O Nonada segue a sua cobertura do Oscar 2012 com o filme Cavalo de Guerra. Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que têm (ou não) chance de levar alguma estatueta para casa.

Por Demétrio Pereira

"Se levar o meu cavalo, não vou lamentar a tua morte”. (Crédito: Divulgação)

Quando então decido escrever sobre Cavalo de Guerra, o filme ostenta um 7,3 no IMDb e seis indicações ao Oscar. Listo para me livrar → direção de arte, fotografia, trilha sonora, edição de som, mixagem de som e filme → e me livro porque é um delírio sequer haver box para o cavalo de Spielberg nessa cancha reta, por mais babaquice se espere desses tapetes vermelhos e limusines e decotes mais caros que um PIB dalgum lugar e faustosidades que tais. Mas falo do cavalo, e esse é dos de Troia, e isso nem se candidataria a problema, seus ulisses não estivessem tão à mostra. Daria para lançar na conta do Michael Morpurgo, autor do livro, mas ele é inocente enquanto não concorre a ser mais que um best-seller infanto-juvenil. Para uma prova da pegada constrangedora do filme, se valha aí de uma aba de google, uma imagem deve bastar. Sentiu o melodrama? Se sim, Cavalo de Guerra é mesmo todo esse kitsch e este texto é um pleonasmo. Se não, meta lá 7,3 estrelas de virgindade no currículo dos teus olhos cândidos e vem comigo.

A única justificativa para a ostensiva manipulação emocional de Cavalo de Guerra seria um eventual direcionamento para crianças. Idosos de saudade fácil. Alguém que curta Lassie. Mas não, Spielberg concorre a estatuetas por ter compendiado em duas horas e meia os mais filistinos clichês arranca-lágrimas da história do audiovisual. Tanto que, para criticar, basta parafrasear. Começa numa pradaria, menino branco com pinta de paladino observa com deslumbre gratuito o nascimento de um potro, a música diz que isso é tão lindo que devemos chorar. Daí um corte abrupto que disputaria com o osso e a nave de Kubrick se dissesse qualquer coisa além de má edição e lá está o animal adolescendo em 1914: uma odisseia nos verdes do sul da Inglaterra. E lá está Albert (Jeremy Irvine) ainda mais apaixonado, nunca vai se saber por quê. Essa é a única característica de Albie.

O animal não é dele, mas logo se acha remédio: seu pai, o miserável e alcoólatra e manquejante veterano de guerra Ted Narracott (Peter Mullan), resolve depositar suas escassas economias no puro-sangue em um leilão no qual desafia o arrendador de seu sítio, o malvado sr. Lyons (David Thewlis). Após gritar um valor impensável, Narracott vence a disputa por um bicho que ele não queria e do qual não gosta. Então Narracott é repreendido em casa pela mulher, Rose (Emily Watson), cuja única característica é o estoicismo – não importa a pilha de cagadas do marido, ela vai xingar por puro protocolo e depois se conformar, que é o que as mulheres devem fazer, somos dados a entender. Rose percebe que o homem colocou a família inteira em risco por um cavalo inútil, e o time de roteiristas nem mesmo conseguiu achar uma explicação para levar à boca de Ted.

Agora, sem dinheiro para o aluguel nem a simpatia do sr. Lyons, eles são ameaçados de perder a fazenda. Como Albie só se preocupa em fingir que o cavalo – Joey – é um ser ciente e entendedor de inglês, ele não dá a mínima para essa situação: gasta tempo oferecendo maçãs ao amigo e o chamando com um assovio metido a indígena (o auge de intimidade entre os dois principais personagens é um chamar e o outro ir).

Fica decidido que Joey será usado para arar o campo. A safra pagaria o aluguel. Séculos de Inglaterra rural não devem ter visto fazendeiros tão incompetentes quanto os Narracotts, que, sem cogitar mulas e cavalos menos nobres para o serviço (suponho que os animais que aravam a terra antes de Joey estavam de férias), puseram um puro-sangue a arar um campo do qual eles não atinaram que, antes, era preciso remover as pedras. Mas tudo bem, a música grandiloquente de John Williams nos informa que é para ser heroico mesmo. E como é: o campo é arado em UM DIA, sob chuva e dezenas de olhares de uma vizinhança que torce muito a favor, mesmo abaixo de tempestade, mas que é incapaz de emprestar sequer um dos seus animais para ajudar um idoso deficiente físico e um adolescente de 14 anos.

Pequenas vitórias e pequenos fracassos vão passando como grandes dramas até que Joey se torna um luxo insustentável e Ted se vê obrigado a vendê-lo para um honrado capitão inglês, sem escapar das críticas de Rose, que havia aprendido – sabe-se lá como – a gostar do cavalo. Albie fica desconsolado, corre até a cidade para evitar tamanha catástrofe, mas o mal já estava feito, Joey segue para a guerra, onde vai espalhar azar por onde passar. Todos os soldados que cruzam com Joey são as pessoas mais bacanas que já se viu nas guerras do mundo. Fica fácil notar o que liga os personagens com alguma proeminência na história: todos se arrebatam de paixão imediata por Joey sem terem nenhuma boa razão para isso. Eles gostam de repetir coisas como miracle horse mesmo que Joey não tenha feito nada senão ser o cavalo que é. E, de fato, ele não faz muita coisa. Passa o filme inteiro correndo sem motivo depois de azarar os bons corações que encontra pelo caminho. Joey não tenta reencontrar o dono, não carrega uma mensagem, não corre para salvar ninguém e desconfio que nem mesmo para se salvar. Ele percorre a galope toda a I Guerra Mundial, sem ser alvejado nem tropeçar em uma mina terrestre, por nada.

Primeiro morre o oficial inglês. E o que faz Albie ao descobrir que morreu em batalha aquele bom homem que prometeu devolver Joey ao fim da guerra, senão ficar angustiado com o destino incerto do cavalo? Ótimo sujeito. Mas a música epopeica de John Williams avisa que está tudo bem, pois veja a que estupidez Joey sobrevive: os ingleses investem contra um acampamento alemão adormecido, matam bastante e cruzam triunfantes uma floresta para se encontrarem emboscados por metralhadoras inimigas APONTADAS PARA O PRÓPRIO ACAMPAMENTO. E dá-lhe fogo amigo.

“Só comprei porque gosto de te ver irritada”. (Crédito: Divulgação)

Joey e Topthorn (outro robusto cavalo ex-inglês) são aproveitados pelos alemães para carregar feridos. Miracle horse percebe que Topthorn se recusa a enfiar a cabeça na coalheira, então vai lá e ensina o colega de espécie, que aprende de pronto. Acompanhado pelo namorado e aluno, Joey leva os seus maus agouros a um jovem alemão que tenta desertar com o irmão caçula, cumprindo promessa que fizera para a Mutter – já que ele é um personagem proeminente e, por isso, é também bondoso e pacifista. Traidores, os irmãos são executados pelos alemães, não sem antes esconderem a dupla de equinos dentro de um moinho. Uma menininha francesa irritante órfã de pai e mãe acha os cavalos e os leva para casa. Quando alemães chegam ao local saqueando tudo o que veem pela frente, ela e seu avô (Niels Arestrup, a única boa atuação no filme) decidem arriscar a vida escondendo os cavalos no sótão e negando que haja qualquer coisa de interesse na peça. Por que essa devoção? Não se sabe. Mas a sorte sorri, os alemães dão o fora sem os equinos.

Embora tenha advertido que ela não deveria cavalgar, pois seus ossos são muito quebradiços e coisa e tal, um dia o avô presenteia a francesinha com a sela da falecida mãe dela e nesse dia a francesinha sai galopando profissionalmente morro acima até desaparecer de vista. O avô sobe o morro para descobrir que a neta havia sido capturada pelo exército alemão do outro lado de um puta lago. Tudo em uns 20 segundos diegéticos.

Joey e Topthorn voltam a ser instantaneamente adorados, um soldado de bom coração – ! – os adota. O protagonista espera a sua vez entre cavalos que puxam armamento pesado. Topthorn sofre com a tarefa, os soldados cogitam matá-lo, mas Joey entende inglês (todos as vozes do mundo são inglesas ou inglesas com sotaque, salvo algumas no background, para dar um feeling mais true, you know?) e dispara de seu descanso para oferecer seus músculos e salvar o amigo. Depois desse grande ato de sapiência sobre-equina, ele ainda olha altivo para a câmera, um dos muitos momentos em que só falta aparecer no canto da tela uma placa escrito “chore agora”.

Descobrimos que estamos em 1918 na sanguinolenta Batalha do Somme e que Albie, satisfazendo sua urgência de quatro anos antes, está iludindo a morte nas trincheiras sob o álibi de procurar seu cavalo. Joey também galopa trincheiras, e noutro acesso de correria sem sentido ele se enreda em cercas de arame farpado na terra de ninguém, entre ingleses e alemães. Passa a noite lá, definhando. Amanhece e um soldado inglês de binóculo descobre um cavalo entre milhares de cadáveres humanos, se apaixona e, PRESTE ATENÇÃO, ergue uma bandeira branca e vai lá salvar Joey. Surge outro problema de 10 segundos (o filme é prolífico em falsas tensões): o soldado precisa de mais alicates. Depois de ter a vida preservada por todo o exército alemão, ele abusa e pede ferramentas ao inimigo. Claro que eles também se dobram de ternura por Joey: de onde há pouco se lançavam tiros e bombas, agora vem uma chuva de alicates. Mas não basta. Para que a parábola não fique metafórica demais, um alemão tem mesmo de ir ajudar o inglês. Os dois precisam falar sobre a vida, disputar o cavalo salvo e resolver a questão no cara ou coroa. Cavalo de Guerra não deixa o vento soprar a resposta. Não, não é como Dylan, não é como nada que se possa chamar de arte. As mensagens acabam todas empasteladas no ridículo de como são ditas. Esteticamente, Cavalo de Guerra tem o valor de um calendário seicho-no-ie.

Pois então o soldado inglês, ganhador na moeda, implora a um médico militar (cheio de gente fodida para cuidar) que trate Joey. O doutor se recusa e ordena que o cavalo seja sacrificado. São poucos segundos de mais falsa tensão até que Albie, temporariamente cegado por curativos e se recuperando ali por perto, descobre parapsicologicamente que aquele burburinho sobre cavalo tem a ver com Joey. Ele abandona o leito e sai fazendo seu apito indígena, e mesmo que Joey não esboce reação alguma, todo o amontoamento de pessoas ao redor do cavalo se abre para Albie passar e reencontrar seu animal, num momento em que a maior alegria é saber que chegamos aos finalmentes. Mas calma que há mais tensão de vida curta: Albie precisa convencer o médico a cuidar de Joey. Mesmo vendado, ele informa as características do cavalo, que vão se confirmando uma a uma após tirarem o barro de sobre o pelo do bicho. Aí todos entram em lua-de-mel e o médico diz que irá tratar Joey como o verdadeiro soldado que ele é. Quer dizer, antes eu não te conhecia e te matava, agora eu não te conheço nem conheço teu dono e te trato como um verdadeiro soldado. E tome John Williams garimpando lágrimas.

No final, há um combo insuportável de falsas tensões. Acabou a guerra, mas Albie não pode levar o cavalo consigo por não ser um oficial : ( . Mas seus colegas esfarrapados oferecem tudo o que têm para que ele recupere Joey em um leilão : ) . Mas um açougueiro briga pau a pau pelo cavalo : ( . Mas os amigos ajudam Albie : ) . Mas aparece o avô da francesinha e oferece um Palácio de Versalhes e leva Joey : ( . Mas Albie vai conversar com ele : ) . Mas o avô diz que a netinha morreu, Albie tem dó e deixa o velho levar o cavalo : ( . Mas o avô, que já ia embora, volta atrás e entrega o cavalo para Albie assim, de graça, mesmo que nem o conheça : ) .

Como termina? Com a fotografia mentirosa de Janusz Kaminski lambuzando o céu eternamente nublado de Devon com o doído dourado de um sol poente que se despede enquanto se abraçam os Narracots. Isso depois de Albie devolver a Ted uma insígnia que o pai guardava junto às lembranças escondidas de uma guerra da qual ele não se orgulhava. Os méritos técnicos de Cavalo de Guerra estão todos a serviço desse tipo de dramalhão disneylândico. Se bem que Spielberg goste de ser piegas, ele nunca havia chegado a tanto, e se aqui ficou de menos a análise, é que a descrição já serve para ir ateando primeiros fogos ao cavalo. Que vá bater à porta de outra cidade.

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