Professor Nelson Vieira explica a obra de Dalton Trevisan (Crédito: Brown University)

Nelson é um especialista na obra do escritor Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba, e a partir de sua visão de fora dos Brasil, podemos perceber a importância da obra de um dos maiores contistas do País. Doutor pela Universidade de Harvard, Nelson H. Vieira estudou no Brasil e em Portugal e, no período de 1980 a 1991, foi diretor de Estudos Portugueses e Brasileiros, na Universidade de Brown. Suas áreas de interesse acadêmico incluem literatura brasileira dos séculos 19 e 20; estudos culturais e identidade nacional; metaficção; tradução literária; além de raça, gênero, etnicidade e alteridade. Integrante do conselho editorial da Latin American Literary Review, Vieira é co-fundador e editor, nos Estados Unidos, da revista Brasil/Brazil: A Journal of Brazilian Literature.

Agora vamos direto ao que interessa:

 1) Como o senhor conheceu a obra de Dalton Trevisan? Qual foi o primeiro livro que leu dele?

 Eu tinha recebido, como presente, um exemplar da tradução de O Vampiro de Curitiba [The Vampire and Other Stories] (1972), traduzido por Gregory Rabassa. Isto aconteceu em junho de 1973 quando eu era um jovem professor, preparando um curso sobre a literatura brasileira em tradução na Brown University. Logo que li a tradução, como possível volume para a minha bibliografia de curso, procurei a coletânea original em português.  Daquele momento em diante fiquei grudado nas narrativas trevisanianas e, em pouco tempo, acabei lendo todas as coletâneas anteriores à do Vampiro. Descobri que Dalton Trevisan era um contista singular, inovador e distinto. Aliás, foi naquela altura que também me dei conta do papel importante da tradução para a divulgação de um autor ou uma obra.  Mais tarde, me tornei tradutor da literatura brasileira, me convencendo que, como “brazilianista”, era uma missão traduzir a fim de disseminar a grandeza e originalidade da literatura brasileira para um público internacional. E, por cima, percebi que a obra de Dalton Trevisan merecia este reconhecimento transnacional.

 2) Quais são as principais características da obra de Dalton Trevisan?

 As características principais da obra trevisaniana se assentam na repetição perspicaz, no humor negro e grotesco, nos dramas cotidianos da classe média-baixa e do povo, na violência latente no ser humano, na batalha dos sexos, nos desastres da vida urbana, no comportamento tabu escondido ou  na falsidade ou na hipocrisia social, na herança da tradição oral, em narrações e diálogos performativos, quase teatrais, e sobretudo na inovação estética do gênero, isto é, na forma “nada exemplar” dos seus contos.  É importante notar que o seu emprego da repetição não serve simplesmente para enfatizar os mesmos dramas, mas sim para dar a sensação de infinidade, intensidade e vivência, assim assinalando a perspectiva de ‘permanência’ no gestalt de um grupo ou cidade.  Variações compulsivas e incisivas à volta dos mesmos temas resultam em dramas empolgantes, refletivos, irônicos, paródicos, satiricos, grotescos, cumulativos, e até históricos. As suas narrativas são continuamente reconstruídas a fim de nos obrigar a nos reconhecer, a nos perscrutar, nós, os seus hipócritos leitores, seletivamente cegos e muitas vezes emocionalmente desamparados, penando como almas sofridas, mas, ao mesmo tempo, machucando o outro/a, enquanto perambulamos no caos universal das relações humanas e desumanas.

Dalton é conhecido por não dar entrevistas e não aparecer na imprensa (Crédito: Arquivo)

3) Apesar de suas histórias se passarem na cidade de Curitiba, o trabalho de Dalton acabou tendo reconhecimento nacional e até internacional. O que torna a obra do curitibano tão universal?

Wilson Martins definiu a obra daltonesca como cose mentale e por isso podemos entender porque DT reinventou a cidade de Curitiba, sintonizando-a com as desgraças humanas existentes em todas as cidades do mundo.  Curitiba está em nós todos. Como é dito na coletânea, Em Busca de Curitiba Perdida: “esta Curitiba eu viajo. (…) Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja…”. Não se trata da Curitiba, cidade verde, promulgada para o mundo afora como centro urbano com uma infrastrutura exemplar, mas uma Curitiba de alma.  Como estado de alma camaleônica, as suas narrativas são compostas de seres emocionalmente parecidos como nós, isto é, nos nossos momentos mais interiores ou íntimos, raramente revelados—nós que intermitentemente sentimos inseguros e frequentemente desafortunados.  Deste modo, nós todos fazemos parte do “romance” de Curitiba, uma comédia humana com seus capítulos e cantos concisos, grotescos, sombrios, compulsivos, e humorísticos.

111 AiS reúne 111 dos célebres minicontos de Dalton Trevisan (Crédito: Arquivo)

4) Gostaria que comentasse um pouco sobre o modo de construção de personagem do escritor curitibano. Muitas vezes eles são enigmáticos, minimalistas. Mas também há muita ação entre eles, pode-se dizer que o diálogo é um dos pontos altos da obra de Dalton Trevisan?

A obra de DT é “performativa” e se vê este aspecto teatral através dos diálogos e de uma narração que quase não tem narrador onisciente.  Os personagens falam por si próprios, mas simultaneamente são arquétipos de diversos aspectos do comportamento humano. Consequentemente, para o leitor trevisaniano, o conto mais curto poderia ser simplesmente: “João e Maria” porque estes dois evocam, ou melhor, despertam uma autoconsciência por serem figuras vulneráveis e abusadas—fisica-, social- e economicamente como sugere o título de outra coletânea, Pão e Sangue.   As percepções e revelações dos personagens são imediatamente pegadas pelo leitor, assim apontando que, na sua criação de um mundo imaginário curitibano, DT está nos lendo através dos personagens e também nos guiando pelo processo de penetrar e de melhor entender a nossa consciência humana, os nossos pensamentos, as nossas hesitações, os nossos segredos, os nossos atos bons e maus, honestos e falsos, as nossas violências duras e sutis, os nossos pecados escondidos e dificilmente auto-revelados ou aceitos.  Sejam participantes de cenas domésticas ou da rua, cenas cotidianas, banais, ousadas, chocantes, horríveis, brutais, tristes, eróticas, cruéis, perversas, os personagens de DT também participam virtualmente nas nossas próprias vidas e nos nossos pensamentos secretos que sempre emergem sugestivamente nas suas histórias, chamando a nossa atenção aos obstáculos, aos percalços, às peripécias, às perversões, às injusticas, e às provocações que a existência humana coloca na nossa frente.

 5) Quais foram as inovações que Dalton Trevisan trouxe para o formato conto? E o seu trabalho com o mini conto ajudou também a dar força a esse gênero, como no livro “Ah, é?”. Acha que essa é uma parte importante de sua obra também?

DT continua derrubando as fronteiras tradicionais do gênero, abrindo o espaço narrativo do conto para haikais, versos, mini-histórias, novelas, e baladas, com um experimentalismo estético de diálogo sem enfeites, descrição minimalista, narração invisível, assim renovando o gênero e desafiando os seus parâmetros clássicos.  A sua destreza em criar “flashes” nítidas de angústias, ofensas, crises, prazeres, e violências representa uma contribuição significativa para a literatura brasileira e as letras mundiais. O formato das suas narrativas — contos, haikais, versos, etc—nos mostra não somente o seu talento como gênio e mágico do gênero curto, mas sobretudo como a narrativa curta serve para dramatizar concisamente as repressões, inibições e perversões de seres urbanos que geralmente seguem vidas tão estruturadas, isto é, modos de comportamento prescritos, repetitivos e socialmente sancionados, que frequentemente acabam fazendo um papel já construído por outros.  É por isso que denomino a sua obra performativa porque personagens, narradores, autores, e leitores agindo ou escrevendo desta forma revelam a consciência entre o ser/self e comportamento social, esta percepção sendo performativa.

Livro clássico do autor (Crédito: Arquivo)

Além, disto a sua prosa minimalista reproduz as banalidades cortadas e o vernáculo colorido de Joões e Marias incultos ou rudes com o objetivo de  intensificar o aspecto popular dos seus anti-heróis desiludidos.  Ao empregar as personas e a oralidade do popular, DT reencena os modos cotidianos de vivência e sobrevivência a fim de chamar atenção a uma população, em estado precário, frequentemente esquecida pela sociedade brasileira.    Desta forma, ele evoca a presença ubíqua de fantasias, sonhos, depravações, e valores do proletariado dentro de um contexto de sexo e morte onde os vampiros sociais e psicológicos na forma de machistas perseguem as suas vítimas.  Através do emprego de humor e ironia mordazes, DT desfaz a mesmice implícita na imagem estereotipada das classes populares construída pela cultura de massa e da elite. Ele demonstra a miríade de diferenças, diversificações e contradições dentro de situações similares.  No seu processo de retrabalhar contos e as mesmas situações com personagens similares, mas diferentes no seu comportamento, DT também evoca a técnica de “variações de um tema,” não muito longe dos desafios e versos da literatura de cordel, e, por extensão, criando identificação através da repetição ou variação.

Nesse sentido, uma Curitiba emerge pelo comportamento performativo dos seus personagens. Em termos humanos, a sua arte representa simbólica e mentalmente o fim da linha de um coração-bonde dilacerado, a última paragem de um mundo cruel que se encontra em toda a parte—o pico na véia, a faca no coração.  DT não está evocando a sua cidade natal em termos geográficos, apesar das inúmeras referências concretas, mas sim invocando uma Curitiba de alma, uma Curitiba que viaja pela alma dele e pelas almas dos seus personagens e leitores mortais, nos seus momentos mais aflitos e dolorosos. E o que nos ainda impressiona, depois de tantas décadas de contos e coletâneas, é como a obra de DT é super atualizada, se evoluindo com suas novas coletâneas como O Maníaco do Olho Verde (2008) que fala de drogas e craque ao lado de vampiros bêbados morando nas periferias, nas vilas perigosas de traficantes, fazendo parte da turbulenta existência urbana.  Os seus vampiros não vivem segregados, não viajam de longe para Curitiba a fim de atacar as pessoas, mas moram sim, subjacentes na escuridão da alma, pertencendo a uma Curitiba de sensações como todos nós pertencemos pelo menos a um lugar:  “no fundo de cada filho de família dorme um vampiro” com os desejos carnais e às vezes violentos, servindo também como uma denúncia irônica do patriarcalismo vigente.

 6) O senhor já conversou com Dalton Trevisan alguma vez? O que acha da postura dele em relação a não dar entrevistas e  não aparecer em público? Suas obras realmente falam por ele?

 Correspondi com DT mas nunca o conheci pessoalmente, apesar de eu tentar na minha visita a Curitiba em 2009 para participar no festival do livro, e também com a esperança de conhecer o autor/criador de personagens e histórias inesquecíveis que leio durante décadas.  Respeito a sua preferência de deixar a obra falar por si porque DT acredita profundamente no poder da arte e é por isso que ele disse “o conto é sempre melhor que o contista”.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada – Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria

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