Sandra Rey, curadora da mostra "Fazer e desfazer a paisagem", apresenta a montagem "Jardim das Delícias I" (Crédito: Divulgação)

A relação do ser humano com o entorno é assunto que atravessa a história da arte em suas diversas especificidades, da pintura à música, do vídeo à dança, do desenho à performance. Nas artes visuais, a percepção sobre a paisagem é objeto antigo de reflexão. A mostra que abre a temporada de 2013 do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS) recupera e renova tal tema a partir de diferentes olhares. Fazer e desfazer a paisagem, exposição que está em cartaz desde 2 de março, apresenta séries de trabalhos de vários artistas sobre a paisagem que envolve o homem – ou então, sobre o homem que, pela arte, ressignifica a paisagem.

Resultado das discussões do grupo de pesquisa “Processos Híbridos na Arte Contemporânea”, cuja curadoria é da professora Sandra Rey, a mostra foi organizada no contexto do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os artistas envolvidos (Beatriz Rauscher, Bruno Borne, Celeste Almeida, Elaine Tedesco, Eliane Charon, Lurdi Blauth, Ricardo Cristofaro, Shirley Paes Leme e a própria Sandra Rey) selecionaram seus trabalhos pensando nos processos de construção e desconstrução do ambiente pela arte, não deixando de fora as “fraturas” decorrentes desses processos.

As técnicas utilizadas são diversas, mas a fotografia e a intervenção sobre ela predominam no conjunto. Um dos trabalhos que lidam com ela de forma intrigante é o de Bruno Borne, Ficus in memoriam. Partindo de recortes de jornal sobre um fato específico – no caso, o corte de uma figueira localizada na praça Otávio Rocha em Porto Alegre, ocorrido em janeiro de 2011 –, ele reconstruiu uma ausência a partir da computação gráfica. As fotos do acontecimento na imprensa, com a árvore já cortada, serviram de base para evocar a presença imponente da natureza, pensando no vazio deixado pelo seu desaparecimento. A planta foi reconstituída digitalmente sobre as fotos.

"Ficus in memoriam", de Bruno Borne, utiliza computação gráfica sobre recortes da imprensa (Crédito: Divulgação)

Impossível não reparar na atualidade do tema em questão, apesar dos dois anos passados desde o fato que gerou a obra (a árvore foi cortada devido a um projeto da prefeitura de revitalização do espaço). O artista poderia realizar outros tantos trabalhos utilizando a mesma estratégia, tomando como base as notícias da imprensa porto-alegrense sobre as últimas ações de corte de árvores, e refazendo paisagens desfeitas.

Mas a relação entre a paisagem e a natureza, como é destacado pela curadora Sandra Rey no texto de apresentação da exposição, não é questão única das reflexões. Essa relação é expandida de forma a alcançar os sujeitos e a cultura como elementos essenciais na construção e reconstrução do ambiente. 

O trabalho de Sandra Rey é emblemático nesse sentido, já que pensa o contato do ser humano com a natureza, especificamente através da caminhada, como um ponto de partida para desdobramentos. DesDOBRAmentos da Paisagem é o título da série que gerou a obra em exposição. O registro fotográfico de trajetos pelo mangue na praia de Encanto (Ilha de Tinharé – Bahia) foi organizado de forma a explorar as múltiplas possibilidades de olhares sobre a mesma imagem. Uma foto desdobra-se em diferentes quadros – isoladamente cada um propõe uma visão, e em conjunto, uma nova paisagem se apresenta ao público.

Celeste Almeida também trabalha a partir da fotografia na série "Fragmentos da Paisagem" (Crédito: Divulgação)

Instigantes também são as imagens da série Landscape of the Road, de Beatriz Rauscher, que utilizando a câmera fotográfica em baixa velocidade captou a paisagem da estrada a partir do seu próprio olhar em deslocamento. Borrões, misturas de cor e indefinições são o resultado, evocando o contraste entre o ponto em movimento e o ponto fixo, que se intercalam dependendo da referência. Os trabalhos de Celeste Almeida, da mesma forma, compõem belos quadros, mas a opção técnica na série Fragmentos da Paisagem foi outra. A sobreposição de fotos de paisagens da primavera, ou então a colagem de diferentes fotos com intervenção via computador, criaram espécies de estampas, sugerindo um entorno que transcende a natureza “dura” ou “física”.

Itinerante, a exposição já passou pela Casa de Cultura da Universidade de Federal de Juiz de Fora, pela Pinacoteca da Feevale, em Novo Hamburgo, e pelo Museu de Arte de Ribeirão Preto, tendo o MAC-RS como o seu ponto de chegada. Trata-se de uma interessante oportunidade para conhecer um trabalho de intercâmbio e colaboração entre artistas contemporâneos. As obras propõem um panorama diversificado acerca das percepções e possibilidades de interpretação do entorno – difícil é sair das galerias sem repensar a forma de olhar para o nosso ambiente imediato.

Fazer e desfazer a paisagem fica em cartaz até o dia 7 de abril de 2013. O Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul fica no 6º andar da Casa de Cultura Mário Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro. Porto Alegre – RS).

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