Mesmo com trinta anos de estrada, o Tears for Fears impressionou a plateia gaúcha

Fotos: Liny Rocks

Embora não possua nenhum disco novo desde o longínquo “Everybody Loves a Happy Ending” (2004), o Tears for Fears é atualmente uma banda de enorme relevância para o cenário pop/new wave. O grupo inglês, que completa trinta anos de carreira em 2011, comprovou definitivamente a importância do seu nome no primeiro show da pequena turnê que a banda realiza no mês de outubro em nosso país. Cerca de 2.500 pessoas compareceram ao Pepsi on Stage para conferir boa parte dos hits que a dupla Roland Orzabal e Curt Smith escreveram no passado e até hoje permanecem vivos nas rádios brasileiras.

O show frio de abertura – proporcionado por um músico estrangeiro aparentemente desconhecido – durou mais ou menos vinte minutos e passou batido para a maioria da plateia. Com uma faixa etária que girava em torno de trinta anos de idade, o público estava nitidamente ansioso para o início do espetáculo principal. O anúncio da turnê com cinco meses de antecedência e a abertura da casa duas horas antes do show proporcionaram um ambiente incrível para o momento exato em que o duo Roland Orzabal (vocal e guitarra) e Curt Smith (vocal e baixo) – acompanhados por uma banda contratada de apoio – subiu ao palco do Pepsi on Stage às 21h15. Por mais que tenham aberto mão de um início impactante, o Tears for Fears embalou os gaúchos com um repertório bastante coeso e repleto de hits. O estilo new wave do grupo, que por diversos momentos soa cadenciado com um contorno melódico bastante acentuado, animou todos aqueles que viveram a sua adolescência na década de oitenta.

Roland Orzabal esbanjou simpatia durante 1h35 de show

A música escolhida para iniciar a noite não poderia ter sido melhor. “Everybody Wants to Rule the World” não é apenas considerada uma das principais faixas criadas por Orzabal e Smith. Ela é frequentemente apontada como um dos hinos que marcou a geração new wave e até mesmo determinante para o sucesso do Tears for Fears no Brasil. Como não poderia ser diferente, a plateia cantou junto com o duo inglês e acompanhou com palmas durante boa parte da música. Na sequência, a balada “Secret World”, retirada do praticamente recente “Everybody Loves a Happy Ending” (2004), evidenciou bom gosto mesmo sem conquistar o reconhecimento imediato dos gaúchos. Em contrapartida, a animada “Sowing the Seeds of Love” – e principalmente “Change” – relembrou toda a áurea dourada dos anos oitenta criada pelo Tears for Fears.

Roland Orzabal aproveitou a primeira pausa para (curiosamente) conversar em bom português com o público. O músico agradeceu todo o carinho dos fãs gaúchos e ainda esbanjou simpatia ao afirmar que o Tears for Fears estava muito feliz em passar pela primeira vez na cidade – e que provavelmente voltará no futuro. Em seguida, o show dos ingleses abriu uma pequena brecha para outras músicas extremamente animadas de “Everybody Loves a Happy Ending” (2004): como “Call Me Mellow” e a própria faixa-título do disco. Pouco importou o fato da plateia pouco conhecer a trajetória mais recente do conjunto. O clima de nostalgia foi o que prevaleceu e contornou a continuidade do espetáculo com o hit “Mad World”.

Por ser justamente o primeiro show dos caras no Brasil fica um pouco complicado de analisar o sucesso que a turnê, que ainda prevê outras quatro datas, pode conquistar em nosso país. No entanto, o espetáculo proporcionado na capital gaúcha foi construído e executado de maneira impecável. Nenhum deslize da dupla pode ser mencionado, tampouco algum outro aspecto técnico momentaneamente deficiente ou insatisfatório. Da mesma forma, a sintonia entre banda e público merece ser destacada como a principal causa para que o show dos ingleses possa figurar entre os mais marcantes de 2011. O repertório do duo Orzabal & Smith ainda contou com “Memories Fade” e a bonita “Closest Thing to Heaven” antes do único momento controverso da performance do Tears for Fears. A versão estilizada – e que não caiu nada bem – de “Billie Jean” (Michael Jackson) não foi identificada de imediato e pouco causou impacto. Não por acaso que a música estava inclusive cogitada para deixar o set-list.

Entretanto, o espetáculo recuperou rapidamente a resposta positiva do público com outro hit: “Advice for the Young at Heart”. A plateia, que deixou para trás boa parte da timidez, arriscava as primeiras dancinhas mais empolgadas na pista do Pepsi on Stage. O clima animado permaneceu durante a performance de “Floating Down the River”, que funcionou de modo extremamente positivo ao vivo e pode ser colocada lado a lado com os maiores hits do grupo executados no início e no fim da noite. Depois de “Badman’s Song”, foi a vez da dobradinha “Pale Shelter” e “Break it Down Again” conduzir satisfatoriamente o show do Tears for Fears. O público cantou junto – e com muita vontade – durante as duas faixas e ainda interagiu com a dupla Orzabal e Smith em meio a abertura de bateria marcante de “Break it Down Again”.  Porém, nada se compara ao estrago que “Head Over Heels” fez. Esse é sem dúvida outro destaque absoluto do show que se encerrava por aqui.

No momento que antecedeu a volta do Tears for Fears ao palco do Pepsi on Stage, um pedido da plateia era facilmente identificado. Com uma espécie de cartaz estendido nas mãos – não maior que uma folha de ofício –, uma parcela significativa do público, sobretudo o que se localizava bem em frente ao palco, pedia por “Shout”. Entretanto, ninguém se sentiu contrariado com uma excelente versão executada de “Woman in Chains”. A baladinha foi reconhecida já nos seus primeiros acordes e o seu final não poderia ser mais óbvio: com muitas palmas e os fãs ovacionando o Tears for Fears como nunca antes. O hit “Shout” complementou o final praticamente apoteótico do show. A plateia cantou junto do início ao fim e pode comprovar que a dupla Orzabal e Smith ainda está em perfeita forma e sintonia sobre o palco.

Curt Smith fundou o Tears for Fears em 1981 e ajudou a consolidar o new wave no mundo inteiro

Não está errado dizer que o show proporcionado pelo grupo inglês não focou nenhuma novidade. Porém, é necessário afirmar que o Tears for Fears ainda cria um espetáculo homogêneo e convincente como essas músicas que já possuem mais de vinte anos de estrada. Roland Orzabal e Curt Smith certamente deixaram o palco do Pepsi on Stage contentes por ainda permanecerem importantes e queridos para boa parte do público que compareceu ao primeiro show da turnê brasileira. Do mesmo, a plateia, sem sobra de dúvidas, deixou a casa anestesiada com todo o ambiente nostálgico criado com 1h35 do melhor da música new wave.

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2 comentários sobre “Tears for Fears: muitos sucessos e poucas novidades

  1. Só queria saber de onde você tirou que Billie Jean foi cogitada a sair do setlist.
    Até porque desde a morte do MJ eles tocam em toda tour.

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