Retorno do herói é eficiente, mas deve em alguns aspectos ao trabalho de 2002. (Crédito: divulgação)

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, EUA, 2012)

Direção: Marc Webb

Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves, baseado nos personagens de Stan Lee e Steve Ditko.

Com: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka e Leit Gantvoort.

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Lançado em 2002, o Homem-Aranha de Sam Raimi era a confirmação de que a tendência mais séria dos super-heróis no cinema iniciada dois anos antes com X-Men viera para ficar. Era um trabalho que, mesmo cheio de sequências de ação intensas, preocupava-se em trabalhar com a humanidade de seus personagens – algo ainda mais notável na continuação lançada em 2004, que trazia um segundo ato quase totalmente baseado em diálogos e na angústia de seu protagonista, feito raríssimo em produções do gênero. Já o terceiro, de 2007, era uma obra, na melhor das hipóteses, terrivelmente irregular, já que suas boas ideias se perdiam em meio a um turbilhão de excessos. Apenas cinco anos depois, o herói mais adorado da Marvel volta às telas repaginado, numa abordagem consideravemente diferente daquela vista há uma década.

Essa abordagem, é importante citar, pode causar estranhamento à primeira vista. Peter Parker ainda é tímido, retraído e inteligente, sim, mas deixou de ser o nerd bobão de Tobey Maguire – mais uma mostra de como, nos últimos anos, a nerdice tende menos a ser vista como a última pá de terra na vida social de um jovem. Séries como Community, The Big Bang Theory e filmes como Paul brincam com a cultura nerd sem necessariamente estigmatizá-la, mesmo com as peculiaridades e esquisitices de seus personagens. Claro que pode-se argumentar que muito desse fenômeno é um modismo (como argumentam os nerds clássicos); no entanto, isso contribuiu para uma amenização dos estereótipos entre os jovens. Peter continua sem grande traquejo social, mas já não é objeto de ridículo, chegando até mesmo a impor-se contra seu antigo algoz do ensino médio, Flash Thompson – que também deixou de ser um simples clichê do “valentão”, sendo capaz de manifestar alguma empatia.

Dinâmica familiar entre Ben, May e Peter ganha um pouco mais de espaço. (Crédito: divulgação)

Escrito por James Vanderbilt (Zodíaco), Steve Kloves (saga Harry Potter) e pelo veterano Alvin Sargent (de volta ao Cabeça de Teia aos 85 anos, depois de roteirizar Homem-Aranha 2 e 3), O Espetacular Homem-Aranha reconta a origem do herói (Garfield) – desta vez, incluindo uma subtrama sobre o desaparecimento de seus pais, que o deixaram ainda muito pequeno com os tios Ben (Sheen) e May (Field). Nos anos finais da escola, Peter encontra documentos de uma pesquisa que ligam seu pai ao Dr. Curt Connors (Ifans), que trabalha na poderosa Oscorp. Depois de ser picado por uma aranha modificada (em circunstâncias que mostram que a Oscorp possui a pior segurança do mundo), Peter revela ao cientista os elementos faltantes em sua busca por um soro regenerativo – um erro que transformará Connors no temível Lagarto.

Diferente do filme de 2002, esse novo exemplar funciona melhor em sua segunda metade, já que, apesar do Peter Parker mais “descolado”, que chega a andar de skate (até os óculos voltam por um motivo específico, já que Peter adotou lentes de contato), a primeira hora pouco mais é do que uma mal disfarçada repetição do que vimos há dez anos: Peter é picado, desenvolve assombrosas habilidades e, movido por um sentimento vingativo, contribui para a morte do tio. O roteiro até tenta conferir um ar de novidade (os fãs ficarão chocados com a ausência da clássica fala “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”), mas gasta um longo tempo para estabelecer fatos que ainda estão claros na memória do espectador – algo que só não é tão aborrecido quanto poderia principalmente devido à dinâmica familiar mantida por Martin Sheen, Andrew Garfield e Sally Field: em meio ao amor, há espaço para discussões e desentendimentos, soando menos idílica do que aquela (eficiente) do original.

Gwen Stacy (Emma Stone) é um bom par romântico para o herói. (Crédito: divulgação)

Mais realista também é a relação que se desenvolve entre Peter e Gwen Stacy (a bela e carismática Emma Stone), que não é tratada como aquela idealização de Mary Jane: Peter e Gwen são mais parecidos; e justamente por isso é divertido vê-lo tentando vencer a timidez para conquistá-la. Além disso, Garfield e Stone mostram uma boa química em cena – e é ótimo notar que Gwen se mostra quase o oposto completo de Mary Jane, já que, ao invés de ser a típica “mocinha em perigo”, a garota se mostra fundamental para os planos do namorado de deter o vilão. Este, por sua vez, é vivido de forma intensa por Rhys Ifans: ao mesmo tempo em que faz do Lagarto um adversário à altura do herói, Ifans se sai bem ao explorar a dubiedade de Connors, que, mesmo mostrando uma admirável postura ética contra uma corporação impessoal (a vilã favorita de Hollywood), pode ter mais a ver com o desaparecimento dos pais de Peter do que gostaria de admitir.

Finalmente, Andrew Garfield, um ator que divide opiniões, recebe a enorme tarefa de convencer num papel que, ainda muito recentemente, foi encarnado com grande competência por Tobey Maguire – e o fato é que é difícil cortar tal relação em tão pouco tempo, o que pode pesar contra a repercussão de seu trabalho. Mesmo assim, Garfield confere carisma ao personagem, saindo-se especialmente bem nos momentos em que Peter descobre suas novas capacidades – e o fato de ser mais magro que Maguire ajuda a tornar o herói mais vulnerável, somado a outras decisões na concepção do personagem: os poderes de Peter são mais limitados, fazendo com que suas acrobacias remetam mais ao parkour do que a habilidades aracnídeas. E o fato das teias não serem mais biológicas, dependendo de lançadores, o torna ainda mais frágil frente a seu inimigo. Além disso, é uma boa sacada do roteiro fazê-lo voltar para casa todos os dias coberto de ferimentos, para desespero de sua tia.

Estreando no comando de uma superprodução depois do superestimado (500) Dias com Ela, Marc Webb falha no que Homem-Aranha 1 e 2 se destacaram: o drama, que ora soa diluído, ora excessivo. Inábil na utilização do 3D, Webb parece acreditar que objetos lançados na direção da câmera ainda são novidade, e não um elemento visual deselegante ao extremo (que fica ainda pior numa projeção tradicional). Em contrapartida, o diretor se sai bem na construção de um clímax emocionante e tenso e na condução dos confrontos físicos, montados com energia sem soar confusos. Por sua vez, o roteiro, mesmo acertando no bom humor do protagonista (e além de uma referência hilária a Godzilla, há aqui uma das melhores pontas de Stan Lee), peca por abandonar alguns elementos, como a perseguição de Peter ao assassino do tio, o plano do Lagarto de transformar outros humanos (depois de colocada em prática, nada é feito com a ideia), e, claro, a trama conspiratória sobre os pais de Peter, que fica pendente para a inevitável continuação (e a mensagem de voz deixada pelo tio Ben soa falsa para alguém que, no momento, estava justificadamente irritado). E enquanto a concepção visual se mostra mais realista do que nos filmes de Sam Raimi, investindo numa paleta de cores menos destacadas, a trilha sonora de James Horner é eficaz, mesmo exibindo o fraco do compositor por coros femininos e – mais grave – trazendo, em alguns momentos, acordes que parecem saídos diretamente de seu trabalho em Titanic.

Pode-se – e deve-se – questionar a rapidez para a interrupção de uma série que, apesar de um capítulo fraco, ainda tinha plenas condições de continuar. No entanto, isso não deve ser usado para desmerecer esse reboot que, se não chega a ser digno do adjetivo presente em seu título, possui seus próprios méritos. E, com o devido rigor, quem garante que o novo Homem-Aranha não venha mesmo a ser espetacular numa próxima aventura?

OBS: Como já virou praticamente obrigação em filmes inspirados em personagens da Marvel, há uma cena durante os créditos finais.

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Um comentário sobre “Menos espetacular que Sam Raimi

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