’ The Tumblin’:

    Just Your Fool
    Shattered Dreams
    She Bop
    Early in the Mornin’
    Shine
    Edge Of The Earth (A Capella)
    All Through the Night
    Lead Me On
    Crossroads
    Down Don’t Bother Me
    Don’t Cry No More
    The Goonies ‘R’ Good Enough
    Change of Heart
    Girls Just Want to Have Fun
    Iko Iko
    Hey Now
    Rain On Me (A Capella)
    Time After Time
    Mother Earth
    True Colors
    Power To The People

    O Show aqui em Porto Alegre foi maior do que em outras capitais e para todo o pessoal que estava lá saiu de boca aberta em ver um show tão bom quanto de outros artistas, tomara que ela venha sempre para o Brasil e inclua a capital porto alegrense em todas as grades de show porque nós sempre estaremos lá para ouví-la!

    Ótima resenha !

    Angelo Flesch
    Wanna Have Fun Club Cyndi Lauper

  2. “O público, que sem nenhum sentido aplaudiu a atitude de Cyndi”… eles estavam atrapalhando ela de
    chegar mais próximo do público. E, ela como prefere o ´bem estar de seus fãs, fez a coisa certa. E, arrasou na atitude e na performance, como sempre. Dá-lhe CYNDI!!!

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