O Nonada inicia a sua cobertura do Oscar 2012 com o filme As Aventuras de Tintim. Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que têm chance de levar alguma estatueta para casa.

Por Gustavo Dutra*

O filme diverte e retoma a boa forma do diretor Spielberg (Crédito: Sony Pictures)

Os créditos iniciais de As Aventuras de Tintim, que homenageiam o universo dos quadrinhos em seu estilo 2D, já transmitem a primeira boa impressão do longa – impressão que se mantém até os minutos finais. Na verdade, o filme não é apenas o primeiro de Steven Spielberg no campo da animação, mas também a primeira aventura digna de sua assinatura desde Jurassic Park, lançado há longos 19 anos. Conduzido com uma energia que o diretor há anos não exibia, Tintim mostra que aquele Spielberg que se tornou famoso como um dos pais do blockbuster ainda existe e finalmente voltou a dar sinais de vida.

Inspirado pelos quadrinhos criados pelo belga Hergé no final da década de 1920 (com os quais, devo dizer, não tenho qualquer familiaridade), As Aventuras de Tintim traz o personagem-título (Jamie Bell) sendo perseguido pelo misterioso Sakharine (Daniel Craig) depois de comprar uma miniatura do navio Licorne. Quando descobre o segredo oculto no modelo, Tintim é sequestrado pelo sujeito e encarcerado na embarcação outrora capitaneada por Archibald Haddock (Andy Serkis), também prisioneiro do vilão por possuir um antigo segredo de família que possivelmente envolve um tesouro. Assim, Tintim e Haddock, sempre acompanhados do esperto cãozinho Milu, decidem fazer o possível para vencer Sakharine nessa corrida do ouro.

Escrito por Steven Moffat, Joe Cornish e Edgar Wright (este último, o responsável por Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Scott Pilgrim Contra o Mundo), a grande falha de As Aventuras de Tintim está no fraco desenvolvimento de seus personagens, que permanecem figuras unidimensionais – e o protagonista, ao contrário de Indiana Jones (comparação inevitável), nunca se torna o mais interessante dos heróis. Assim, é pena que Tintim sempre tenha a cena roubada pelo divertido capitão Haddock (mais um ótimo trabalho de Andy Serkis) e, principalmente, pelo pequeno Milu. Por outro lado, é surpreendente que o Spielberg que apagou as espingardas de E.T., conduziu um genocídio clean em Guerra dos Mundos e limitou a violência de Cavalo de Guerra traga tantos tiroteios e confrontos armados nesta aventura infantil – o que, longe de ser um defeito, traça um retrato de época mais convincente e confere urgência à trama.

(Crédito: Sony Pictures)

Aproveitando ao máximo o fim das limitações do mundo real, Spielberg diverte-se não apenas nos vários quadros que trazem os personagens refletidos em algum objeto (já que não há o risco de câmera e equipe aparecerem), mas, principalmente, na concepção das sequências de ação – e se o plano sem cortes em que Milu sobe a escada, salta pela janela e cai em um caminhão e o flashback que traz uma batalha no Licorne durante uma tempestade já são admiráveis, não chegam nem perto da sensacional perseguição na cidade de Bagghar: concebida como um plano-sequência longo e frenético que faz o percurso do bilhete de trem em O Expresso Polar parecer brincadeira, a cena traz inúmeros elementos e figurantes enquanto os personagens percorrem ruas, prédios, aposentos, canais e deslizam em fios suspensos enquanto um tanque arrasta a fachada de um hotel – uma sequência que, por si só, vale todo o filme, representando uma das melhores que Spielberg já dirigiu em sua carreira.

Exibindo um preciosismo técnico digno da Pixar, a compleição física dos personagens de As Aventuras de Tintim jamais deixa de convencer, mesmo aqueles de visual mais caricato (como os estúpidos agentes Dupond e Dupont, vividos pelos ótimos Simon Pegg e Nick Frost): é possível ver suor e sinais de barba na pele dos personagens, Haddock cospe ao falar e gotículas de água sopram quando uma escotilha é aberta. E enquanto Spielberg retoma velhas parcerias com o montador Michael Kahn e o diretor de fotografia Janusz Kaminski, que enriquecem o filme com uma iluminação típica de filmes de mistério e fusões de cena criativas (merecendo destaque o mar que se transforma numa poça d’água e, é claro, o navio que traz o oceano consigo, cobrindo o deserto), o mestre John Williams investe numa trilha empolgante e eficiente – embora faça falta um tema para o personagem, principalmente se lembrarmos que este é (muito provavelmente) o primeiro exemplar de uma franquia.

Incluindo uma “ponta”de Hergé nos minutos iniciais, Spielberg ainda merece aplausos por usar o 3D com economia, evitando torná-lo uma distração tola. E ainda que falte equilíbrio no tom do filme (a morte de certo personagem não combina, por exemplo, com a estratégia absurda do vilão para roubar um objeto), é inegável que o cineasta conseguiu criar uma aventura digna dos seus tempos de juventude – e torçamos para que isso dê um novo fôlego à carreira do cineasta. Esse Spielberg faz falta.

* Estudante de jornalismo da UFRGS, autor do blog http://saladeprojecao.wordpress.com/

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