Fotos: Fernando Halal

Bonecos Ziglo e Groco, ao fundo, dão um toque especial no show do grupo mineiro

Quem considerava o Pato Fu a banda mais “fofa” do rock nacional deve ter elevado esse conceito à enésima potência após o lançamento de Música de Brinquedo, no ano passado. O jeito e a voz da vocalista Fernanda Takai ficaram ainda mais doces nesse álbum, que consiste em 12 versões de sucessos da música brasileira e internacional tocados com brinquedos e instrumentos feitos para crianças.

O fato é que mesmo os detratores da banda mineira devem tirar o chapéu para essa iniciativa ousada – embora não 100% inovadora, pois Tom Zé já se utilizou de “cacarecos” em sua música, só para citar um exemplo. Se no disco os arranjos ficaram bastante interessantes, ao vivo a experiência torna-se mais completa, com um cenário divertido, uma iluminação impecável e, é claro, a habitual competência do Pato Fu.

O sucesso da empreitada pôde ser visto em duas concorridas apresentações que lotaram o Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, neste domingo, 21 de agosto. Como era de se esperar, havia muitas crianças no público. Claro que algumas delas foram “arrastadas” pelos pais, possivelmente fãs das antigas do grupo mineiro. No entanto, muitas delas mostraram estar familiarizadas, senão com o repertório de quase duas décadas do Pato Fu, ao menos com os covers que compõem Música de Brinquedo.

Em um palco decorado por bonecos joão-bobo, a banda inicia a apresentação com “Primavera”, (de Cassiano, mas famosa na voz de Tim Maia), e segue com “Sonífera Ilha”, dos Titãs. A voz suave de Fernanda casa perfeitamente com os arranjos, mostrando que os músicos foram muito felizes também na hora de escolher quais faixas deveria ganhar essa roupagem.

John Ulhoa e Fernanda Takai se divertem com a turnê do disco Música de Brinquedo

“Talvez hoje seja o primeiro show de um bocado de gente”, diz a vocalista, obviamente se referindo aos pequenos espectadores. A banda inicia, então, a balada “Rock and Roll Lullaby”, de B. J. Thomas, na qual os fantoches localizados no fundo do palco ensaiam uma dança romântica.

Os bonecos do grupo Giramundo, aliás, são uma grande sacada no show. Sem poder contar com Nina, filha de Fernanda e do guitarrista John Ulhoa, e seus amiguinhos, que fizeram os backing vocals no disco, o Pato Fu utiliza-se de dois monstros, Ziglo e Groco. Mais do que cantar, eles interagem, brigando, contando piadas e divertindo todos os fãs, pequenos ou adultos.

“Eu”, cover da gaúcha Graforreia Xilarmônica, é a primeira música de fora do álbum a ser ouvida com os instrumentos de brinquedo. John troca o violãozinho que vinha utilizando por uma miniguitarra, e o resultado disso é uma versão tão distorcida quanto à registrada no disco Ruído Rosa, de 2001.

Ricardo Koctus (baixo), Lulu Camargo (teclados) e Xande Tamietti (bateria) têm seus papéis bem definidos dentro da apresentação, assim como os convidados Mariá Portugal e Thiago Braga. Já John não se limita aos instrumentos de corda, manipulando todo tipo de bugiganga que cai em sua mão. É o caso do “lápis com uns troços grudados nele que fazem um som bem louco”, como ele mesmo descreve, utilizado para substituir os sopros na clássica introdução de “Frevo Mulher”, de Zé Ramalho. Nessa, o monstrengo Groco arrisca tocar uma zabumba. Já o fantoche Pochi, um poodle de pelúcia manipulado por Fernanda, faz uma participaçãozinha com seus estridentes vocais.

O guitarrista também se comunica bastante com a plateia, arrancando risos da criançada. Pede que todos imitem “ovelhas femininas de ambos os sexos” antes de “Ovelha Negra”, de Rita Lee, cantada em uníssono.

“Todos Estão Surdos”, de Roberto e Erasmo Carlos, também é acompanhada pela maioria, e antecede a primeira das raras canções autorais do show, a mineiríssima “Simplicidade”, que emociona até os marmanjos. Em “Live and Let Die”, explosão de serpentina e confete no lugar dos fogos utilizados por Paul McCartney. “O que a gente não faz pra impressionar um Beatle”, debocha John.

“Pelo Interfone”, de Ritchie, não sobreviveu ao teste do tempo tão bem quanto às demais músicas do repertório, ficando com um jeitão de lado B do show. “Twiggy Twiggy”, do duo japonês Pizzicato Five, cai bem não só pelo fato de Fernanda ser descendente de orientais, mas também pelas peculiaridades de seu arranjo, meio pop, meio orquestrado.

Fernanda brinca com o poodle Pochi, um dos vários elementos da apresentação

Após “Perdendo Dentes” – mais uma oportunidade de mostrar o repertório original do Pato Fu aos pequenos fãs, com direito a Xande “tocando” um pogobol – o momento mais terno da apresentação: “My Girl”, dos Temptations. Se a canção original do grupo norte-americano já é de derreter os corações mais gelados, imagine uma versão cantada por Fernanda Takai com um xilofone fazendo o riff marcante da música… Isso tudo com a plateia estalando os dedos para marcar o ritmo.

Quase no final de “Ska”, do Paralamas do Sucesso, um blecaute atinge vários bairros de Porto Alegre. Por sorte, a situação dura menos de cinco minutos, contornados pelos músicos com os instrumentos que podem ser tocados sem eletricidade. No reacender das luzes, “Sobre o Tempo”, possivelmente o maior sucesso do Pato Fu até hoje, é entoada por todos. Desta vez, além de tocar bateria, Xande espanca um joão-bobo sem dó no começo da música.

No bis, uma das mais famosas canções do repertório de Elvis Presley, “Love me Tender”, seguida por um “quase” cover do Queen. “Bohemian Rhapsody”, que chegou a ser cogitada para entrar no disco, começa com uma hilária introdução de Groco, que, supostamente emocionado, choraminga e pede para “pular para o heavy metal”. A banda atende e passa para o final da música, com os monstrengos dançando enlouquecidamente no fundo do cenário.

Mais que um programa para pais e filhos, o show é uma experiência divertida para quem gosta de música. Méritos para o Pato Fu, que, mesmo sendo uma banda com forte apelo pop, nunca se acomodou e deixou de apostar em novas sonoridades. O duro vai ser quando a turnê acabar, já que os músicos parecem se divertir como se realmente fossem crianças.

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