Vocalista do Flaming Lips, Wayne Coyne, entrou no palco dentro de uma grande bolha (Crédito: Reprodução Flickr Festival Lollapalooza)

Texto: Jessica Gustafson Costa (je.g.costa@gmail.com)

É difícil para nós, brasileiros, imaginarmos um festival que não permita a venda de bebidas alcoólicas. Entretanto, por mais surreal que isso pareça, a coisa pode dar muito certo. Realizado pela primeira vez na América do Sul (no Chile, nos dias 2 e 3 de abril), o Lollapalooza foi praticamente perfeito. Com um line up bem diversificado, um público de quase 80 mil pessoas provindas de diversos países e setores de entretenimento bem elaborados, foi possível, até mesmo, esquecer alguns problemas de organização, típicos de uma primeira edição. O preço da alimentação era razoável, os banheiros inesperadamente limpos, a localização acessível e a polícia cordialmente solícita.

O festival, que ocorre a duas décadas nos Estados Unidos, parando em 1997 e voltando em 2003, é organizado por Perry Farrel, vocalista do Jane’s Addiction.  Muitos comparam a representatividade cultural deste festival para os jovens dos anos 90 com o Woodstock nos anos 60. No Chile, a impressão mais marcante foi o clima familiar no enorme Parque O’Higgins, que contava com um palco infantil projetado já nas edições originais. Nas duas noites se realizaram um total de 57 shows, divididos em cinco ambientes.

Na primeira, quem encerrou o dia de apresentações foi a banda norte-americana The Killers, fazendo um show impecável tecnicamente, mas morno, decepcionando muitos fãs. Brandon Flowers pareceu mais minúsculo do que é e, aparentemente, sem nenhum entusiasmo, refletindo obviamente na empolgação do público.  Sem tocar juntos há mais de um ano, os caras repetiram seus grandes sucessos como “Mr. Brightside”, “Spaceman”, “Somebody Told Me”, “For Reasons Unknown”, “When You Were Young”, “The World We Live In” e “Human”, encerrando a apresentação 30 minutos antes do previsto no programa. Entretanto, ficou a dúvida se a organização alterou o tempo para preencher o horário vago no folheto, em razão da desistência da banda Yeah Yeah Yeahs.

Kayne West mostrou grande animação em seu show (Crédito: Reprodução Flickr Festival Lollapalooza)

Na segunda noite, encerrando o festival, o rapper Kanye West agitou os fãs e simpatizantes. O cantor, que encerrou sua apresentação no horário exato do programa, soube fazer diversas firulas para matar o tempo.  Dizem as más línguas que Kanye não é muito conhecido no Chile e que utilizar esse espaço foi uma maneira de alavancar um sucesso mundial. Se isso for verdade, creio que ele conseguiu. Mostrando-se animadíssimo com a apresentação, percorria a passarela que o levava para o meio da plateia, aparentemente incansável com o alto ritmo de seu show.

Com diversos shows acontecendo simultaneamente e o sol forte, ficou impossível conferir toda a programação. A Banda The Flaming Lips fez uma aparição psicodélica, misturando balões coloridos, papéis brilhosos e dançarinos fantasiados. O contratempo foi o forte calor que fazia no horário do show, levando muitos a assistirem de longe, embaixo das árvores. Wayne Coyne, vocalista da banda, entrou no palco dentro de uma grande e cômica bolha, fazendo jus ao seu perfil sempre surpreendente. Outra atração à parte foram as imagens malucas que eram passadas no telão. O espetáculo sonoro e visual, que durou apenas uma hora, merecia certamente um bom tempo a mais.

Outra surpresa da edição chilena foi a banda norte-americana 30 Second to Mars. O cantor e ator Jared Leto mostrou que sabe exatamente aproveitar sua experiência cênica para a música. Subiu ao placo com uma bandeira do Chile, ficou debruçado sobre a plateia, e por fim, chamou um grupo de fãs para subir e cantar ao seu lado. Suas músicas, que têm sempre um apelo dramático, favorecem muito o desempenho da apresentação para um grande público. Deve-se deixar registrado também o fascínio que ele desperta nas fãs do sexo feminino.

Difícil saber qual a receita certa para fazer um grande show num festival deste porte. O público é muito diverso, o número de bandas amplo e todo mundo quer se guardar para aquela apresentação em especial. Incrivelmente, quem chegou mais próximo disso, ou pelo menos levou a bailar desde as crianças até os mais tiozinhos, foi a banda de cúmbia chilena Chico Trudilho. É claro que eles estavam em casa e cantavam músicas muito conhecidas pelo pessoal de Santiago. Entretanto, tinha muito estrangeiro se remexendo com o ritmo contagiante. O grande sucesso “Loca” tomou conta do parque, levando o show a um patamar emocionante. Complicado fazer alguma comparação com algum expoente brasileiro que abranja tantas gerações.

O saldo destes dois dias de festa não poderia ter sido melhor. Mesmo com alguns shows perdidos por conta dos horários, o festival será inesquecível. Uma boa parte do sucesso deve-se também a escolha da cidade. O Chile mostrou que sua capital, Santiago, está superpreparada para receber eventos de porte internacional, contando com uma vasta quantidade de hotéis a preços acessíveis, um comércio pronto para o turismo e um sistema de metrô seguro. Atrás do folheto de programação, a frase: “Nos vemos el 2012!”. Tomara.

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