2012 marca os 150 anos de nascimento de Gustav Klimt - detalhe de "As três idades da mulher", de1905 (Crédito: Reprodução)

Já começaram as comemorações relativas aos 150 anos do nascimento do mais influente artista da Secessão de Viena – movimento que, em fins do século XIX, provocou um rompimento da arte em relação ao academicismo no contexto austríaco. Gustav Klimt (1862 – 1918) marcou a história das artes plásticas, e não há quem não se embriague com a exuberância de seus quadros, muitos carregados de dourados opulentos. Como não poderia deixar de ser, o mundo das artes já o está tratando como o aniversariante do ano, com as devidas homenagens, antes mesmo da data oficial do aniversário (14 de julho).

"O Beijo" (1908) está em exposição comemorativa do Museu Belvedere de Viena (Crédito: Reprodução)

A Neue Galerie de Nova Iorque inaugurou recentemente uma mostra comemorativa sobre o pintor: em suas paredes podem ser vistos os seus famosos retratos de mulheres que, abarcando elementos mitológicos e influências da arte bizantina, muitos dizem ter aberto caminho para as nossas femme fatales. Em Viena, os museus Belvedere, Leopold, Albertina e o de Viena também destacam obras de Klimt, como “O Beijo”, uma de suas mais famosas. Nesta, ele chegou a utilizar uma cobertura de ouro em pó para criar o fundo brilhante, além de ter aplicado folhas de ouro nos trajes dos personagens representados. A influência do Simbolismo mostra-se nas tonalidades da pele da mulher, que leva a uma dupla interpretação sobre seu estado (êxtase ou morte/decapitação?).

Filho de ourives, Klimt chegou à escola de artes com conhecimentos de arte aplicada, o que já o distanciou de certa forma da arte acadêmica. Sabendo lidar com o ouro, não abriu mão de incorporá-lo em seu trabalho artístico. Mas não é muito fácil se transportar para o contexto em que seu trabalho foi produzido, e compreender os ataques que sofreu: duramente criticado, ele foi tachado de pornográfico, o que o levou a ter de abandonar um grande projeto de pintura de murais na Universidade de Viena. Era o custo de ser de vanguarda? Para o nosso olhar contemporâneo, a delicadeza dos seus nus e dos seus temas afetivos, mesmo quando eróticos (muitos atribuem a ele a frase “all art is erotic”), não chocam tanto quanto causam fascínio.

Com senso comercial, Klimt conseguiu se aproximar da elite judaica após romper com a aristocracia e com o governo da Áustria, e fazer quadros sob encomenda, principalmente retratos. Abandonou os tons dourados apenas no final da sua vida, substituindo-os por tons pastéis.

É interessante notar como os seus elementos estéticos foram diversas vezes incorporados pelo mercado. Como exemplo, cito a Barbie inspirada em Klimt: tomando como referência o “Retrato de Adele Bloch-Bauer I”, ela traz os mosaicos bizantinos e motivos egípcios no vestido, assim como as joias semelhantes às retratadas na pintura (imagem abaixo). Vontade de ter uma, não? John Galliano, em 2008, também se apossou do estilo do artista austríaco, apresentando em um desfile da Dior uma coleção orientada pelos vestidos das mulheres representadas por Klimt. 

O "Retrato de Adele Blockh-Bauer I" (1907), de Klimt, e as derivações da Barbie e da Dior (Crédito/Reprodução)

Já levando para o lado dos produtos de gosto mais duvidoso, inventaram neste ano o aplicativo para o Facebook intitulado Klimt Yourself!, em que qualquer pessoa pode fazer um upload da própria foto e “tornar-se uma pintura de Klimt”. Desnecessário. Se é para “klimtear-se”, então que seja no sentido de conhecer melhor o artista. É uma pena que nós, no Brasil, não possamos olhar de perto e perceber os detalhes dos seus trabalhos. Ainda assim, a reprodução de seus quadros é consideravelmente ampla, um dos fatores que o tornaram tão popular por aqui também.

*Dica: Raoul Ruiz dirigiu o filme Klimt (2006), inspirado na vida do pintor austríaco. Ele não toma a sua biografia como ponto chave, mas sim os elementos da sua trajetória (mudanças de estilo, cores do cenário, etc.). Quem assume o papel principal é John Malkovich. Trailer aqui.

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