Por Edgar Aristimunho*

Reunião de contos publicados por Henrique Schneider em sua coluna dominical no jornal ABC Domingo (Crédito: Dublinense)

Encontrar a literatura como quem está ao lado dos trilhos de trem – e o trem passa, e a vida é breve. Com esse movimento quase incessante (para não dizer inquietante), o gaúcho Henrique Schneider nos apresenta o seu belo livro de contos A vida é breve e passa ao lado (Editora Dublinense, 2011). O autor é um observador, alguém que se parou ao lado do trem da vida e dali constrói a sua literatura. E que literatura! Fundada na técnica dos grandes contistas de sempre dizer muito com muito pouco, Schneider desenha ao leitor o painel da vida a partir de esquetes insensatos do cotidiano.

O livro A vida é breve e passa ao lado é comporto por 44 contos que haviam sido publicados na coluna dominical do jornal ABC Domingo. Nos contos, o autor trata de temas como relacionamentos, pequenos crimes, misérias cotidianas, desamor e solidão, nos quais vai criando uma galeria de personagens que são considerados a partir do cotidiano simples e literal em que se inserem. De certa forma e num olhar rápido, os contos estão bastante imbuídos da natureza jornalística da superfície em que foram originalmente publicados, mas uma vez que nasceram para o mundo, os contos de Henrique Schneider versam sobre algo maior do que a simples notícia do cotidiano. Eles são a própria vida e existência daquelas criaturas tão perplexas, quase simples, mas sem dúvida são contos que registram a vida de forma complexa e em seus procedimentos mais orgânicos e emocionais. Estão ali registrados com força e economia todos os conflitos básicos e essenciais do mundo. A separação amorosa. O filho longe do pai.  A ética. O encanto da rotina. A nossa verve perversiva e permissiva. Todos esses são temas e personagens que vão, um a um, criando possibilidades narrativas para que o escritor se aproxime dos grandes rios da literatura universal.

O estilo do escritor que nasce em A vida é breve e passa ao lado (belo título que joga e se aproxima de um clássico como A vida breve, de Juan Carlos Onetti) tem uma trilha bem desenhada na literatura brasileira, mas talvez seja muito longe e há muito tempo atrás que ele foi buscar parte de sua inspiração. E ainda que o leitor acredite que a literatura possa ser datada, os contos de Henrique Schneider são compactados, atemporais e incrivelmente universais – ainda que se passe por ali, no Vale dos Sinos. Mais ainda: se em seu estilo reconhecemos a economia escrita de um Dalton Trevisan ao registrar o cotidiano (violento por vezes) de suas personagens, também podemos notar em sua crueza narrativa o sangue, ginga e a tragédia de um Nelson Rodrigues. Tragédia e perversidade: mais brasileiro impossível. Contudo, o escritor gaúcho vai mais longe, abraça os grandes contistas que formaram o gênero, e se por momentos apanhamos nele a simetria de um efeito preparado (ao estilo de Edgar Allan Poe), por certo podemos acentuar que a grande matriz narrativa do autor é o escritor russo Anton Tchekhov. Eis porque então surgem com força na escrita desse autor – não exatamente um estreante, e a sensação é de que já escreveu uma obra inteira antes de chegar a esta síntese – a essência do conto bem escritos. Estão ali os procedimentos econômicos da narrativa curta dimensionados na amplidão de pequenas histórias que em poucas páginas nos dizem um mundo. Schneider bota o pé, sobe e vai fundo nessa linha sem fim que é o homem em seu contexto de luta e sofrimento; de paixão e lirismo; de cotidiano e esperança. Sai daí o melhor de seus contos.

A vida é breve e passa ao lado é uma aposta. Grande e ao mesmo tempo curta – como nos impõe a brevidade da vida. Grande no seu alcance como literatura que diz do homem e da humanidade; curta na certeza quase marcial de sua escrita enxuta, ritmada, resfolegante. Exatamente como um trem que passa ao lado, determinado no seu objetivo final de alcançar o leitor e na sua implacável forma de dizer o outro, esse que encontramos todos os dias ao nosso lado, na plataforma da estação, no banco do trem, este que nos enche de questionamentos sobre o sentido de tudo isso. O outro, o homem.

* *É escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela editoria Dom Quixote o livro de contos O Homem perplexo (2008) e participou da antologia Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com)

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