Banda sobrevive no underground sem aliviar nas letras, cujo conteúdo é altamente pornográfico (Crédito: Rafael Rezende - Divulgação)

Texto: Daniel Sanes

Poucas bandas brasileiras representam tão bem o trinômio sexo, drogas e rock’n’roll como as Velhas Virgens. A putaria está registrada em boa parte das letras do grupo paulista; as drogas podem até ter tido sua cota, mas quem manda mesmo é a cerveja; já o rock, bom, esse é o grande trunfo dos caras, que sobrevivem no underground há duas décadas e meia. O som é simples e sem mistérios: riffs básicos, rocks a la AC/DC e Rolling Stones, blues e baladas nada chorosas. Enfim, uma banda sem frescuras e sem preocupação em fazer algo mais palatável para tocar no rádio.

“Já chegaram a nos sugerir pra mudar o nome da banda e fazer algo mais Claudinho e Buchecha”, revela Paulão de Carvalho, o frontman das Velhas, por telefone, de sua casa em São Paulo. Incrédulo, pergunto quem teve essa brilhante ideia. O vocalista é taxativo: “Um desses executivos de gravadoras completamente retardados. Para esse tipo de sujeito, fazer disco é como fazer sabonete, é só vender um produto qualquer. E a música, por pior que seja, é o retrato cultural de uma realidade, não dá pra tratar desse jeito”. Por essas e outras, a banda lança seus discos pela Gabaju Records, selo administrado pelo guitarrista Alexandre “Cavalo” Dias.

Aviso aos pais: conteúdo explícito

Se o rock simples e cativante do grupo paulista não tem grandes mistérios (e, nos tempos atuais, nem apelo radiofônico), as letras, sim, ainda provocaram dores de cabeça nos DJs. Afinal, mesmo para quem nunca ouviu nada da banda, não é difícil imaginar o conteúdo de músicas com títulos singelos, como “Só pra te Comer”, “Siririca Baby” e “Abre Essas Pernas” – isso para não mencionar outros mais explícitos, como “O que é que a Gente Quer (B.UC.E.T.A.)” e “Quero te Ver Gozar pelo Cu”…

“O pior é que os caras das rádios até gostam das nossas músicas, mas não podem tocar por causa dos padrões do politicamente correto”, explica Paulão, ele mesmo um “homem da comunicação”. Trabalhei na 89 FM, na rádio Globo… Hoje sou redator do Domingo Legal, do SBT”, diz o vocalista, formado em Rádio e TV pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

O emprego em uma rede de televisão mostra a dificuldade de se sustentar com uma banda independente. No entanto, o vocalista garante que, dependendo das circunstâncias, dá para viver de rock’n’roll. “Já teve época em que fiquei só tocando. Na verdade, hoje em dia está mais fácil viver de música. O problema é que a gente sempre gastava mais do que ganhava! Sou boêmio, gasto muito em bar. O negócio é cortar a cerveja importada”, ironiza, em meio a risadas.

O homem da comunicação e “quase” CQC

 

O lado comunicador desse corintiano roxo se tornou conhecido nacionalmente quando ele participou do concurso para escolher um novo apresentador do CQC, da rede Bandeirantes. Desbocado e carismático, o líder do Velhas Virgens chegou a ficar entre os semifinalistas. No entanto, uma coisa é certa: se tivesse sido escolhido, ele não deixaria o grupo. “Alguns até me avisaram: ‘se você passar, coloca no contrato que vai continuar com a banda, que você tem outros compromissos’. Seria muito legal se eu tivesse entrado, o CQC é um programa bacana, mas eu sempre digo: minha prioridade é a banda”, garante.

Prioridade na vida profissional, porque na vida pessoal… Paulão hoje é outro homem. Não que as noites de boemia e cerveja até o amanhecer tenham chegado ao fim, mas agora concorrem – e, invariavelmente, perdem – para as que ele fica ao lado da mulher, Andréa, e da filhota Maria Júlia, de apenas seis meses. A menina, aliás, deu uma choradinha no meio da entrevista, e o pai, claro, pediu uma pequena pausa para pegá-la no colo. Isso mesmo: Paulão, o vocalista e bebedor de cervejas da banda mais escrachada do Brasil, agora é um dedicado pai de família.

“Sonho em ser pai desde sempre… E hoje sou pai de uma menina linda, é uma sensação fantástica”, afirma ele, emocionado. Se a carreira prejudica a paternidade ou vice-versa? “Nem um pouco. Na verdade, eu já fico acordado até tarde mesmo, então posso curtir e cuidar da Maria Júlia e trampar sem problemas”.

Misturar o pessoal e o profissional, no entanto, não parece ser uma boa ideia para Paulão. Tanto que nem pensa em levar a filha em turnês, ao menos por enquanto. “Estar em uma banda é um trampo como outro qualquer. Imagina se todo mundo resolvesse levar a família para o trabalho”, compara.

Pergunto se ele não pensa que um dia pode se arrepender de todas as letras sacanas e putarias que escreveu e cantou, já que sua filha vai crescer e pode não achar o trabalho do pai tão legal assim. “Cara, tudo o que a gente escreve e toca é sincero, são coisas que vivemos ou presenciamos. Se um dia eu me arrependesse disso, é como fosse tudo uma mentira, uma farsa, como se não fosse eu. E eu sou isso mesmo: um cara que curte rock, que toma muita cerveja nos botecos da vida, que sempre curtiu a noite.”

DVD comemorativo será gravado no mês de junho em Porto Alegre

Paulão ao vivo junto com Juju, única integrante feminina da banda (Crédito: Tatiana Pugliesi - Divulgação)

Se você é fã de rock’n’roll, marque aí na sua agenda: no dia 9 de junho, as Velhas Virgens vêm a Porto Alegre gravar seu segundo DVD ao vivo. Será um show histórico, já que marcará os 25 anos da maior banda independente do rock brasileiro. A apresentação ocorrerá no bar Opinião.

“A galera daí curte bastante o nosso som. Mas é claro que, em se tratando de uma banda independente, outros fatores têm que ser considerados. Estávamos procurando um lugar que tivesse uma estrutura bacana e fosse viável, e como já temos uma parceria com o Opinião, resolvemos fazer em Porto Alegre”, resume Paulão.

Sobre o repertório, ele diz que a proposta é mesclar os hits “de sempre” com canções mais obscuras. “A primeira parte seria uma espécie de lado B acústico. Depois, a gente levanta da cadeira e toca as clássicas”, adianta. Também está prevista uma música nova, com o sintomático nome de “Eu Toco Rock’n’Roll”, e uma do Carnavelhas (primeiro de dois discos em que a banda toca suas “desinibidas” marchinhas carnavalescas), “Hino dos Solteiros”.

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