Pedro Juan Gutiérrez comentou sobre o jogo na literatura no segundo dia do III Congresso de Jornalismo Cultural (Crédito: Nelson Mello)

 O trabalho do escritor consiste em viver na rua para depois se trancar sozinho num quarto, sonhar, refletir o que viu e só então escrever. Assim como a masturbação, a gente imagina, fantasia com uma desconhecida que viu na rua e depois se tranca no quarto para sonhar com ela“.

Essa é apenas uma frase do belo conjunto que Pedro Juan Gutiérrez soltou nessa manhã do dia 18 de maio, segundo dia do III Congresso de Jornalismo Cultural que acontece em São Paulo até sexta-feira. O escritor cubano era um dos palestrantes mais esperados e a sua sessão estava completamente lotada. Com mediação do jornalista Xico Sá a palestra teve como tema “O jogo na escrita:o desconhecido, o inexplicável, a escuridão”. Para falar sobre o jogo literário Gutiérrez trouxe como apoio dois de seus autores favoritos: o argentino Cortázar e o austríaco Kafka. Para ele, esses autores utilizavam o que ele chama de brincadeiras literárias. “Cortázar tem esse lado de esconder uma narrativa sobre outra, quase como um jogo de adivinhação”, diz o escritor. Com Kafka ele afirma que demorou cerca de 20 anos para ler todo o livro Metamorfose. “‘Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto’, era a frase mais aterrorizante que eu já havia lido.”, confessa. E continua dizendo que a melhor arte é feita por aqueles não se levam muito a sério, que não temem tentar, que se expressam de modo diferenciado. Tal como Kafka e Cortázar, escritores que, apesar de admirar muito, não se vê uma aproximação com a sua obra. “Nós amamos os deuses, mas não os copiamos. Eu me recuso a fazer o mesmo caminho dos outros. Um artista tem que traçar sua própria linha”, analisa.

E dá para dizer que é exatamente isso que Gutiérrez vem fazendo. Começou a trabalhar aos onze anos, como vendedor de sorvete e de jornal. Foi soldado durante quase cinco anos, instrutor de natação e caiaque, cortador de cana-de-açucar e trabalhador agrícola de 1966 a 1970, técnico em construção, desenhista técnico, locutor de rádio e, durante 26 anos, jornalista. Função que ele afirma que não voltaria a exercer. “A diferença é básica: como jornalista devo seguir a linha editorial do veículo do qual trabalho. Como escritor, trabalhando com ficção eu sou o meu chefe”, fala. E depois acrescenta que o jornalismo, diferentemente da literatura, não pode revelar a escuridão ou o mistério de um mundo usando uma linguagem padronizada, do dia a dia. “Não dá para fazer”, afirma.  Na ficção, encontrou seu caminho quando lançou a “A Trilogia Suja de Havana” em 1998, desde lá já lançou mais e dez livros.

 Igual a vida real

Pedro também abordou, já na coletiva de imprensa que aconteceu após a palestra, o jogo de linguagem que faz em sua obra. “Eu aprendi a mexer com a estrutura das frases nas agências de notícias, trabalhando como jornalista mesmo. Trouxe isso para a ficção adaptando, trocando orações subordinadas. É disso que se trata quando digo que não respeito a gramática”, explica.

O autor não acredita em Oficinas Literárias, pois elas padronizariam uma forma de se escrever e, para ele, escrever é algo muito íntimo, sofrível e, por muitas vezes, até masoquista. É quando ele se lembra da época em que escreveu a obra “O Rei de Havana”. “Era um tempo muito sombrio em minha vida. Foram três anos escrevendo e as coisas não estavam bem em Cuba, eu havia me divorciado e estava bebendo e fazendo muitas loucuras. Foi difícil escrever esse livro”, diz. O dinheiro também estava curto na época, mas quando indagado se ele escrevia por causa de um retorno financeiro, ele é categórico: “Mesmo que pareça mentira eu nunca escrevi por dinheiro. Escrevi a partir do ódio. Apesar de baixo conseguia me manter com o meu salário de jornalista da época – dava para comprar cerca de 30 ovos com todo o salário”, explica.

 Seus personagens se confundem com figuras que ele conheceu na vida real. Algumas vezes, ele relata, que já sofreu até ameaças por parte de pessoas que se viram retratadas em suas obras. “Grande parte dos personagens são reais, às vezes é até difícil de trocar o nome de um por um outro nome, porque até isso combina”, revela entre risadas. Seu trabalho como escritor é disciplinado, tem certa hora para escrever, escreve no punho, depois redige, então revisa. O autor se distância um pouco daquele personagem que “vive das coisas boas da vida”? “Não, ainda sou o mesmo, só estou mais tranqüilo, mais velho, com 60 anos. Estou vivendo com uma bela mulher na Espanha e terminando mais um livro. Os gostos não mudaram, as coisas estão apenas mais calmas”, finaliza.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada – Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria

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