Por Gustavo Dutra

Com a despedida da franquia Harry Potter dos cinemas no ano passado, ficou vago o lugar da “grande série baseada em livros juvenis”. Tentativas foram feitas, mais notadamente o fraco Percy Jackson e o Ladrão de Raios (do mesmo Chris Columbus que apresentou Harry às telas) e, é claro, a terrível “saga” Crepúsculo, cujo machismo, cafonice e incompetência cinematográfica já são conhecidos. Com Jogos Vorazes, porém, o jovem bruxo parece ter encontrado um substituto digno: ainda que o filme tenha sua cota de problemas, um conceito interessante move sua trama e – o mais importante – sua protagonista é uma figura feminina forte, corajosa e independente. Bella Swan, você está fazendo isso errado.

Jogos Vorazes é um bom filme voltado para o público adolescente (Crédito: Divulgação)

Adaptado por Gary Ross (que também assume a direção), Billy Ray e Suzanne Collins a partir do primeiro livro de uma trilogia escrita por esta última, Jogos Vorazes afasta-se dos títulos citados no parágrafo anterior por deixar a fantasia de lado em favor de uma abordagem mais realista – no caso, um futuro distópico num país batizado de Panem (sim, de panem et circenses), cujos 12 distritos são mantidos em condições precárias pelo governo em função de uma revolta ocorrida há décadas e cujo fracasso foi o embrião dos jogos do título: uma competição televisionada em que um casal de adolescentes de cada distrito é colocado em um ambiente hostil onde devem caçar uns aos outros até o último sobrevivente. Temendo pela segurança da irmã mais nova, que foi sorteada, a jovem Katniss (Jennifer Lawrence) se oferece como voluntária (ou “tributo”) do Distrito 12, participando de um intenso treinamento e de shows televisivos enquanto nota que poderá estar morta em poucas semanas.

Mais pesado e adulto que seus colegas juvenis, Jogos Vorazes surpreende não só pela violência de sua história, mas também por estabelecer com destaque o contexto político daquele país, cujo governo totalitário divide algumas características com aqueles de clássicos literários como 1984 – e a pobreza dos distritos é enfatizada pela fotografia granulada e pelas roupas sem vida usadas por seus habitantes, causando um contraste agressivo com a tecnologia desenvolvida e os visuais altamente kitsch dos moradores da capital de Panem (Lady Gaga passaria batida por lá). E embora a longa sequência da competição em si funcione bem, as críticas mais ferozes da trama se encontram na primeira metade, que não economiza golpes em um complexo midiático que explora o ser humano como urubus sobre a carniça (aqui, quase literalmente). E se não é difícil enxergar o personagem de Wes Bentley como o Boninho daquela versão piorada do BBB (dá pra conceber?), a comparação do apresentador vivido por Stanley Tucci com Pedro Bial é ainda mais inevitável, já que se mostra tão irritantemente vazio e fútil quanto o verdadeiro.

O veterano Donald Sutherland aproveita muito bem o pequeno tempo em que aparece no filme (Crédito: Divulgação)

Já Gary Ross faz um trabalho correto na maior parte do tempo, ainda que mostre um vício terrível ao empregar frequentemente uma câmera na mão quase epilética nas cenas de ação, comprometendo o impacto de duas sequências importantes: o início e o último confronto da competição (por outro lado, Ross acerta em reduzir o som de algumas cenas, ressaltando a confusão da protagonista). Não economizando nos detalhes sangrentos da história que está contando, o diretor investe em enquadramentos que observam os personagens do alto, ao mesmo tempo emulando uma câmera do reality show e causando tensão por sugerir que algo além de um telespectador pode estar vigiando a heroína. E se o diretor falha em transmitir o impacto emocional da morte de certo personagem, a catarse vem em seguida quando um simples gesto de Katniss é o bastante para dar início a uma rebelião, demonstrando a força de um exemplo dramático – e o desfecho da história é intrigante por sugerir o potencial que um elemento não previsto pode ter para que tudo saia de controle.

Encabeçando um respeitável time de atores, a ótima Jennifer Lawrence (Inverno da Alma, X-Men: Primeira Classe) é bem-sucedida em estabelecer a força de Katniss, cativando a simpatia e o respeito do público desde o início – e até mesmo o romance ensaiado com o personagem de Josh Hutcherson assume uma postura pragmática, nada idealizada (já que vem como demanda do circo de horrores). Entre o elenco secundário, o destaque vai para Woody Harrelson: vivendo o antigo vencedor dos jogos Haymitch de forma bem mais contida do que o habitual, o ator consegue sugerir os enormes traumas do personagem sem que isso precise ser verbalizado. Já o veterano Donald Sutherland aproveita ao máximo seu pouco tempo em cena como o Presidente Snow, deixando a promessa de que tornará um vilão de peso na continuação Em Chamas (que já tem estreia marcada para novembro de 2013).

Equivocando-se ao não deixar claro se o ambiente em que a disputa acontece é real ou uma grande câmara controlada à distância (os lobos “gerados” são uma das poucas ideias realmente ruins), Jogos Vorazes pode não ser impecável, mas representa um esforço acima da média voltado ao público adolescente. E caso mantenha seus personagens e seu universo coerentes com o que foi apresentado aqui, há em vista uma franquia bastante promissora.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

Um comentário sobre “Gladiadores na TV”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *