Fotos: Fernando Halal

Uma horda de camisetas pretas invadiu o Teatro do Bourbon Country na noite desta quarta-feira, 25 de abril. Os frequentadores do shopping que dá nome ao teatro observavam, entre curiosos e desconfiados, a intensa movimentação de sujeitos com moicanos ou cabelos compridos cujas presenças faziam um evidente contraste com o ambiente em que se encontravam.

Visual baseado em filmes de terror é tão importante quanto a música no show do Misfits

Se alguém se assustou com a massa de punks e headbangers, foi em vão. Há muito tempo que essas duas tribos convivem harmoniosamente e, excetuando algum grupo mais radical, é difícil ver um conflito entre eles. Ainda mais quando estão unidos por um objetivo em comum: assistir aos shows de dois grandes nomes do rock pesado, Anthrax e Misfits. Bandas que marcaram época nos anos 80, mas que seguem em plena atividade 30 anos depois.

 Um evento desses dentro de um shopping pode parecer bizarro, mas tem uma explicação lógica. A apresentação estava marcada para o Gigantinho. Não é preciso ser gênio para adivinhar que não foram vendidos ingressos suficientes para lotar o ginásio – as bandas são boas, mas não populares a esse ponto. Sendo assim, era natural que a Opus Promoções realocasse as apresentações para um espaço menor, e, como o teatro é administrado pela produtora, acabou sendo a opção óbvia.

 O Misfits foi a primeira banda a subir ao palco e fez uma apresentação curta e direta, como suas composições. Por isso, mesmo tocando por apenas uma hora, Jerry Only (vocais e baixo), Dez Cadena (guitarra e vocais) e Eric “Goat” Arce (bateria) tiveram tempo para tocar mais de 20 músicas, fazendo um bom apanhado de sua longa carreira. O problema é que o som parecia embolado, com pouca distinção entre a guitarra e o distorcidíssimo baixo de Only.

Cantando e tocando baixo, o fortão Jerry Only comanda o Misfits desde a saída de Danzig

O fortão, que assumiu os vocais há cerca de dez anos, cantou a maioria das faixas, deixando algumas para o guitarrista. Único membro original e líder da banda norte-americana desde a saída de Glenn Danzig, ainda nos anos 80, Only se mostrou um sujeito carismático, mesmo falando pouco. As maquiagens e indumentárias são um show à parte. E nem poderiam deixar de ser, já que a banda é um ícone da cultura trash, dos filmes às HQs de terror.

 Sobre o repertório… Bem, rolaram alguns clássicos (“Halloween”, “Skulls”, “She”), alguns hits dos tempos em que a banda conseguiu espaço na MTV (“American Psycho”, “Dig Up her Bones”) e faixas do disco novo, The Devil’s Rain (“Vivid Red”, “Land of the Dead”, “Monkey’s Paw”). Certamente os fãs sentiram falta de músicas como “Last Caress” e “Green Hell”, que, resgatadas pelo Metallica, ganharam uma notoriedade meio tardia. Mas “Die, Die my Darling”, sabiamente deixada para o final, fez a alegria dos iniciados e dos que conheciam o grupo apenas através dos covers feitos pelo quarteto de São Francisco. Uma performance divertida e intensa, como reza a cartilha do punk rock.

Frank Bello e Joey Belladona mandando ver no primeiro show do Anthrax em Porto Alegre

A expectativa pelo show do Anthrax era enorme. Primeiro, porque a banda nunca havia se apresentado em Porto Alegre. Segundo, porque Joey Belladona está de volta – sim, o cara que gravou hinos do thrash metal em álbuns históricos como Spreading the Disease e Among the Living. E, com todo o respeito devido aos bons serviços prestados por John Bush, Belladona é um vocalista incontestavelmente mais versátil.

Não se deixe enganar pela cara de irmão mais novo do Serguei: o homem segue com um gogó poderoso, capaz de atingir agudos impensáveis para um sujeito de 51 anos e logo depois urrar feito um maníaco. E, entre faixas novas do elogiadíssimo Worship Music, como “Earth on Hell” e “The Devil You Know” o Anthrax ganhou a massa mesmo é com as indefectíveis “Caught in a Mosh”, “Anti-Social” e “Indians”.

Scott Ian, o responsável por manter a banda na ativa até hoje

Ao contrário do que ocorreu no show de abertura, o som estava cristalino, possibilitando ouvir cada detalhe do baixo de Frank Bello e das guitarras de Rob Caggiano e Scott Ian, mesmo com os bumbos ensurdecedores de Charlie Benante. Entre uma paulada e outra, a banda interagia bastante com a plateia. Enquanto Belladona dava seus famosos socos no ar e fazia gestos sugestivos para um fã que aparentemente estava puxando um “fuminho”, Ian tratava de fazer o papel de mestre de cerimônias. E não é para menos, já que ele é o único remanescente da primeira formação do Anthrax. “Muito obrigado”, disse, para depois emendar, em inglês: “Foram as únicas palavras que eu sei em português”. Depois, citou uma série de marcas de cerveja – algumas pronunciadas de forma inintelegível. “Aprendi só o que realmente importa”, ironizou.

Os bis (foram dois) merecem destaque. As jurássicas “Madhouse” e “Metal Thrashing Mad” poderiam ter encerrado o show de forma brilhante, mas ainda teve espaço para o rap “I’m the Man”, um trecho de “Refuse/Resist”, do Sepultura, cantado por Ian, e “I Am the Law”.Todo mundo saiu meio surdo do teatro, mas valeu a pena.

 

Outros

– O vocalista e guitarrista Kyp Malone, mais conhecido por seu trabalho no TV on the Radio, banda que tocou na primeira edição do Lollapalooza Brasil, trouxe seu projeto Rain Machine ao Beco203 no dia 20. Mesmo anunciado aos 45 minutos do segundo tempo, o show teve um público razoável, que certamente não se arrependeu de conferir  a apresentação de Kyp, dono de uma voz personalíssima e com um talento para compor inquestionável. Ah, em maio o Beco promete muitos shows desse nível, para a alegria dos indies. Em um próximo post falaremos sobre eles.

 – Os fãs de hardcore têm um bom motivo para ficar em Porto Alegre no feriadão. No dia 30 de abril, segunda-feira, um dos maiores expoentes do HC californiano tocará na cidade. É o Agent Orange, que fará uma apresentação no Dhomba, encerrando o encontro de skate Swell Old Is Cool, que vai reunir profissionais e amadores da elite mundial do esporte a partir do dia 28, na Swell Skate Camp, em Viamão.

 – Sobre Bob Dylan, um comentário breve e mais pessoal, pois o cara vetou a imprensa em seus shows no Brasil. Ou seja, teoricamente, ninguém estava lá para fazer review do show – eu, pelo menos, não. Embora no inadequado Pepsi on Stage – cuja acústica melhorou 90% de uns tempos pra cá – a lenda do folk superou as expectativas de quem achava que ele não tinha mais voz. A pergunta é: desde quando Dylan precisou ter uma baita voz? Quem estava lá queria ver o mito. Rouco pra caramba, mas com uma banda de apoio respeitável e um belo arsenal de canções, o homem pôde se dar ao luxo de não tocar vários hits e sequer falar com a plateia. Mas tudo bem; se o fizesse, não seria o verdadeiro Dylan.

 

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